Crítica | Lucky: envolvente, empático, sutil e emocionante
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Crítica | Lucky: envolvente, empático, sutil e emocionante

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Lucky cinema

Lucky

Dirigido por John Carroll Lynch. Roteirizado por Logan Sparks, Drago Sumonja. Elenco: Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston, Ed Begley Jr., Tom Skerritt, Yvonne Huff, James Darren, Beth Grant

Em um determinado momento do filme, Lucky (Stanton) vai ao médico para ver se está bem após um repentino desmaio em sua casa. Todos os exames realizados não apontam nenhuma aparente causa e, na realidade, está em ótima saúde. “Mas o que está acontecendo então?” ele pergunta. O médico responde: “você está envelhecendo, ficando velho”. Com essa notícia, o personagem-título se vê logo em seguida lidando com o que até então ignorava ou passava despercebido: a idade.

Veterano da Segunda Guerra Mundial, nós acompanhamos durante toda a projeção os passos do personagem-título, executando sua rotina diária, cujas tarefas consistem sempre nas mesmas. Conhecemos as pessoas locais com quem ele se relaciona e a vida bastante simples em meio a uma cidade no deserto norte-americano. Os cenários e figurinos são praticamente ao estilo faroeste: clima árido, vegetação composta de cactos e uma pequena e simpática tartaruga que posteriormente descobrimos ser o bicho de estimação de Howard, interpretado por David Lynch. Com uma fotografia viva, mas captando um lugar monótono, calmo e praticamente parado no tempo, essa abordagem também se revelou importante para disparar os “alertas vermelhos” que impulsionam Lucky a questionar o significado da vida. Por conseguinte, toda essa ambientação reflete no estado emocional de Lucky, na medida em que ele se sente cada vez mais desamparado e isolado por meio das câmeras que o observam em plano abertos. Mas há uma diferença entre estar sozinho e se sentir sozinho, segundo ele.

A narrativa se move dentro do ritmo do protagonista, lentamente, e, com pequenas pistas sutis que servem tanto para moldar sua personalidade quanto para desenvolver o que ele está passando ao, por exemplo, achar o significado de “realismo” no dicionário, ou discutindo com Paulie (Darren) sobre o que significa começar de novo na terceira idade. Gestos também como a preocupação que se assemelha a uma relação pai-filha entre ele a garçonete Loretta (Huff), se transformam em uma oportunidade para descobrir mais sobre o passado do personagem-título e tentarmos adivinhar quais seriam seus conflitos internos. A trama, portanto, se passa em torno da discussão da morte e sua inevitabilidade, de tudo o que vivemos, deixamos passar, nossos arrependimentos, experiências e o que deixaremos para trás quando partirmos. É o que vemos quando o personagem de Lynch vive procurando sua tartaruga que fugiu e, tendo ela apenas em sua vida, ele decide fazer um testamento para deixar todos os pertences ao bichinho que mesmo assim provavelmente não irá retornar. Sendo assim, todos os eventos por mais banais que possam superficialmente parecer, no fundo se revelam uma jornada de auto-aceitação e paz espiritual, de enfrentar as coisas como ela são e, ao invés de olharmos com medo ou pessimismo, podemos apenas sorrir ao destino que nos aguarda e aproveitar o tempo que temos.

Lucky, interpretado por Harry Dean Stanton, coincide com o momento na vida do ator que infelizmente morreu dia 15 de setembro de 2017 – semanas depois da estréia mundial deste longa. Em seu último projeto, o filme se encaixa em uma perfeita despedida – envolvente, empática, sutil e emocionante.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema


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