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Crítica: vale a pena assistir “Churchill” estreia da semana?

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Churchill - Publicity

Churchill – Publicity

Dirigido por Jonathan Teplitzky. Roteirizado por Alex von Tunzelmann. Elenco: Brian Cox, Miranda Richardson, John Slattery, Ella Purnell, James Purefoy

Por Gabriella Tomasi

O primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, foi uma figura política extremamente importante e emblemática para a história européia, tendo em vista sua atuação durante a Segunda Guerra Mundial contra a ocupação nazista e que também atuou lado a lado com os Estados Unidos na base aliada. Uma cinebiografia sobre sua pessoa é muito interessante, eis que o político sempre defendeu os ideais de paz e anti guerra. O longa-metragem dirigido por Teplitzky visa narrar um retrato íntimo de Churchill, interpretado aqui por Brian Cox, e o momento conhecido como o Dia D, ou seja, a Batalha na Normandia que era então denominada pelos militares de Operação Overlord para desembarcar as tropas aliadas na região francesa e libertar o país da ocupação de Hitler em seu território.

Este filme possui uma das fotografias contemplativas mais bonitas. O ambiente natural e os delírios de Churchill sobre seu passado foi uma abordagem psicológica eficiente nos primeiros minutos de projeção, sempre isolando o personagem em meio ao quadro, com tonalidades frias e cinzentas, corpos deitados sobre a praia e o vermelho do sangue no rio, demonstra o peso que ele sente de sua responsabilidade durante um período delicado. O contraste ao final, no mesmo local, mas com cores mais quentes trazem finalmente uma sensação de tranqüilidade. O isolamento também diz muito sobre seu estado emocional como, por exemplo, a sensação de solidão e impotência, ou então durante uma conversa com o General Eisenhower (Slattery), em que este é posicionado frente a uma imensa estrutura grega, simbolizando o seu ego. Brian Cox, por sua vez, faz uma atuação exemplar, comovente, que tenta dar diferentes facetas ao seu protagonista quando muitas vezes o roteiro não dá.

Neste contexto, apesar de esteticamente muito bonito, o roteiro deste filme é o que sai mais prejudicado. Ora, quando trata-se de contar a biografia de uma pessoa em um determinado momento de sua vida, o mínimo que se espera é coerência, algo que o longa não possui. Isto porque o conflito gira em torno de Churchill aceitar ou não que as suas tropas desembarcassem na França, eis seu receio de causar um massacre pela ofensiva do Eixo.  Porém, ele é o único conflito desenvolvido para um filme de cem minutos; o seu medo é o único elemento que move a narrativa, sendo impossível, portanto, conhecer qualquer outro aspecto da personalidade e da intimidade do líder britânico. A história basicamente desenvolve brigas e gritos provocados pelo próprio protagonista, desafiando qualquer um que passe pela frente, justificando suas atitudes com base em um trauma para adiar a execução da operação. Trauma este que é solucionado de forma abrupta aos 46 minutos do segundo tempo com um sermão de sua secretária que não faz sentido algum.

Pior, ainda, é atribuir a este filme o gênero de cinebiografia, sendo que é completamente duvidosa a atitude do primeiro-ministro de adiar o máximo que poderia para o Dia D. Vemos o protagonista rezando inclusive para que as condições climáticas piorem e a operação não fosse possível de acontecer, sendo que, na realidade, Churchill foi um dos maiores ativistas que trabalharam para que tal missão se concretizasse, havendo ele mesmo chamado o exército dos Estados Unidos para auxiliarem acreditando ser a única forma de combater os alemães. Contraditório, no mínimo, não somente pintar o retrato de uma pessoa que evita o tempo todo algo que, na vida real, ajudou e encorajava a acontecer, mas também focar em um drama quatro dias antes de uma operação que já estava acontecendo há meses. E menos lógico ainda, é que no momento mais decisivo para a narrativa o protagonista se abstenha de participar, se restringindo apenas a observar líderes militares tomarem as mais cruciais deliberações, criando uma (inexistente) rivalidade entre eles. Churchill, em suma, é meramente um personagem que se presta a atrapalhar (mais do que auxiliar) a operação mais importante do desfecho da Segunda Guerra, vivendo em um mundo aleatório particular que simplesmente não funciona com a magnitude da trama principal. Aliás, Teplitzky tenta até imprimir uma “corrida” contra o tempo que não chega a acontecer devido à previsibilidade de seu final e as tentativas pífias de estabelecer uma personalidade complexa que na verdade beiram ao unidimencional. Churchill ignora tudo e todos em favor de seus próprios interesses, não fazendo jus a quem ele realmente foi: um dos homens mais admirados e influenciadores da história.

Churchill, em suma, é um filme que dá voltas e voltas na sua própria história sem nunca realmente trabalhar suas ideias e quando desenvolve algo, vai à contramão de todos os fatos reais. A esperança é que o filme A Hora Mais Negra, de Joe Wright seja mais fiel e convincente.

 

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

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