Crítica Merlí | Série sobre filosofia da Netflix é apaixonante
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Merlí | Série sobre filosofia da Netflix é apaixonante

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Merli

Merli

Série é produzida por canal na Catalunha, Espanha, e exibida mundialmente pela Netflix; filosofia como fio condutor de uma história sobre amizade e juventude  

Este texto foi escrito com base em alguns episódios vistos de Merlí, série que a Netflix disponibiliza na sua plataforma e que traz como fio condutor (o tema mais central) a filosofia, sendo, é claro, inserida na trama e na vida dos personagens.

A filosofia entra de modo direto quando o professor de filosofia do ensino médio Merlí (Francesc Orella) consegue emprego na escola que seu filho estuda. Sua vida está desmoronando, mas ele tem uma personalidade que impede que estes fatos (estar divorciado, ter relação instável com filho adolescente e ser despejado de casa por falta de pagamento de aluguel) o leve para o buraco.

Merlí consegue rir de seus problemas, e não por sadomasoquismo, mas sim por questões racionais, afinal de contas, chorar vai adiantar de que? Nestes primeiros momentos da série já vemos como a filosofia o guia.

O primeiro episódio contextualiza toda a trama. Estamos diante de uma Malhação (daquela época inicial) muito mais densa e elaborada em termos de roteiro. Estamos numa escola que tem como público alvo os adolescentes naquela fase de transição, uma das fases mais simbólicas da vida. Ter um professor de filosofia que fuja dos padrões mais tradicionais de ensino vai fazer toda a diferença em suas vidas.

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Merlí

Merlí é o personagem principal, e a boa atuação de Francesc Orella contribui para isso. Ele é um jovem senhor, podemos assim dizer, descolado, que sabe lidar com adolescentes de forma ímpar, talvez pelo fato de sua personalidade ainda conter traços de sua fase adolescente. No primeiro episódio, quando ele usa o fato da professora (novinha e muito bela) gostar de cães, para criar uma situação onde ele resgata falsamente um cão só para conseguir seduzi-la é um ótimo exemplo deste seu traço de personalidade. E o mais interessante é que ele consegue seduzí-la.

Isso já mostra que a filosofia entra de modo subversivo também em suas ações. Se Kant uma vez cobrou por uma moralidade plena, Merlí se utiliza de uma moral que lhe é conveniente. Seduz uma mulher que tem namorado, mente para conseguir dar aulas para um aluno com problemas psicológicos e pede para o grupo de alunos enganar o concurso de literatura da escola. Tudo isso acontece em poucos dias. A moral que Merlí vai pregar não é aquela comumente vista em aulas.

Mas talvez por isso Merlí, a série, seja tão encantadora. Porque o que está em jogo aqui é muito mais que simplesmente apresentar a filosofia no âmbito escolar. Isso talvez o clássico ‘O Mundo de Sofia’, o livro, tenha feito, trazendo os elementos básicos das escolas filosóficas e dos filósofos. Merlí está mais para ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, clássico dos cinemas, e da literatura.

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Merlí quer instalar o caos, no sentido filosófico da palavra, porque será a partir daí que o conhecimento pode surgir de forma mais clara e plena. Ele planta questionamentos, semeia dúvidas e colhe palavras de seus estudantes que certamente nenhum outro professor consegue colher. Isso porque a arte de fazer alguém refletir sobre o mundo é algo que possui uma função mágica e extremamente relevante, mas que é subvalorizado por muitas sociedades.

Para que serve a filosofia?

Para que serve a filosofia, ele pergunta logo ao chegar para a sala de aula. Para nada, alguns dizem. E ele refuta veementemente. A filosofia aqui tem uma função nobre, e quem souber praticá-la terá muitos benefícios na sua caminhada de vida.

Os temas mais mundanos, relacionados ao universo jovem, também estão inseridos na série. Temos adolescentes apaixonados, aos montes. Garoto apaixonado por garota, garoto apaixonado por garoto, etc. Os estereótipos também existem aos montes, afinal de contas, eles são de certa forma reflexos do mundo real. Uma escola de ensino médio de fato possui todos aqueles perfis já enraizados em nossa mente: tem o mais valentão, o tímido, o popular, o que não consegue se assumir, e por ai vai. Em Merlí ao menos essa composição é das mais felizes.

Interessante também como os títulos dos episódios tem uma relação direta com a trama apresentada e com a filosofia. O segundo episódio, por exemplo, se chama Platão, e traz dois elementos bem poderosos do pensamento de Platão: a questão do amor ‘platônico’, termo que é dos mais usados no mundo jovem, e o seu mito da caverna, que consiste no homem buscar o conhecimento verdadeiro.

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O modo como estes dois termos são inseridos no episódio mostra que a série tem uma beleza e inteligência que se destaca no universo da televisão.

O terceiro, chamado de Maquiavel, vai tratar de fatos mais ligados ao homem (ser humano) fazer de tudo para alcançar uma finalidade desejada. É o famoso “o fim justifica os meios”, passagem atribuída exatamente a Maquiavel.

Merlí é uma série apaixonante, e exatamente por isso este somente será o primeiro de alguns textos sobre ela. Vamos com o passar dos episódios (já produzidos e exibidos) conversar sobre a trama (seus personagens) e sobre a filosofia incluída pela ótima equipe de roteiristas.

Se não sabíamos direito a relevância de uma plataforma como a Netflix para os dias atuais, a exibição de uma série catalã chamada Merlí traz a clareza. É fascinante conhecermos, aqui do Brasil, um projeto produzido numa região tão exótica (para alguns de nós) e que ao mesmo tempo traga tanta universalidade. A Netflix fez isso com Dark, da Alemanha. E agora com Merlí.

Principais informações
Data de publicação:
Título da publicação:
Série sobre filosofia da Netflix é apaixonante
Classificação:
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Sobre o autor

Luis Fernando Pereira

Luis Fernando Pereira

Possui grande experiência na área de jornalismo cultural. Além de editor do site é colunista dos sites Coisa de Cinema, Midiorama e Feminino e Além. Fez parte de um dos júris do VII Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema.

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