Crítica | Barreiras (Barrage) e a complexidade das relações familiares
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Crítica | Barreiras, um competente trabalho sobre a complexidade das relações familiares

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Barrage filme estreia

Barreiras (Barrage) – Filme

Dirigido por Laura Schroeder. Roteirizado por Marie Nimier e Laura Schroeder. Elenco: Isabelle Huppert, Lolita Chammah e Thémis Pauwels

Por Gabriella Tomasi

Escolhido para representar o país de Luxemburgo no Óscar de 2018 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, Barreiras é o novo filme que chega aos cinemas após estrear nos circuitos internacionais. Contando com Isabelle Huppert no elenco principal, acompanhamos a história envolvente de Catherine (Chammah) que retorna da Suíça para resgatar o tempo perdido com a sua filha de 10 anos, Alba (Pauwels), a qual estava até então sob os cuidados da avó Elisabeth (Huppert). Porém, Alba não a recebe de braços abertos, já que a mãe se manteve ausente durante todo este tempo no exterior para se recuperar de uma depressão profunda.

Com uma fotografia e locações que ressaltam os ambientes naturais, aliado a uma razão de aspecto mais reduzida do que o espectador está acostumado (4:3), não é à toa que essas escolhas técnicas se traduzam em uma representação das raízes, do encontro das relações íntimas, do objetivo de aproximar os vínculos biológicos. Tal evidência se torna mais significativa quando Catherine leva Alba para um chalé de campo e lá permanecem a maior parte da projeção.

O filme de Schroeder ganha um brilho diferenciado pela delicadeza e sinceridade do tema que aborda. Sem julgar seus personagens, ela procura explorar a dinâmica de três gerações. Elisabeth coloca todas as esperanças e frustrações que experimentou com sua filha, Catherine, em sua neta, motivo pelo qual possui um comportamento bastante rígido e protetor. Catherine, por sua vez, possui ciência dos erros cometidos e demonstra uma imensa vontade e disposição em consertá-los, ainda que por vezes questionemos a sua saúde mental devido ao seu comportamento bipolar. Além disso, sentimos a sua impotência no relacionamento com Alba, percebendo que por mais que ela tente forçar essa reaproximação, é preciso também deixar que as coisas aconteçam naturalmente, ao passo que Alba, extremamente obediente às ordens da avó, nunca deixa de mascarar seu desconforto e sua insatisfação com tamanha rigorosidade, demonstrando inclusive estranheza quando Catherine lhe concede mais liberdade. No entanto, conforme a narrativa progride, percebemos que essa liberdade não é “livre” e é muitas vezes exigida e imposta pela mãe, motivando uma fuga pela personagem em um determinado momento.

As nuances dos arcos dramáticos entre Alba e Catherine são muito bem desenvolvidos a ponto de o espectador não encontrar um “vilão” ou “mocinho” em sua história. Pelo contrário, nos simpatizamos com a trajetória de cada uma e nos importamos que ao final possam permanecer juntas. O retorno de Catherine é nada indulgente e a aproximação de Alba não soa nada forçada, o que resulta em uma narrativa sutil, natural e impactante. Contudo, há personagens que não foram bem trabalhados, como o papel de Elisabeth na história de ambas. Infelizmente, a personagem de Huppert, cujo nome já possui um peso enorme no ramo do cinema, fora muito pouco aproveitada e, por conseguinte, a dinâmica entre as três, principalmente o relacionamento difícil entre Elisabeth e Catherine não é nada desenvolvido. Ambas acabam da mesma forma que começaram, sem nenhuma evolução: cheias de ressentimento uma em relação à outra, como se fossem inimigas. A câmera de Schroeder contribui para essa sensação de distância quando as colocam na tela em posições opostas, ou diante de grades de tênis ou das quadras. Aliás, tal técnica também fora inicialmente abordada quando vemos Elisabeth observando Alba jogar uma partida de tênis do lado de fora da quadra, o que chega sim a ser bem eficiente. Contudo, essa separação não é aprofundada para além dos treinamentos rigorosos que exige a avó. Por fim, o pai de Catherine também foi outro personagem que aparece literalmente durante 2 minutos em tela e nunca mais retorna. A sensação ao final é que faltou algo, já que a história dessa família como um todo é completamente deixada de lado.

Além dos problemas pontuais no roteiro acima mencionados, a trilha sonora também se revela um aspecto negativo no longa, eis que ela transita entre sons diegéticos naturais e músicas pop não diegéticas que quebram por inteiro a naturalidade e a fluidez da narrativa, assim como não possuem qualquer relação relevante e que dialogue efetivamente com a história.

Mesmo assim, impossível negar o saldo positivo que deixa este filme. Barreiras, apesar de seus defeitos, é ainda um belo e competente trabalho sobre a complexidade das relações familiares.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema


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