Um diário especial minha mãe e eu - 7
Comportamento Generalidades

Um diário especial minha mãe e eu – 7

  •  
  •  
  •  
  •  
Um Diário Especial

Um Diário Especial

“E foram coisas das mais esdrúxulas às normais. Quem é que está num hospital e pede uma bolsa vermelha pra usar quando sair de lá?”

Por Helena Prado

Quando eu tinha 13 anos tive o segundo namorado, Walter. O primeiro foi Maurício e eu já contei antes.

Eu o conheci em Santos onde passávamos as férias, no Jardim do Atlântico. Era um conjunto de prédios, com uma imensa área de lazer, como os prédios de hoje. Eu adorava o rinque de patinação. E mamãe, antes das férias, nos fazia um enxoval completo, lógico que com roupinha para patinar.

Depois das férias, Walter e eu continuamos o namoro. Seus pais iam me pegar em casa e nós íamos ao cinema, sei lá…

Terminei com Walter porque me achei uma moça. Havia ficado menstruada e contei para ele, que, acho, não entendeu lhufas. Ele era um ano mais novo que eu.

Tempos depois, conheci João, cujo apelido era carioca. Ele usava o cabelão comprido e era, como ele se apresentava, beatinik. Fazia pulseiras de couro e usava botas. Jeans era o uniforme deste “beat” meio fora de época. Era completamente “paz e amor”. Ouvia Os Beatles o tempo todo e era apaixonado pela música “Lucy and the sky with diamonds”, um disfarce para LSD, achávamos o máximo. Embora a trouxa aqui não tivesse a mínima ideia do que fosse LSD.Ele puxava um fumo junto com os amigos, mas nunca ofereceu nada para mim. Era um boa praça.

Um dia, papai saiu atrás dele com uma tesoura dizendo que ia cortar seus cabelos. Nunca me esqueci. Foi gozado demais ver o cara fugindo do papai. Que, claro, não fez nada.

Corta pra julho de 2017

Enquanto mamãe esteve no hospital, à exceção de guloseimas, eu fiz exatamente tudo que ela me pediu ou quis.

E foram coisas das mais esdrúxulas às normais. Quem é que está num hospital e pede uma bolsa vermelha pra usar quando sair de lá?

Pois eu fui ao Shopping Paulista e revirei tudinho, até achar uma linda bolsa vermelha que combinasse com uns sapatos e um tricô que antes de entrar no hospital ela quis comprar.

De fato, ele era lindo e merecia uma bolsa à altura.

No hospital, vira e mexe, ela tentava burlar a determinação dos médicos e me pedia pra conseguir alguma coisa gostosa que ela tinha vontade de comer. Eu morria de dó, mas não cedia, embora meu coração ficasse apertado. O grande problema é que Magdala não conseguia deglutir direito os alimentos, por isso, sua alimentação era toda pastosa.

Ela odiava, mas não tinha jeito e, por muito que cuidássemos, quase sempre ela engasgava e o alimento ia parar no pulmão, causando nela uma pneumonia. Quando isso acontecia, ela tinha que ir para a UTI, onde eu ficava com ela numa cadeira pelo tempo que o médico achasse necessário.

Seu humor não tinha igual. Ela topava fazer tudo que fosse necessário, sempre num boa e com um sorriso no rosto.

Ela era disputada pelas enfermeiras por causa do seu bom humor e pelo seu jeito sempre colaborativo.

Pra uma mulher que sempre foi temperamental, para mim era uma grande novidade seu jeito de portar-se. Enquanto vou escrevendo, vou me lembrando dela. Ah, que saudades, minha querida! E olhem que ela era “torturada” o tempo todinho. Pois faziam nela trocentos exames. Diariamente, ela era revirada. Só não era picada porque puseram nela um picc, que significa Catéter Central de Inserção Periférica, que nada mais é do que um catéter flexível de silicone implantado, no caso da mamãe, na veia cava. Ele, creio, é usado em pessoas que necessitam de muita medicação que vá direto para a corrente sanguínea, evitando infecções. É também de grande duração.  Mas me dava uma aflição danada ver aquilo saindo dela porque havia vários canais por onde a medicação era infiltrada. Mas não doía nem ela ligava para aquilo.

Assim que mamãe adoeceu, sua voz modificou-se completamente. Ficou mais grossa, gutural. Quando ela falava ao telefone, muitas vezes eu não a compreendia. E ela sempre me ligava quando eu não estava lá, para me pedir alguma coisa, ou para perguntar a que horas eu ia para o hospital.

Na segunda vez que ela veio para casa, se não me engano como da anterior, o médico pediu ao convênio o Home Care.  Geralmente, o médico solicitava enfermeiras, fonoaudióloga, fisioterapeutas. Para que fizessem fisioterapia pulmonar e muscular.

O convênio nunca obedecia as ordens médicas. E assim, mandavam uma fulana que se dizia enfermeira e que anotava num bloquinho tudo que era conversado aqui em casa. Depois, ela passava suas impressões ao convênio, que deliberava manter ou não o que o médico solicitava. Era vergonhoso. Porque a fisioterapeuta faltava, e porque eles decidiam quantas vezes por semana ELES achavam necessária a presença dela, ignorando solenemente o que o médico determinava. Eu ficava enlouquecida, mas não adiantava brigar com os responsáveis pelo Home Care, o que era uma burrice inominável, pois mamãe acabava voltando para o hospital.

Numa das vezes em que ela estava em casa, foi seu aniversário. Fiz para ela uma festança incrível, convidei todos os sobrinhos, agregados, primos, tia Lúcia (a única que havia sobrado), amigos e gente que mamãe não via há séculos.

Contratei buffets da melhor qualidade, para salgados e doces. E fiz a festa no salão do prédio da Paola, minha filha mais velha. Vieram ainda meu ex-marido, pai das minhas meninas, sua mulher e minha filha Isabella, que mora perto do pai, em Niterói. Meus ex-cunhados, quase irmãos, Zize e Haydée, ambos tão queridos, foram também. Minha melhor amiga Sancia e seu marido Michael. Enfim, todos que de uma forma ou de outra iriam agradá-la.

Nenhum dos netos, filhos da minha irmã falecida, compareceu. Sei que a mamãe ficou bem triste, mas ela evitou falar. Sobretudo porque ela adorava o Guilherme, seu bisneto mais novo.

A festa foi bárbara, ela ganhou um monte de presentes e adorou toda a balbúrdia, mas ficou exausta.

Dias depois, acho que dois, por falta da fonoaudióloga, ela engasgou e retornou ao hospital, profundamente chateada. Com pneumonia das bravas, foi para a UTI, onde ficou sei lá por quanto tempo.

Desta vez, ela me pedia água o tempo todo. Mas os médicos proibiram de dar, pra que ela não engasgasse. Profundamente consternada com sua situação, eu enchia a minha boca de saliva e a beijava também na boca, passando para elas a minha saliva, na esperança de amenizar sua sede.

Até que me rebelei, e lhe disse: agora basta, quem manda aqui é você. E dei-lhe água com todo o cuidado, algumas vezes. Um médico me chamou e disse-me: não faça isto, Helena, pois ela vai sair dessa.

Mas quem via a mamãe jurava que não.

Mandei dinheiro para o meu sobrinho mais novo vir ver a mamãe. Eu realmente achava que ela estava morrendo. Isabella também veio do Rio com seu marido.

Desta vez ela saiu do ar pela primeira vez.

Antes, porém, ela achou que ia morrer e disse chorando que me amava.

E despirocou total. Não falava mais lé com cré. Cismou que iria fazer uma feijoada branca com frutos do mar. E falou para a Vera Lúcia, a sobrinha querida que esteve por perto o tempo todo: Vera, por que você não veio para a feijoada. Comprei três quilos de costelinha, paio, linguiça e frutos do mar. Vera disse que não pôde ir porque estava trabalhando.

Heloísa, minha prima, também esteve com mamãe na UTI neste período em que ela entrou em delírio. Cuidou dela, cortou suas unhas, foi muito gentil.

Eu estava até certo ponto preparada para vê-la morrer neste período.

Mas ela saiu desta, esteve na semi-intensiva, e voltou para o quarto. Por pouco tempo.


O Candidato Honesto 2
A Freira

Sobre o autor

Helena Prado

Helena Prado

Aos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena.

2 Comments

Deixe uma resposta