The Deuce | Mais uma produção de esmero entre a HBO e David Simon.
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The Deuce | Mais uma produção de esmero entre a HBO e David Simon

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The Deuce HBO série

The Deuce, série da HBO

“Mas mais do que isso, The Deuce é uma aula de camadas narrativas e personagens de grande densidade”.

Por Rafael W. Oliveira

Começar a falar de The Deuce é também começar a falar de duas coisas: HBO e David Simon. A primeira talvez seja a emissora de maior êxito no que se refere ao tamanho e ambição de suas produções próprias, além do costumeiro toque pitoresco de “novelão com putaria”, como bem li por aí, do qual a emissora sempre é acusada. E em meio sua trajetória, a HBO igualmente se firmou como uma revolução para a televisão ao dar vida às lendárias e pioneiras Oz, The Sopranos, Sex and the City, Six Feet Under e entre tantas outras contemporâneas que alavancam e alavancaram a sigla da emissora como Game of Thrones, True Blood, Veep, Girls, Big Little Lies, e por aí segue a fila.

O segundo nome, David Simon, remete imediatamente a ainda hoje tão aclamada The Wire, e que antes mesmo disto já tomava seu espaço no ambiente televisivo com a premiada Homicide: Life on the Street e The Corner, sua primeira empreitada ao lado da HBO. Em The Wire, Simon se encontrou pela primeira vez com George Pelecanos, que vieram a se encontrar novamente com Treme, e chegando ao ponto que nos interessa, a recém-finalizada primeira temporada de The Deuce.

E falar sobre The Deuce é falar sobre o que há de mais marcantes como assinatura das produções de Simon e Pelecanos, imediatamente levando o show protagonizado por James Franco e Maggie Gyllenhaal a rivalizar com todos os títulos citados anteriormente. Vendida como o seriado que exploraria a ascensão da indústria pornográfica nos anos 70, os dois showrunners pisam fundo no acelerador no que concerne a ir além do quadro da indústria e retratar com um esmero sujo, decadente e também contagiante sobre a realidade de uma Manhattan cuja vida à noite acontece em cenários escuros, becos, bares, calçadas sujas e marcadas pelos cinemas de rua, mafiosos e prostituição. Em The Deuce, Simon e Pelecanos criam um mosaico permeado por personagens atípicos, à margem de suas existências, inundados por um senso de realismo que nos aproxima de um cotidiano desagradável, doloroso, mas pulsante.

E em cada núcleo, os oito episódios de The Deuce se espalham em plots paralelos que, conforme o andar carruagem, se esbarram na região que abrange a Rua 42 e as Sétimas e Oitava Avenidas, perímetro este conhecido como The Deuce. Nele, Vincent (James Franco) é um homem divorciado que assume o comando de um bar apadrinhado pela máfia da cidade, acompanhado de seu irmão Frankie (também Franco!), viciado em jogos e membro da máfia local. Candy (Maggie Gyllenhaal, exemplar) é uma prostituta sem cafetão que trabalha nas ruas para sustentar o filho pequeno que vive com sua mãe, ao mesmo tempo em que, gradativamente, começa a se envolver na produção visual da indústria pornográfica, paralelamente exemplificando o papel da mulher e seu cotidiano de servidão à uma realidade machista, misógina e exploradora, que atinge igualmente suas companheiras de rua Darlene (Dominique Fishback), Ruby (Pernell Walker) e Lori (Emily Meade). Diluindo-se em mais uma narrativa, Sandra (Natalie Paul) é uma jornalista investigativa que trabalha em sua própria matéria sobre a vida noturna das prostitutas enquanto constrói um relacionamento com sua própria fonte, o policial Chris Alton (Lawrence Gilliard Jr.).

Ambiciosos no que se refere a elaborar um quebra-cabeça urbano que, em seu todo, dá a vida a uma pirâmide de hierarquias entre homens e mulheres, prostitutas e cafetões, máfia e corrupção policial, num mergulho intimista e variado em temas que pouco destoam da nossa contemporaneidade, onde aqueles à margem da sociedade ainda permanecem à margem da sociedade. Semelhante aos filmes sujos e de rostos degradantes de Scorsese como Caminhos Perigosos, Cassino, Depois de Horas e em especial Taxi Driver, Simon e Pelecanos são dedicados ao retrato mais fidedigno daquela realidade possível, doa a quem doer ou incomode a quem incomodar, e para o público feminino, The Deuce certamente se torna uma experiência ainda mais difícil devido as altas doses de misoginia, feminicídio e até mesmo racismo. Mas ao tocar em temáticas tão delicadas, os showrunners demonstram consciência de que, se você quer se ater ao realismo, o grafismo das imagens é necessário, e The Deuce imediatamente se firma como um importante registro visual de uma época e que assume seu papel de reflexo sobre como os dias atuais, de fato, mudaram bem menos do que imaginamos.

Mas mais do que isso, The Deuce é uma aula de camadas narrativas e personagens de grande densidade, onde a prostituição, a máfia, os bares, a pornografia, o racismo e até mesmo a repressão homossexual se relevam artifícios maiores para este retrato sobre o que se esconde na noite, sobre a desintegração de sonhos e sobre os vislumbres esperançosos mesmo diante de uma realidade que explora corpos, sexualidade e servidão. Para solidificar estes temas desagradáveis, mas necessários para o caminhar da narrativa, a direção de arte capricha nas ruelas e avenidas tomadas por lixo, fumaças e sangue que reconstroem uma NY de personalidade própria, distante do vislumbre iluminado com a qual costuma ser retratada em filmes e séries. Os cenários se tornam deslumbrantes em sua decadência. Igualmente, os figurinos extravagantes denotam os jogos de poder e a hierarquia entre os cafetões, os trajes sempre mínimo das prostitutas e a imponência chique dos mafiosos de terno, dando vida a estereótipos que auxiliam na veracidade daquelas ruas e bares.

Algumas poucas decisões redundantes do show, como o papel duplo dado à Franco (que está aqui no melhor momento, até então, de sua carreira) ou a pequena frustração sobre o roteiro, de fato, pouco analisar o que há por detrás da indústria pornográfica (algo que acredito ser proposital para segurar o material para a já confirmada segunda temporada), The Deuce é uma produção de esmeros grandiosos, grandiloquente e ambiciosa, apesar da lentidão também se revelar um empecilho em pequenos momentos. Se o seriado estará no topo das maiores realizações de Simon e Pelecanos, apenas o tempo dirá, mas até lá já temos uma primeira temporada que é capaz de estabelecer novos parâmetros  sobre a forma de narrar histórias na TV.

Rafael W. Oliveira Cinéfilo em eterna formação, amante de Kubrick e Hitchcock, fã de musicais e um grande admirador do gênero terror. Pretende cursar a faculdade de Cinema em breve, mas enquanto este dia não chega, brinca de ser crítico nas horas vagas. Também está sempre acompanhado de um bom livro, além de suas músicas que tanto preza.


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