Crítica “Roma”: uma obra-prima do cinema de Alfonso Cuarón?
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Crítica “Roma”: uma obra-prima do cinema de Alfonso Cuarón?

Dirigido e roteirizado por Alfonso Cuarón. Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Daniela Demesa, Marco Graf, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza, Latin Lover, Zarela Lizbeth Chinolla Arellano. 

Roma é o representante do México para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano de 2019. Disponível na Netflix, o mais novo longa de Alfonso Cuarón conta a história de Cleo (Aparicio), uma empregada doméstica que trabalha em tempo integral para uma família com quatro filhos, junto com outra colega. Ambas moram em um dos aposentos que fica aos fundos da casa.

Delicado, mas ao mesmo tempo poderoso, o longa jamais parecer ter uma narrativa com início, meio e fim. Ao contrário, parece ser apenas um recorte de um episódio na memória de nossa protagonista, não sendo à toa, pois, que a fotografia é completamente executada em preto e branco. Da mesma forma, podemos perceber como o primeiro ato inicia e o terceiro ato termina: com cenas dela limpando normalmente, praticamente banalizando tudo o que vimos durante duas horas de filme.

Se digo “banalizando”, é longe de ser um aspecto negativo, mas sim um recurso que nos mostra e ressalta ainda mais o argumento desse filme, qual seja, a luta de classes, o preconceito de gênero e de raça, tudo sob uma perspectiva bastante intimista, fazendo com que Roma se destaque ainda mais das outras produções.

Roma

Roma

Portanto, as críticas mais duras de Cuarón em relação a esses temas consistem nos momentos mais impactantes quanto nos mais sutis, como um olhar profundo sobre o discurso meritocrático. Assim sendo, não se trata de mera coincidência quando a trajetória da protagonista parece estar indo cada vez mais em uma direção desastrosa, como se quase chegando no fundo do poço, para então retornar às origens. Cleo é uma faxineira, mulher e de origem indígena, humilde e conservadora que jamais conhecerá algo para além daquela sua realidade, como se a abordagem niilista de toda a narrativa fosse a representação de seu próprio destino – o que faz de Roma um filme devastador.

Assim sendo, podemos ver como a sua chefe a trata como membro da família, mas sem nunca deixar de subjugá-la como sua empregada. Ao mesmo tempo em que se mostra empática, como as inúmeras formas de gratidão e inclusive de solidariedade, ela é grosseira e desrespeitosa. Sua mãe, por sua vez, sequer sabe informar quantos anos ou qual era a data de nascimento de Cleo, mesmo parecendo estar há anos trabalhando lá. E quando Cleo se junta para uma viagem de férias em família, é a única que não descansa, sempre estando de prontidão para qualquer ordem.

Além disso, é visível como as crises do relacionamento de sua empregadora jamais possuem o mesmo impacto ou tomam o mesmo rumo que a protagonista contempla. E isso muitas vezes atinge de maneira tão calada e silenciosa que é impossível não se deixar impactar pelos seus olhares distantes e melancólicos. A facilidade com que sua chefe encara o divórcio como uma “nova aventura” com os filhos; um novo emprego arranjado mesmo não sendo da sua área de formação, mas advindo de um hobby ou; então o fato de ela trocar de carro de uma hora para outra, são elementos evidentes de que o mesmo não se aplica aos seus empregados.

Para tanto, a casa onde Cleo trabalha parece ser um personagem à parte, afinal, a sua vida gira em torno e em função daquele lugar, sendo esse aspecto ainda mais evidente diante da sua rara sociabilidade e de seus raros contatos com o mundo exterior. A ingenuidade da protagonista nestes momentos ficam explícitos. Neste sentido, Cuarón aproveita para explorar os aposentos e sua relação com eles apenas com a câmera estática, com planos longos e abertos, em pouquíssima movimentação, se utilizando muito da panorâmica para criar a sensação de que estamos parados no tempo e para recriar, em tom quase documental, os passos da protagonista.

As assertivas do realizador de Roma têm seu ápice com uma viagem para a praia. É quando o desgaste emocional chega na superfície, o desespero e as mágoas contidas. Isso tudo para lembrar da importância que pessoas como Cleo têm nas nossas vidas e como são negligenciadas.

Pessoas como Cleo salvam pessoas, e mesmo assim não conseguem ser líderes de sua própria revolução.

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Gabriella Tomasi

Gabriella Tomasi

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

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