Crítica: estreia da semana, “Buscando” é inovador, atual, e marcante
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Crítica: estreia da semana, “Buscando” é inovador, atual, e marcante

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Buscando

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Dirigido por Aneesh Chaganty. Roteirizado por Aneesh Chaganty, Sev Ohanian. Elenco: John Cho, Debra Messing, Michelle La, Sara Sohn, Joseph Lee, Steven Michael Eich, Ric Sarabia, Sean O’Bryan 

Buscando é uma trama bastante familiar para a sétima arte, a princípio. A história de um sequestro de uma filha, e a subsequente corrida contra o tempo que assume o pai nas esperanças de encontrá-la ainda com vida não é tanto uma novidade. No entanto, inserido no contexto tecnológico em que vivemos, o longa ganha novos contornos e novas problemáticas exploradas de maneira muito eficiente.

Isso porque a linguagem cinematográfica utilizada é quase inteiramente virtual, uma abordagem bastante ousada do cineasta Chaganty, inclusive. Neste sentido, a tela do cinema se transforma em uma tela de computador, e nos primeiros minutos já somos apresentados à história de uma família de classe média nos Estados Unidos através do percurso cronológico que é mostrado em vídeos caseiros de momentos bons e ruins, acompanhado igualmente pela evolução da tecnologia. Do sistema Windows, até Iphones e Macbooks, assim como Facetime e outros aplicativos que aparecem gradativamente fazendo parte da comunicação e convivência familiar, a qual é completamente relacionável com o nosso cotidiano. 

Contando com uma excelente decupagem, o ritmo de suspense é bem controlado e bastante eficaz, mediante pequenos detalhes que fazem toda a diferença, como as várias ligações no facetime de David (Cho), por exemplo. Além disso, é incrível como pequenos gestos mecânicos no computador são carregados de sentido, apenas pela captura deles em plano-detalhe: são mensagens que são escritas, mas nunca enviadas por serem dolorosas demais, ou fotos e vídeos que são guardados ou deletados, entre outros momentos que conferem uma grande dramaticidade à narrativa.

Chaganty, portanto, confere uma organicidade que jamais deixa sua audiência entediada, já que tudo o que vemos em tela é a própria tela do aparato. O diretor desenvolve uma dinâmica ao não somente focar em certos objetos que conferem símbolos específicos, mas também ao alternar ângulos nos vídeos, como chamadas e pesquisas online que dão um sentido específico para as próprias ações e atitudes de David – cuja ignorância em relação aos fatos é crucial para que o mistério trabalhe de maneira mais eficiente. Assim sendo, são os dígitos do protagonista que movem à narrativa, criando o resultado de um incrível suspense.

Buscando

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Mas o mérito do longa está mesmo é no roteiro, o qual constrói uma história inteligente e repleta de plot twists que nos levam de um lado para o outro sem nenhuma previsibilidade. Neste aspecto, o diretor habilmente planta pistas ao longo da narrativa sem que o espectador sequer possa suspeitar da importância ou da essencialidade deles para o desfecho da narrativa. A título de exemplo, podemos mencionar um carro captado no canto do quadro; um pote de maconha no canto da cozinha; o desgaste físico e emocional da Detetive Vick (Messing), assim como as interrupções provocadas pelo seu filho e uma história sobre a relação entre os dois, contada quase de maneira aleatória, mas que faz toda a diferença; entre outros rastros deixados pela própria Margot (La).

Da mesma forma, Buscando nos ensina muito sobre o mundo conectado e o que ele é capaz de fazer, ou seja, o sensacionalismo e as proporções gritantes que certos fatos tomam, assim como o fato de que nada na internet é deixado sem rastro, mesmo quando alguns crimes são cometidos, como por exemplo, a descoberta da identidade de um homem por um vídeo confessional e uma foto publicada em uma matéria jornalística, ou então uma identidade falsa de um perfil.

A trajetória, por conseguinte, desses personagens não é ao acaso. Ela é contada para demonstrar um lado bastante atual e cruel da nossa sociedade e que tanto a série da Netflix, Black Mirror, trabalha para transparecer para o seu público, só que de modo mais visceral. Ainda que conte com inúmeras facilidades, é muito fácil nos perdermos no mundo fantasioso da internet, para uma solidão e enclausuramento que nos deixam vulneráveis à nossa própria realidade. São nossos medos e nossas preocupações que são moldados muitas vezes por esse universo virtual obscuro. 

Buscando é, pois, um filme extremamente inovador, atual, e marcante. Um dos mais engenhosos do ano de 2018.

Principais informações
Data de publicação:
Título da publicação:
Crítica: estreia da semana, “Buscando” é inovador, atual, e marcante
Classificação:
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Sobre o autor

Gabriella Tomasi

Gabriella Tomasi

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

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