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Festival Olhar de Cinema 2019: A cinefilia como sobrevivência

Casa, da baiana Letícia Simões - Olhar de Cinema
Casa, da baiana Letícia Simões

Oitava edição do Olhar de Cinema de Curitiba cresce e reafirma a força e o alcance do audiovisual brasileiro em meio à crise e ao caos do País

Em “Não Pense que eu vou Gritar” (Ne croyez surtout pas que je hurle, FRA, 2019) a demanda  pelo cinema é radicalmente visceral: (sobre)viver através dos filmes. Vencedor do prêmio do júri na Mostra “Novos Olhares”, o longa-metragem do francês Frank Beauvais, ilustra bem o desafio do 8º Festival Internacional de Cinema de Curitiba. Em meio à crise e ao caos brasileiro, reafirmar a resistência e importância da arte; seja para apontar caminhos ou renovar o fôlego em tempos de devastação cultural.

O “Olhar de Cinema 2019” – como é mais conhecido – ao contrário da maioria dos eventos da área no País, ampliou seu alcance com novas mostras, encontros e debates distribuídos em sua programação no decorrer de pouco mais de uma semana (5 a 13 de junho). Trégua necessária sob o abrigo generoso da cinefilia.

Território, por sinal, habitado por Beauvais em seu premiado trabalho, um dos destaques do certame. Na obra, ele nos oferece uma torrente de imagens pré-existentes conduzida por uma vertiginosa narração em primeira pessoa. O cineasta, isolado numa pequena cidade do interior da França, recorre à paixão pelos filmes para enfrentar o abandono e a solidão, depois do fim de um relacionamento afetivo. Não é uma declaração de amor ao cinema. Estamos aqui – sem idealizações – no domínio do desespero e da dor. Trata-se de uma imersão sem condescendência – e muito lúcida – pelos meandros do imaginário cinematográfico.

A voz de Beauvais se sobrepõe ao que vemos – flashes, mais do que trechos, de centenas de filmes não ilustram, nem reforçam o que é dito. Estão aí na condição de testemunho de um estado de espírito, vestígios de um percurso íntimo que precisa de alguma instância visível para vir à tona.

Olhar de Cinema
Não pense que eu vou gritar

Por outro lado, o relato é tão concreto, preciso na sua exegese dos sentimentos que a materialidade do cinema (a imagem) vai se apagando a ponto de, em algum momento, se tudo se esvanecesse diante de nossos olhos, nos bastaria o ouvido (a evocação dos sons e as palavras) para continuarmos ali, presos ao filme e às experiências, observações e medos do seu realizador. É quando a luz se apaga – tempo de voltar à vida lá fora.

Abraccine
A presença da produção baiana no Festival foi devidamente reconhecida com o prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) para “Casa”, documentário ensaístico e memorialista realizado pela soteropolitana Letícia Simões. O júri formado por Ivonete Pinto (RS), Marcelo Müller (RJ) e Barbara Demerov (SP) foi cativado pela construção inventiva e franca dos percalços típicos das relações familiares.

Já a comissão responsável pela atribuição dos prêmios da Mostra Competitiva, composta pela programadora brasileira Flávia Cândida, a cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes e o crítico e curador cubano Alberto Ramos, elegeu o longa-metragem brasileiro Diz a ela que me viu Chorar como o melhor filme desta edição. A produção francesa “Seguir Filmando”, de Saeed Al Batal e Ghiath Ayoub, recebeu o prêmio de Contribuição Artística. O longa-metragem brasileiro “Chão”, de Camila Freitas, recebeu o prêmio especial do júri e também foi escolhido como a melhor realização pelo público do festival.

Confira a lista completa de premiados:
Prêmio AVEC-PR

– Melhor curta-metragem da mostra Mirada Paranaense;
Mirror Mirror on the Wall, de Igor Urban

– Menção Honrosa;
“Essa Terra não vai Terminar”, de Matias Dala Stella

Prêmio da Crítica / Abraccine
– Melhor longa-metragem da mostra Competitiva;
“Casa”, de Letícia Simões

Outros Olhares
– Prêmio de Melhor Filme da mostra Outros Olhares | Longa;
“No Salão de Jolie”, de Rosine Mbakam

– Menção Honrosa;
“Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa

Novos Olhares
Prêmio de Melhor Filme da mostra Novos Olhares;
“Não Pense que eu vou Gritar”, de Frank Beauvais

Melhor Filme Brasileiro | Longa
-Prêmio de Melhor longa-metragem brasileiro;
“Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai

Melhor Filme Brasileiro | Curta
– Prêmio de Melhor curta-metragem;
“Quebramar”, de Cris Lyra

Público
– Prêmio do Público;
“Chão”, de Camila Freitas 

Competitiva
Curta-metragem
– Prêmio Olhar de Melhor Filme;
“Aziza”, de Soudade Kaadan

– Menção Honrosa curta-metragem
“Sete anos em Maio”, de Affonso Uchôa

Longa-metragem
– Prêmio Olhar de Melhor Filme;
“Diz a ela que me viu Chorar”, de Maíra Bühler

Longa-metragem
– Prêmio de Contribuição Artística
“Seguir Filmando”, de Saeed Al Batal, Ghiath Ayoub

– Prêmio Especial do Júri;
“Chão”, de Camila Freitas

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