Crítica Eu, Tonya | Margot Robbie chega ao nível de excelência
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Crítica Eu, Tonya | Margot Robbie chega ao nível de excelência

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Eu, Tonya

Eu, Tonya

Eu, Tonya conta a história da patinadora americana Tonya Harding, que entrou para a história ao se envolver em polêmica com Nancy Kerrigan

Os anos 1990 estão de volta com tudo ao mundo do entretenimento, ao menos se tomarmos por base o filme Eu, Tonya e a mais nova temporada da franquia American Crime Story, que desta vez traz a reconstituição mais ou menos fantasiosa da morte do estilista Gianni Versace, em 1997.

Se a série americana relembra um dos crimes mais emblemáticos desta década, o filme Eu, Tonya, de Craig Gillespie, retrata um dos acontecimentos mais bizarros do esporte americano em toda a sua história. Estamos aqui falando de Tonya Harding, patinadora que entrou para a história ao ser a primeira americana a apresentar o salto triplo Axel em competições, o que na época era algo impensado. Logo depois a história de Tonya foi refeita para ela adentrar por outro acontecimento: a agressão que sua concorrente, Nancy Kerrigan, sofreu em uma fase de eliminatórias, que a deixou com o joelho quebrado, e que depois foi descoberto ter sido a mando do ex-marido de Tonya, com o seu conhecimento. De uma bizarrice tremenda.

Falando do filme, e há muito que falar, há de se destacar logo de início as escolhas da equipe de roteiro, direção e montagem.  Primeiro, em tom de deboche, o filme começa deixando claro que sua trama é baseada nos depoimentos um tanto esquisitos das pessoas envolvidas. E basta conhecer um pouco da personalidade deles para acreditarmos nestas palavras. Não estamos lidando aqui com um grupo de pessoas inteligentes, articuladas e com argumentos claros. Tonya, sua mãe, seu ex-marido e as outras pessoas envolvidas fazem parte daquele grupo de americanos que a própria sociedade se envergonha. Sem muito conhecimento, sem diplomas acadêmicos, eles são por muitas vezes colocados como chacotas, inclusive pela produção do filme.

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Assim, o drama por vezes tem tom de comédia. Esta escolha tinha tudo para prejudicar o filme, mas duas atrizes são tão convincentes com suas personagens que Eu, Tonya se transforma em uma biografia dramática que passa para quem assiste a exata noção da construção de uma personalidade complexa e assim os acontecimentos finais do filme acabam sendo compreendidos, mas nunca justificados.

As atrizes: Margot Robbie e Allison Janney. Margot, que recentemente deu vida a Arlequina, icônica personagem das HQs da DC Comics, traz novamente a tona uma mulher que mete medo em muita gente. A Tonya de Margot é tudo, menos uma típica garota estereotipada dos Estados Unidos. Desde os três anos, quando o filme começa, que Tonya sofre com a sua mãe. Sofre psicologicamente, e fisicamente. Um tapa aqui, um soco ali, um empurrão acolá. Essa é a estrutura familiar da patinadora, que via em seu pai uma válvula de escape, que rapidamente se dissipou com o divórcio.

Eu, Tonya

Eu, Tonya

O filme faz uma escolha que por vezes foi questionada: humaniza uma patinadora acusada de ajudar a quebrar o joelho de sua colega de esporte. Assim, a ideia de bom e mal acaba sendo posto em xeque, e aquelas pessoas que não gostam de discutir ‘o porquê das pessoas tomarem tal atitude’ vão odiar esta escolha narrativa do filme.

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Tonya é uma americana sem classe, sem inteligência suficiente para deixar a sociedade orgulhosa, é pobre, e vive um contexto familiar dos piores. Chega um momento no filme que ela questiona os jurados, pelo fato de seus saltos serem perfeitos mas suas notas não serem as melhores. Um deles diz: ‘patinação não é só isso. É também como se veste, e como se comporta’. Harding nunca foi punida por ser uma má patinadora, mas sim por não fazer parte daquela tradicional família americana estilo comercial de margarina.

Voltando a uma abordagem mais técnica do filme, outra escolha feita por Craig Gillespie é merecedora de discussão: o filme apresenta a todo o momento a ferramenta narrativa chamada “quebra da quarta parede”, que é quando o ator/personagem passa a conversar diretamente com o espectador. Muito comum nos filmes de Woody Allen, ele serve para o espectador ter a certeza absoluta de que está numa ficção.

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É interessante como esta escolha foi posta num filme biográfico tão sério. Esta escolha talvez responda a pergunta: os roteiristas levaram mesmo a sério os depoimentos reais de Tonya, sua mãe, seu ex-marido e seu suposto guarda-costas. A resposta é um provável não.

Com uma estrutura narrativa fora dos padrões tradicionais, uma atuação de gala de Margot Robbie, principalmente, e de Allison Janney, Eu, Tonya entra em cena como uma poderosa biografia de uma patinadora que tinha todos os atributos técnicos para ser uma das maiores patinadoras da história americana, mas que o seu contexto familiar e pessoal a fizeram entrar para a história de um modo muito mais bizarro.

Ainda assim, se formos algum dia pensar nos acontecimentos icônicos dos anos 1990, certamente iremos lembrar aqueles dias onde Tonya Harding e Nancy Kerrigan rivalizaram pelo título de melhor patinadora dos Estados Unidos. Nunca antes na história daquele país isso havia acontecido neste esporte tão longe de ser considerado popular.

Principais informações
Data de publicação:
Título da publicação:
Margot Robbie chega ao nível de excelência
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Sobre o autor

Luis Fernando Pereira

Luis Fernando Pereira

Possui grande experiência na área de jornalismo cultural. Além de editor do site é colunista dos sites Coisa de Cinema, Midiorama e Feminino e Além. Fez parte de um dos júris do VII Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema.

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