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Debatendo Cinema: Trilogia das Cores: A Liberdade é Azul

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A Liberdade é Azul

A Liberdade é Azul

Coluna de Gabriella Tomasi sobre a sétima arte; uma análise mais aprofundada do cinema

Por Gabriella Tomasi

Krzysztof Kieślowski foi um diretor polonês muito importante para a história da sétima arte. Seus filmes sempre almejavam uma experiência diferente, tanto estética quanto intelectualmente. Para quem é cinéfilo e gosta de aprender mais sobre linguagem narrativa do cinema, ele é um dos cineastas que o fã deve estudar. Dentre seus projetos, um dos que mais se destacaram foi a sua Trilogia das Cores, na qual Kieślowski trabalhava os conceitos burgueses revolucionários da França, lema que carrega até os dias de hoje: Liberdade, Igualdade e Fraternidade representadas pelas cores de sua bandeira: Azul, Branco e Vermelho, respectivamente. Neste sentido, o cineasta se apropria destes conceitos e desenvolve uma narrativa reflexiva acerca do significado de cada um desses valores no contexto da modernidade. Por conseguinte nascem os filmes: A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha, todos dirigidos por ele mesmo.  Ao longo dos meses, iremos avaliar como o diretor explorou as cores e a temática que simbolizam seus títulos.

Começando por A Liberdade é Azul, Kieślowski teve que se deparar com dois aspectos que, a princípio, poderiam ser contraditórios, ou seja, o fato de que azul, na escala de cores da fotografia do cinema normalmente é associada à tristeza e à melancolia. A liberdade, que, por sua vez, é associada à conquista de direitos e que produz um significado mais positivo na mente da pessoa. No entanto, o que se busca mostrar nessa obra é que a liberdade muitas vezes tem um custo alto, ela pode ser limitada pelo direito do outro ou, ainda, pode ser algo que aprisiona, agonia, fragiliza e, por conseguinte possui um efeito degradante em nosso íntimo. Em uma sociedade onde todas as liberdades são garantidas, não podemos esquecer que o exercício de qualquer uma delas pode impactar o próximo. É nesse sentido que Kieślowski constrói sua narrativa, abusando das tonalidades frias do azul para representar não somente o estado de ânimo da sua protagonista, mas também para subverter essa ideia de que o sentimento libertário é ilimitado e fácil de ser alcançado.

Sendo assim, acompanhamos a história de Julie, uma mulher casada e com uma filha de 5 anos. Desde os primeiros minutos, o cineasta constrói uma ambientação impactante que, sem quaisquer diálogos, nos mostra em planos-detalhes o que viria a acontecer. Planos estes que são desde cedo invadidos notoriamente pela cor azul, e evitando qualquer recurso didático, vemos um vazamento em uma das peças do carro durante uma viagem em família. O acidente, na sequencia, desperta a atenção de um adolescente que ali estava presente e corre ao local para prestar socorro. Em um plano geral, percebemos a ideia de isolamento, com o propósito de ressaltar a área afastada da cidade em que as pessoas ali se encontram e para que o espectador possa digerir a tragédia ocorrida. Hospitalizada, a protagonista em seguida se encontra desamparada ao receber a triste notícia pelos médicos de que seu marido Patrice e filha não haviam sobrevivido. O peso deste fato é tanto que o cineasta simboliza aquele sentimento por meio de planos desfocados, muitos deles na perspectiva de baixo para cima (contra-plongée), querendo transparecer o quanto Julie se sente diminuída e pressionada pelo mundo a ponto de cogitar (e tentar) o suicídio.

A Liberdade é Azul

A Liberdade é Azul

A partir de sua recuperação física e consequente retorno à casa, Kieślowski desenvolve uma jornada muito difícil de superação de um trauma que, para tanto, Julie precisa enfrentar e aprender certos aspectos da vida do ex-marido que antes não tinha conhecimento. Convém ressaltar uma escolha muito acertada do diretor que é não é tornar esta obra um melodrama: Julie não chora, pouco expõe seus sentimentos, mas são nos pequenos gestos que ela demonstra sua dor e seu luto, como: o olhar melancólico, o jeito reservado e frio, o pouco contato social e com o ambiente externo. Além de sua própria superação, ela ainda tem que ao mesmo tempo lidar com a falta de privacidade pela imprensa, devido à notoriedade da profissão de músico e compositor que tinha seu marido. Somente pelas reportagens na televisão que anunciam sua morte, cobrem o funeral e posteriormente matérias sobre sua vida pessoal e profissional.

Posteriormente, quando Julie retorna pela primeira vez em casa, a mise-en-scène faz um papel importante do primeiro contato da protagonista com o seu lar. Ela visita os cômodos, e a sensação de vazio pode ser sentida tanto por ela quanto pelo espectador. A câmera que acompanha os olhos contemplativos do passado, mas ressentidos, assim como os movimentos da personagem que faz com que pouco a pouco ela redescubra aquele local que era uma vez seu lar – devagar e pacientemente. Kieślowski, nesta cena, propõe uma câmera que também reflete o estado emocional de Julie, quando a steadicam permanecia calma e fixa no rosto da atriz, os planos tremidos que na sequencia são executados demonstram uma desestabilização ao encontrar uma das empregadas em prantos. Muito se pode extrair também da personalidade da protagonista quando ela se mostra próxima dos empregados da casa ao demiti-los deixando uma quantia generosa para que eles tenham uma vida confortável ou quando ela se relaciona com eles.

A direção de arte fez um papel importante na construção desse cenário, uma mansão antiga e enorme, cujo silêncio arrebatador reforça essa ausência de vida causada pela morte de sua filha e marido. Os tons frios da fotografia também contribuem para esse sentimento de melancolia. Mas é apenas quando se chega ao quarto da filha é que isso realmente se intensifica. Interessante notar como todo o ambiente é carregado de azul, quando normalmente se associa à cor rosa para uma criança do sexo feminino e é maravilhoso, por conseguinte, como um detalhe como esse subverte todo esse pré-conceito. Ao se aproximar de um lindo lustre com pedras azuis, Julie arranca alguma dessas pedras. Esse gesto que a princípio poderia passar despercebido é repleto de significado: coincide com o fato de que sua vida sofreu uma grande perda de si mesma, e o momento em que também coincide quando ela se desfaz de todos os bens materiais, vende todos os seus pertences, toda a mobília, objetos, incluindo o pirulito favorito de sua filha, sendo que o único item que ela realmente guarda é aquele mesmo lustre, agora “deformado” pelas pedras que ela tinha arrancado, representando exatamente o símbolo de uma lembrança de algo inocente e lindo que foi tirado dela.

Outro momento de grande importância narrativa é quando Julie encontra um pedaço de uma partitura da composição do marido no piano. Na sequencia, o enquadramento em detalhe das notas em um plano azul toma conta da tela e, enquanto Julie passa seus dedos entre elas, a música vai tomando forma e, dessa forma, o som passa a ser tanto diegético pois se reproduz na mente da protagonista, mas também não diegético pois apenas o espectador consegue materializar a composição. Kieślowski foi muito cuidadoso ao também inserir o foco que acompanha a movimentação linear dos dedos de Julie criando um efeito muito especial – como se estivéssemos lendo junto com ela. O diretor repete a mesma técnica em rimas visuais que conferem uma intimidade e um impacto muito maior com o trabalho artístico do marido e de uma maneira simples, visual e sutil.

Julie então a partir desse contato com o passado e o desapego dele faz ela tomar certas atitudes como transar com o amigo de seu marido, chamado Olivier, que era apaixonado por ela já há muito tempo.  Mas o ato sexual em si não é aleatório, ou seja, ele é mais um dos passos que a protagonista toma para enterrar o passado e começar a ser independente, o que também justifica o fato de não levar a relação adiante e se mudar para um lugar longe onde não quer ser encontrada, na cidade de Paris.

Julie passa então para uma vida quieta e calma do interior para um apartamento na cidade grande. Essa diferença (extremos opostos) entre as duas moradias, assim como o fato de alugar o imóvel em seu nome de solteira, se revela uma reação à liberdade almejada por ela. Notem também a maneira como ela decora seu novo lar em comparação ao seu antigo: um lugar muito iluminado, com plantas que ela pode cuidar pessoalmente (antes havia um jardineiro); móveis mais simples; paredes brancas e o lustre azul de sua filha instalado no centro do apartamento para que ela tenha a “lembrança”, como ela mesma coincetua, sempre perto.

A Liberdade é Azul

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Contudo, a reclusão e a privacidade que antes ela tinha, já não tem mais, ao ser constantemente “interrompida” em seu cotidiano por outras pessoas como a síndica do edifício ou sua vizinha Lucille com quem acaba fazendo amizade, assim como o retorno do passado que ela tanto quer se desvencilhar. Outra forma de refúgio é quando Julie passa seu tempo livre na piscina, nadando, em planos em azul intenso, o que reforça o sentimento de tristeza. Em certo momento, Lucille a encontra no local e pergunta se estava chorando. “É a água”, responde, demonstrando que a água se tornou o ambiente perfeito em que pode desabafar e onde ninguém poderá realmente reconhecer ela chorando. Quando Julie em outro momento faz um favor para Lucille, ela descobre por um programa de televisão, em uma homenagem a seu marido, que este tinha uma amante mais nova, chamada Sandrine, e que ela jamais sabia.

A curiosidade lhe toma conta e ao descobrir que a amante é uma estagiária no tribunal, Julie comparece ao local para saber quem ela é realmente. Pensando em uma forma de conectar todos os filmes de trilogia, o diretor resolveu optar por um recurso metalingüístico maravilhoso que conecta a história com a da segunda sequencia, A Igualdade é Branca, na qual Julie se depara com uma sessão de julgamento que acontece no segundo filme. Podemos testemunhar apenas um fragmento da cena, já que tudo é visto a partir da perspectiva de Julie quando ela observa o evento através de uma janela pequena, mas é o suficiente para relacionar as narrativas. Em seguida, a protagonista se dá conta que deve enfrentar o passado de que ela tanto fugir. Sandrine confessa que a traía com o marido, que eles se amavam e que agora está grávida de um filho dele. Olivier também retorna à cidade e insiste em pedir a ajuda de Julie para terminar uma composição inacabada do marido, já que, apesar de ela querer esquecer tudo o que aconteceu, acredita que o trabalho começado não pode ser jogado fora, em nome de seu legado para a música clássica. É a partir deste momento que ela percebe que mesmo querendo fugir de todos os vínculos para amenizar a sua dor, o passado acaba retornando sem querer, sendo mais simbólico ainda em uma cena em que ela, completamente assustada, reconhece as notas do seu marido em flauta tocada por um morador de rua e que, mais tarde, influencia no desfecho da canção.

A solidão e o sofrimento que são marcados devido à perda de alguém não são transparecidas somente na tragédia que aconteceu, na perda emocional e os segredos que ela nem sabia do marido, mas também pela perda da memória, haja vista sua mãe sofrer do mal de Alzheimer. Fisicamente ela está viva, mas mentalmente praticamente não, já que mal reconhece sua filha e, portanto, o relacionamento entre ambas não é o mesmo. Julie inclusive vê um lado positivo nisso, uma vez que em determinado momento desabafa várias coisas que a mãe ignora por não saber assimilar as informações. É tocante a tristeza e a agonia sentidas por Julie.

O silêncio antes em sua antiga casa também possui um relevante elemento narrativo que exalta toda a solidão vivenciada por Julie na vida urbana; ou quando esquece do mundo no parque; ou na piscina. A paleta fria que a sempre acompanha, mesmo na linda e viva Paris demonstra que ela está inserida em uma realidade bastante triste. Poucos são os momentos onde há a musica, e quando há, a trilha sonora é composta em sua maioria por harmonias de ópera. Como Patrice atuava no mesmo estilo de música, nada mais conveniente do que trabalhar esse aspecto. Assim sendo, Kieślowski mistura o som diegético e o não diegético, sempre brincando com a noção do que o espectador ouve ao mesmo tempo que a protagonista (o mesmo recurso utilizado quando Julie encontra a partitura de seu amado). Reparem, por exemplo, como as notas se sobressaem em cenas em que se utilizam  “fade-in” fade-out”, no qual a tela de repente fica branca e volta para o rosto de Julie: são sempre momentos de tensão, de recordação e revelações do seu ex-marido que retornam.

Por fim, a última decisão de Julie em terminar a música de seu marido é uma grande metáfora de como ela precisou encarar certas situações ao invés de fugir delas, conforme abordados anteriormente. Ao doar sua casa para Sandrine, ao se envolver diretamente com Olivier e a música do seu marido, ela passa por um processo de luto diferente, de superação.

A Liberdade portanto é revelada como um caminho árduo e custoso muitas vezes, mas se nos permitirmos vencer os obstáculos, podemos encontrar espaço para o novo.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

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