O Museu-Templo, o Museu-Vitrine e o Museu-Laboratório
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O Museu-Templo, o Museu-Vitrine e o Museu-Laboratório

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Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

O Museu-Templo, o Museu-Vitrine e o Museu-Laboratório

Desde o surgimento dos museus e sua proliferação pelo mundo ocidental e/ou ocidentalizado no período do fim do século XVIII e no século XIX, como um modo mais organizado de representar que os gabinetes de curiosidades, muitas foram as mudanças teóricas e práticas dessas entidades. Neste texto quero tratar de uma percepção de mudança nas funções do museu na sociedade em sua forma de se presentar, e essas formas de o ser são produtos de um processo histórico, mas também, não por serem antigos, acabam se reverberando no contemporâneo, às vezes inclusive como algo já antiquado.

O primeiro museu que destaco é o templo. O museu-templo carrega em si a tradição que chegou até o século XIX de ser um local de sacralidade do que está sendo apresentado dentro dele. No século XIX surgem novas reflexões sobre a museologia, mas até hoje podemos identificar museus nesse estilo. Não há a intenção ou pelo menos a capacidade de um museu deste tipo presentar (de estar presente no hoje) um conteúdo do ontem de uma forma que o hoje colore o passado, ou seja, este museu não parte dos questionamentos do hoje para se voltar ao ontem, ele simplesmente elenca, seleciona, sacraliza, expõe e defende algo, em geral materialmente físico (roupas, louças, obras de arte, etc.), sem a interlocução destes itens com temas contemporâneos e, quando há, há uma relação com o tempo do próprio objeto para não deixá-lo suspenso sem conteúdo, colocando-o em acordo com o momento de sua origem. Mas, nem sempre há alguma dessas relações, pois, neste tipo de museu a ideia não é obrigatoriamente a de vincular o objeto ao seu tempo ou ao tempo presente, mas sim a de presentar “coisas de museu”. O que é uma “coisa de museu”? Em geral são objetos históricos tidos como velhos que não têm mais uso no tempo presente e vai para um lugar onde ele é depositado. O museu deste modelo, nas ideias atuais de cultura, democracia e cidadania, é um depósito de coisas, não coisas essas que não fatalmente são dotadas de algum valor, por mais que o valor simbólico que algo velho seja naturalmente o de histórico.

Neste museu, quase que uma catedral onde se adoram coisas de museu, o diálogo com o visitante é quase zero. Pode até chegar a ser zero do ponto de vista da entidade que apenas expõe objetos, só não chega a essa insignificância porque quem busca ter contato com este local tenta extrair algo para si, forçando assim um diálogo com o museu templo, que pode ser bastante custoso dado o caráter não interacional do lugar.

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No museu templo o comportamento é ditado! “Não toque”, “não fotografe”, “proibido correr”, “proibido falar alto” e outras negativas e proibições são comuns de se encontrar. A questão não é a existência da negativa, da condução do comportamento, mas sim o porquê isso existe, mas sem a devida explicação para os visitantes. Claro, existem razões para os nãos, como a preservação dos bens ali expostos e a segurança das próprias pessoas, mas o visitante não sabe disso. Garanto por experiência que falar para uma criança “não pode tomar sorvete dentro do museu!” logo que ela chega, assim de supetão, de modo imperativo, sem a menor explicação, vai desestimulá-la naquele espaço que poderia ser interessante. Garanto ainda que ao ver um doce na mão da criança um “oi, você quer conhecer o museu?” vai levar a um “mas para isso, precisamos guardar o doce para depois” muito mais tranquilo e aceitável do ponto de vista infantil. Criança por natureza é curiosa, então é um momento ótimo para se explicar que “se você levar o doce lá dentro, pode cair um açúcar bem pequeno e ninguém vai perceber, aí durante a noite podem aparecer um monte de bichinhos para comer esse açúcar e que podem querer comer aquele vestido ali também, sabia?”. Num resumo, o museu templo sacraliza coisas sem conexão com contextos (presente ou passado) e ainda cerceia o comportamento de forma rígida, tudo sem muita explicação de que nem porquê.

Museu del Templo Mayor

Museu del Templo Mayor

O segundo tipo de museu que quero comentar é o vitrine. O museu-vitrine é aquele que, como num desenvolvimento do museu-templo, oferece as conexões temporais, espaciais e existenciais dos objetos que estão dentro dele. Por mais que também sejam privilegiados e sacralizados alguns itens e alguns temas, escolhidos correntemente com a função de construir uma narrativa de coesão da população no argumento da identidade, há nele a capacidade de fazer uma relação com o ontem, com o hoje, com a diversidade, com as culturas, com as fronteiras sociais, com os pontos de convergências sociais. Este museu tem um caráter mais inclusivo, mais científico e mais democrático uma vez que oferece palestras, exposições, apresentações culturais e outras atividades muito bem pensadas para agradar, informar e oferecer conhecimento a quem queira se apropriar dele e de suas atividades. Qual é o problema do museu-vitrine? Ele é uma vitrine! As coisas estão lá, postas, dadas, o povo que se aproprie se quiser, portanto, é uma gestão “de cima para baixo” da cultura não de imposição, mas de não oportunizar outros modos de pensar e fazer. As coisas (objetos e atividades) estão lá para serem apreciadas, talvez até de forma tátil e não só visual, mas não há aproximação com a sociedade para além destes momentos, assim, não se questiona nem se reflete sobre o que o museu-vitrine oferece, só se aceita. Nestes casos, não há espaço para polêmicas, pois o fluxo de informações e esforços só acontece de dentro – do museu – para fora – para a sociedade – e mesmo este esforço é também ele limitado.

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Preciso deixar claro que entre o museu-vitrine e o próximo tipo de museu há o impasse do esforço. Muitas vezes o museu-vitrine só o é porque não recebe estímulos financeiros, institucionais ou de qualquer outra ordem que o oportunizassem uma dinamização maior. Temos também a clareza hoje de que muitos museus que estariam fadados a “vitrinização” da cultura só não a realiza porque têm em seus corpos técnicos pessoas que, com esforços próprios, muitas vezes até financeiros, fazem com que um ou outro ponto seja melhorado sem esperar que a entidade mantenedora ajude, realizando atividades em horários que não deveria trabalhar, como nos fins de semana, ou em horários noturnos, recebendo turmas em visitas diferenciadas, sem esperar algum retorno por isso. Portanto, há de se louvar o esforço profissional de muitos integrantes dessa legião.

O último tipo de museu que elenco aqui é o laboratório. Para mim, o museu-laboratório é a perfeição dos museus. É nele que a sociedade se encontra para se identificar ou para encontrar estranhezas. Nele, um local composto por interações de diversos tipos entre o ser humano, é possível entender as mudanças e as permanências da sociedade, pois neste espaço o organismo social formado por diversas partes se encontra na oportunidade de reconhecer o que é, o que foi e o que pode ser. Se este é um espaço democrático, vivo, movimentado, fórum, de reflexão por excelência, qual o problema dele? O problema está justamente na liberdade que ele oferece. Se há a liberdade para se expor em integralidade as vontades humanas de quem quer mostrar que estar nu em público não é um problema, há a mesma liberdade para quem quer defender que isso configura algum absurdo. Se há a possibilidade de um artista que dota de valores simbólicos várias latas de um refrigerante qualquer, há a possibilidade de algum artista, contemporâneo ao primeiro inclusive, defender que a pintura realista ainda é a excelência da arte. E o empecilho não está na existência de ideias diversificadas, até porque esse é o ideal, mas está em como essas ideias se encontram no museu. Muitas vezes não há o debate saudável que se espera, gerando atritos, ou como se chama hoje as “tretas”. Não há espaço para a conversa que traz visões diferentes e que no fim nem se quer precisam chegar a algum consenso, muitas vezes existe apenas o bate-boca vazio e louco pelo poder da razão.

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Para finalizar, quero deixar claro que estes museus elencados e apresentados acima não estão representados em absoluto em entidades pontuais. Estes museus são essências metafísicas que podem estar presentes em diversos museus ou estarem até mesmo dois dessas categorias num só museu. Por exemplo: um museu tradicional, que “naturalmente” seria do tipo tempo, pode ter algumas atividades do tipo laboratório quando são privilegiadas algumas atividades como a ação educativa, então, mesmo que os objetos estejam postos lá como coisas sacralizadas e merecedoras de louvor, pode haver um momento que permita uma interação orgânica, não para isso física, com estes “santos”, como numa visita na qual se debata a existência, a manutenção e a sacralização das “coisas de museu”. O que deve ficar, deixo por fim, mas também como ponto de saída para outras reflexões, é a intensa potencialidade dos museus dentro das sociedades, principalmente na atual crise generalizada, particularmente na eficiência em se criar momentos e debates polêmicos nos quais muitos grupos formadores de uma só sociedade podem se encontrar, se presentar, se representar, se defender e manter a democracia.

Curitiba, 04 de outubro de 2017.

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História

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