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Crítica “A Favorita”: rumo ao Oscar 2019

Dirigido por Yorgos Lanthimos. Roteirizado por Deborah Davis, Tony McNamara. Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn, Mark Gatiss, James Smith, Jenny Rainsford

Yorgos Lanthimos costuma ser um diretor pouco convencional, mas que dentro de suas particularidades residem mensagens e simbolismos poderosos. Se em O Lagosta (2017) o jeito excêntrico conquistou parte dos membros da Academia – ao menos para ser indicado a Melhor Roteiro Original – A Favorita, por sua vez, conseguiu conquistar 10 indicações, incluindo a de Melhor Filme.

Como o título já enuncia, a trama se trata daqueles que não possuem limites morais para chegar até uma posição confortável e de prestígio. Em meio à uma guerra devastadora que toma conta da Inglaterra no século XVIII, Abigail (Stone) chega ameaçar o posto de favorita que ocupava até então sua prima Sarah (Weisz), a duquesa de Marlborough, da rainha Anne (Colman) para recuperar sua classe e status social.

A narrativa então se concentra na dinâmica entre as três atrizes, as quais trazem personagens extremamente complexos e intrigantes. Abigail se apresenta como uma menina inocente em um primeiro momento e que aos poucos ganha contornos obscuros; Sarah é uma mulher batalhadora e com uma personalidade bastante forte e; Anne é a personagem mais ambígua, uma pessoa que se delicia em ser o centro das atenções e sempre se firma como tal, não sendo à toa, pois, que os berros da rainha dentro de um palácio silencioso soem como uma criança mimada aos prantos.

A Favorita
A Favorita

As personagens femininas são fortes, mas isso não impede de que todas elas tenham plena consciência de sua posição subjugada dentro daquela sociedade, trazendo muitos momentos interessantes que são ajudados pelo incrível e inteligente roteiro. A título de exemplo, podemos mencionar Abigail que tira sarro de seu potencial interesse romântico falando frases que todo homem espera de uma mulher como “quero me casar com você”; o simples fato da obrigação do sexo nas núpcias leva a uma rápida masturbação; ou quando Sarah ironiza o fato de que homens não aceitam ordens dela; ou quando Abigail em certo encontro com o homem pergunta: “você veio me estuprar?”.

Neste contexto, há sim muito humor neste longa. Não somente em relação às situações de machismos em que as personagens estão inseridas, mas também para ridicularizar e ironizar certas situações que levam as pessoas em volta de Sua Alteza a fazerem de tudo apenas para agradá-la, e consequentemente, não perder os privilégios e mordomias que é estar ao seu lado.

Uma dança bizarra, a música que a agoniza, as brincadeiras com a cadeira de rodas entre outras situações, que certamente se prestam para satisfazer os prazeres mais extravagantes e enfadonhos da rainha, denota um mundo fútil e muitas vezes sem preocupações com  a realidade exterior, ou seja, com a população. Dessa forma, mal vemos o que acontece com os ingleses para além dos aposentos gigantescos e pomposos do palácio, ou as consequencias diretas de uma guerra. Tudo acontece dentro daquele enorme castelo, cujo vazio parece refletir o mundo que Lanthimos deseja transparecer.

Por ser um longa de época, obviamente o seu design de produção não deixa a desejar para retratar o período em questão. Assim, cada objeto colabora para a mise-en-scène e o que cada cena representa, e com a ajuda da direção de fotografia conseguem criar ambientes sombrios, como a revelação de um encontro amoroso por uma vela acesa.

Porém, o mais interessante certamente é a maquiagem e figurino que não deixam também de serem impecáveis, e possuem um papel igualmente muito específico dentro da narrativa. Aqui, para reforçar essa inversão de papeis entre os sexos, as mulheres sempre mantêm muito simples sua maquiagem e cabelos sempre naturais, ao contrário dos homens, os quais sempre se maquiam exageradamente com suas perucas imensas. Não é à toa que sempre quando resolvem “caprichar” no rosto, elas se estranham e brincam com isso.

Já o figurino, por sua vez, denota o jogo de poder e a influência que Sarah e Abigail possuem ao longo da narrativa em relação à Anne. Abigail é inicialmente vestida à la “Cinderela” , uma referência à sua condição inicial de servente e  de pobre dentro da casa, com seu vestido branco e azul. Não coincidentemente, a cena em que ela foge com o cavalo para se deparar com um homem é a personificação do encontro com o “príncipe encantado”, o que obviamente é desmitificado depois. Sarah, primeiramente, se veste em perto e branco justamente para ressaltar seu caráter ambíguo. Na medida em que Abigail se aproxima da rainha, seus vestidos se tornam inteiramente pretos, e os de Sarah brancos, até que quando ocorre a troca da posição de “favorita”, Sarah é vista em preto e Abigail de preto e branco exatamente como a sua antecessora.

Um trabalho inteiramente cuidadoso e trabalhoso fez com que A Favorita alcançasse o maior número de indicações ao Oscar de 2019. É uma daquelas produções que quanto mais você assiste, mais você respeita e admira.

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