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Memória Patrimônio e Sociedade: “O problema da idealização da ocupação”

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Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

“O problema da idealização da ocupação”

 

Desde os primeiros trabalhos produzidos, gerenciados, intencionados e imaginados com o patrimônio um dos objetivos que caminhava ao lado da construção de uma identidade, de uma história e de uma memória nacional foi a vontade dos gestores de que alguém ocupasse, se apropriasse dos bens que eram eleitos para a preservação. Toda vez que um patrimônio é tombado ou registrado, não só pelo ato de fazê-lo, mas pela função social dele e pela melhor justificativa de sua existência, a própria função social, temos as preocupações com a formação do pertencimento e a ocupação/apropriação desses espaços, objetos, lembranças e monumentos eleitos como dignos de perenidade. Quando um museu é aberto, espera-se público, espera-se quem receba e ajude na manutenção do eco da intenção dele para além das paredes físicas dele. No caso dos museus, o Instituto Brasileiro de Museus, por meio de sua Coordenação de Produção e Análise da Informação, publicou e distribuiu às entidades registradas em sua base de dados pequenos folhetos que tratavam exclusivamente do público dos museus com os temas por que contar o público?; o que diz a legislação sobre a contagem de público?; como contar o público?; e como informar o IBRAM sobre a contagem de público?. Ademais, também são feitas campanhas que incentivam os museus a preencherem o Formulário de Visitação Anual para complementar periodicamente as informações da base de dado do IBRAM sobre o assunto.

Quando o caso são outras produções da educação patrimonial, como prédios, ruas, espaços urbanos, sítios arquitetônicos de maior tamanho geográfico, a contagem fica mais dificultosa de ser realizada com precisão. As câmeras de vigilância dos órgãos de segurança seriam uma alternativa, mas é também obscuro mensurar quem e quando passou ou esteve em dada região para ou pelo patrimônio e não só pelo trajeto diário. Sendo a contagem um problema a se considerar, a análise da ocupação pode ser feita para substituir a exatidão numérica: dispor de tempo e esforço para estudar como, quando, quem e porque ocupam determinados espaços urbanos, nesses casos sítios arquitetônicos patrimonializados ou bens culturais pode ser a possibilidade que nos permita mensurar a efetivação da função social destes. Primeiramente, talvez seja essencial nos questionarmos sobre qual é a função social que estimamos para estes bens. Conjuntamente com a expectativa funcional geramos, claro, expectativas sobre quem e como deverá ocupar esse bem.

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À exemplo: em Curitiba uma das ruas mais antigas da cidade, um dos primeiros atravessamentos urbanos da cidade, que ainda possui uma boa parte dos prédios originais ou ao menos os que substituíram os primeiros há bastante tempo, foi relegada ao esquecimento por parte do poder público e foi ocupada por diversos grupos em sensibilidade social e em situação de marginalidade justamente pela pouca atenção que o espaço recebia, como usuários de drogas, traficantes e outros. Posteriormente aos empenhos despendidos pela prefeitura em renovar a iluminação, o calçamento e a zeladoria pública no local alguns estabelecimentos comerciais, até então tidos como alternativos (os locais que usualmente alinhavam-se ao modo “fora da caixa” ou das novas ondas de consumo como barbearias, brechós, restaurantes com poucos pratos e preocupação com o feitio artesanal deles, entre outros), passaram a se instalar no espaço renovado.

O espaço renovado que recebia novos esforços do poder público, congregando a presença de estabelecimentos comerciais em voga e com o estigma da juventude, proporcionava uma nova vida na região, aliás, bastante diferente da anterior. Nesse momento criou-se a expectativa sobre a ocupação da rua: se esperavam jovens, famílias que buscassem atividades alternativas, atividades culturais de diferentes grupos, turistas e outros tipos de pessoas que colocassem nesse espaço uma nova roupagem. Aproveitou-se também da proximidade da tal rua com outros espaços urbanos já privilegiados pela atenção do poder público, como se uma pudesse ser a extensão da outra.

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A ocupação que se deu foi de fato diferente da anterior: o número de moradores de rua caiu expressivamente, a quantidade de comércios ativos é bastante maior que nos tempos de negligência e a vida urbana, a circulação de pessoas, as trocas – comerciais, culturais, sociais – se estabeleceram e se desenvolveram, entretanto, a mesma ocupação não foi a esperada por alguns gestores públicos. Uma parte destes gestores, curiosamente os que seguem linhas mais conservadoras da gestão do patrimônio, esperava um apoderamento que contemplasse as estéticas dos sobrados, que consumisse os produtos ofertados, que fosse um local de passagem e passeio, com uma grande proporção de romantismo, mas a apropriação que se deu, que também contemplava os pensamentos românticos, trouxe também o comércio e consumo de drogas diferentes das anteriores (o crack fora trocado pela maconha, por exemplo), as pessoas não só passam e consomem naquela rua, mas também se estabelecem nas calçadas com bebidas e caixas de sons organizando pequenas reuniões privadas de amigos no espaço público, o comércio informal de diferentes gêneros (roupas, bijuterias, artesanatos, alimentos) se deu de forma sensível uma vez que o número de transeuntes aumentou também. A ocupação feita pela população não foi a de uma rua-museu ou de uma rua-estética, foi de uma rua na região central com potências variadas e diferentes das que propuseram os gestores públicos.

Dada a frustração, algumas ações foram tomadas. Houve dificuldade em se aceitar que a ocupação não se deu como o esperado e ao invés de se tratar, então, de administrar e dar atenção à ocupação que se propôs pela própria população foi escolhido usar de força policial para “reestabelecer” a ordem no local, como se o uso da força fosse reiniciar a ocupação dando uma nova chance de fazê-la. Alguns grupos se afastaram do espaço durante as ações policiais como os traficantes de drogas, entretanto, os que persistiram não mudaram seu modo de ser e estar na rua seguindo com o uso que lhes convêm. Provavelmente a frustração de alguns gestores seguiu.

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Assim como na rua curitibana, podemos também pensar no que esperamos de alguém que visita um museu: geralmente a expectativa gira em torno de que o visitante lerá todos os textos e legendas apresentados, que ele verá com atenção todos os objetos e que, num ícone de realização, tirará as dúvidas que formou ainda ali dentro do museu. Na realidade, na prática cotidiana, muitos pais, por exemplo, entram nos museus mais pela curiosidade dos filhos que sua deixando que eles vejam rapidamente uma, no máximo duas exposições, e apenas ver, sem ler, interagir ou questionar. Esse comportamento não é o que “esperamos”, mas a complicação está justamente em “esperarmos” algo, “esperarmos” que será romântico e contemplativo, “esperarmos” que será educativo, instrutivo e interessante a todos. Precisamos passar a pensar na impossibilidade de gerirmos a subjetividade das pessoas, pois, não podemos administrar culturalmente os interesses delas nem as seduzir eticamente a ponto de colocá-las num transe que realize uma interação cem por cento como o esperado. Trabalhar com o material humano gera essa impossibilidade, a de que a expectativa seja correspondida, e quando a frustração acontece cabe a cada órgão escolher como seguir: com força policial, com a oferta de propostas diferenciadas e mais plurais ou com a aceitação de que nem todos precisam ocupar da mesma maneira um mesmo espaço.

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