Por que as séries europeias são melhores que as americanas?
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Por que as séries europeias são melhores que as americanas?

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Les Revenants

Les Revenants

Com a estreia de Dark, produção alemã que a Netflix exibe em sua plataforma, ficou evidenciado mais uma vez o protagonismo de séries europeias frente às americanas

Séries europeias x séries americanas: uma boa disputa para sabermos quem produz as melhores séries de televisão.

Tudo bem que as séries americanas evoluíram muito nestes últimos 20 anos. Mas ainda assim, contando com toda esta evolução, ainda temos esta ideia bem clara em nossas mentes: as séries europeias são muito mais interessantes de assistir que as produzidas nos Estados Unidos. A questão agora é entender mais claramente o porquê.

E será isso que faremos agora. Vamos listar os 4 principais porquês.

1. Quantidade de episódios

Vamos começar mostrando o primeiro motivo das séries europeias serem muito melhores que as americanas: a quantidade de episódios por temporada. Novamente destacamos que as produções americanas melhoraram muito, e neste quesito também. Se antes a norma era 22 episódios por temporada, hoje temos produções na tv aberta com 10 episódios por temporada. Na tv fechada virou regra. É uma evolução, que, entretanto nunca chegará aos pés de uma obra-prima como Sherlock, série inglesa que tem em média três, eu disse três, episódios por temporada.

E o que isso significa? Bem, os roteiristas não vão precisar fazer o que chamamos no meio acadêmico de ‘encher linguiça’. Sem a necessidade de criar histórias secundárias, a trama principal ganha dinâmica, fica enxuta e o resultado é absurdamente melhor.

Pegamos agora algumas séries americanas que poderiam ter sido obras-primas: Lost, Greys Anatomy e Friends. Estas três, que ainda ocupam um lugar de destaque no coração de milhões de fãs, possuem no acervo uma quantidade muito grande de episódios insignificantes, inúteis e sem sentido. Lost chegou a apresentar um episódio onde Jack viaja para uma ilha e conhece uma garota. E foi isso, o suprassumo da inutilidade em uma história. A mesma Lost apresentou na terceira temporada um episódio protagonizado por Rodrigo Santoro que serviu para apresentar o personagem, e logo em seguida matá-lo, sem que nenhuma função narrativa tenha sido definida. Total encheção de linguiça.

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Friends, por mais que amemos de coração, teve temporadas, as duas últimas ao menos, com inúmeros episódios medianos. A forçada relação de Rachel e Joey nas últimas temporadas só nasceu por conta da necessidade de se criar mais tramas, já que a série tinha sido renovada para uma décima temporada e a criatividade narrativa já não era a mesma. E eu lhe pergunto: valeu a pena? Pensando em negócio, sim, pensando na série, não.

Greys Anatomy busca se reiventar a cada temporada, mudando elenco, criando plotes exóticos, mas o fato é que a relevância de GA caiu a níveis bem drásticos, e hoje a série não possui nem 40% de seu público se comparada com as 5 primeiras temporadas.

2. Ousadia narrativa

Estamos nos anos 2000, e você é um americano, ou brasileiro, e é adolescente. Que tipo de série vai assistir para ver a sua vida ser retratada? Vai ver The OC, Smallville, One Three Hill, Gossip Girls, etc. Correto?

O estilo Americano de fazer série teen saturou muito rapidamente pela total falta de veracidade das histórias perante grande parte dos próprios americanos, e principalmente perante os jovens do resto do mundo.Mansões, garoto pobre que é adotado por família milionária, jogadores de basquete que são lindos, ricos, líderes de torcida… era um mundo à parte que adorávamos assistir, mas sem saber porque.

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Mas ainda bem que na Inglaterra, e em outros países da Europa, estava nascendo uma onda de séries mais realistas sobre o universo jovem. Nascia então Skins, Misfits, The Inbetweeners, My Mad Fat Diary e muitas outras. Mesmo hoje, com a evolução dos roteiros jovens na televisão Americana, ainda é difícil encontrar algo que se compare às produções europeias. Realismo mais roteiro enxuto, mais atores melhores, e o resultado são séries sensacionais.

Black Mirror

Black Mirror

3. Temáticas

Poder, medicina, tribunais… se você pensar nos temas das principais séries americanas certamente vai perceber que os temas propostos são sempre estes. Até mesmo pérolas como House of Cards (poder), Damages (tribunais) e House (medicina) se concentram nestes assuntos mais restritos. Somente com as produções da HBO que as séries americanas buscaram diversificar um pouco mais o seu leque temático. Mas ainda assim nada se compara a séries como Black Mirror, Les Revenants e Outlander.

Atualmente temos outro nicho muito usado pela industria televisiva americana: as séries de super heróis e as séries saídas dos quadrinhos. Novamente os americanos mostram que quando encontram um tema, explorar sem freios, até saturar. O processo de cansar já está acontecendo em passos largos, e logo veremos esse número grandioso de séries se restringir a duas ou três que de fato são boas.

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4. Estilo

Pegue Stranger Things. A série, amada por todos nós, possui o que de melhor o americano pode fazer. Apesar de, em ambas as temporadas, possuir episódios irrelevantes (voltemos ao ponto 1 da lista), a série é um exemplo de história viciante que virou hit no mundo.

Agora assista Dark, que estreou recentemente na Netflix. A série é alemã e trabalha alguns poucos temas próximos a Stranger Things. Ao ver as duas percebemos uma diferença bem grande de estilo. Enquanto as produções americanas valorizam o acabamento, são todas bem produzidas, as séries europeias, no geral, trazem uma vibe alternativa, cult, de desapego a esta questão de estilo. A produção europeia não precisa ter esta fachada de beleza, que muitas vezes serve para mascarar um roteiro frágil.

Quer exemplos ainda mais claros: as produções europeias que os Estados Unidos simplesmente copiaram: Les Revenants e The Office. Sim, por mais que as versões americanas tenham agradado – principalmente a última, fica muito claro que as versões originais são muito mais cruas, relevantes e agradáveis de assistir. O estilo empregado por estas séries é único e as diferencia de todas as outras.

Por estes motivos que, mesmo contando com  a evolução das produções americanas (Breaking Bad, Dexter, Game of Thrones, etc), as séries europeias ainda possuem uma qualidade final muito mais acentuada. A Netflix, ao colocar no seu acervo global produções de diversos países, deixa esta questão ainda mais clara. Nós, consumidores de televisão, agradecemos, pois a cada ano podemos conhecer novas histórias vindas da França, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, etc.

Sobre o autor

Luis Fernando Pereira

Luis Fernando Pereira

Possui grande experiência na área de jornalismo cultural. Além de editor do site é colunista dos sites Coisa de Cinema, Midiorama e Feminino e Além. Fez parte de um dos júris do VII Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema.

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