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Brasil de Imigrantes – A resiliência e seu fantasma

Brasil de Imigrantes
Brasil de Imigrantes

 

Série do History Channel tenta resgatar o lado épico do empreendedorismo e da imigração num tempo de desemprego e de crise migratória

Setembro de 2015. A foto do refugiado sírio Alan Kurdi, morto aos três anos de idade numa praia de Bodrum, na Turquia, de pronto se torna um dos símbolos do mal-estar no século XXI. Tal imagem-tragédia é apropriada de todas as formas pela grande mídia e pelas redes sociais, e viraliza retumbantemente. Uma revista brasileira torna-a capa, e a ilustra com um comentário que contesta a bondade divina, à guisa de teologia. A composição final era impactante: uma bomba de sensacionalismo, diante da dor dos outros. No entanto, quando se abria a publicação, dava-se de cara, antes mesmo da primeira página, com um encarte publicitário gastronômico. “Delícias que vêm do mar”, era o que estava escrito no anexo. Logo, havia uma assustadora desconexão entre a capa e o primeiro conteúdo visível, um descompasso que conferiria ainda mais angústia a quem folheasse o periódico, se reparasse bem em seus discursos. E é bem eloquente que poucos tenham comentado essa gritante falta de sincronia. Diante de uma imagem violenta e lamentável da condição humana contemporânea, o lapso do veículo midiático assumiu veios grotescos, até macabros. Concluía-se, por essa razão, que a capa e o fôlder propagandístico, atados de maneira absurda, habitavam dois universos discursivos paralelos, na mentalidade do público leitor e de seus editores, e eram independentes e alienados um do outro, em tese.

Outras cenas assoladoras vieram a compor o imaginário das massas, nos anos 2010. Em agosto de 2015, refugiados chegavam, de bote, a uma ilha paradisíaca do mar Egeu, sendo contemplados por banhistas lentos, atônitos ou cansados, no balneário. Mais uma vez, dois universos, dois tempos diferentes: folga e lazer versus sobrevivência brutal, num mesmo plano demencial, num choque de realidades. No ano seguinte, a jornalista húngara Petra László, ligada à extrema-direita, é flagrada chutando uma criança imigrante em fuga. Em novembro deste ano-síntese, este 2016, Trump se elege, sob a égide de murar a fronteira mexicana, entre outras blaterações e barbáries de campanha. Do Brasil, vêm notícias sobre agressões e ataques xenófobos a haitianos, senegaleses, venezuelanos. Não é preciso continuar com a enumeração para chegarmos à conclusão de que a década atual é um arquipélago de não-territórios; as fronteiras estão fechadas ou em processo de fechamento, e as populações que as cruzam em busca de refúgio político e/ou econômico são vistas com ódio e desconfiança por muitos nativos, enquanto os turistas seguem com seus protocolos de consumo, como os banhistas das telas de Eric Fischl, traga o que traga a maré.

Nesse contexto geopolítico catastrófico, a série Brasil de Imigrantes [co-produção History Channel-Elo Company], que estreia segunda, dia 19 de agosto, às 20h40, no History Channel, tem o desafio de conferir ares mais amenos e edificantes às narrativas migratórias, diante de uma audiência que, em diversos níveis de consciência, pressente o colapso de alguns mitos neoliberais, fortalecidos sobremaneira a partir dos anos 1990: o mito da positividade unívoca da globalização, o mito do pleno emprego, o mito do “cidadão do mundo”, o mito de que uma rotina e higiene de estudos e diplomação agregará necessariamente valor à mão-de- obra, o mito da resiliência etc. Para o resgate e a afirmação dessas cargas de positividade, o carro-chefe da série será a relação entre imigração e o empreendedorismo de sucesso.

Segundo a produtora executiva da ELO Company, Paula Garcia, e a CEO da empresa, Sabrina Nudeliman Wagon, “o ato de empreender é, de fato, o foco de cada um dos episódios.” As histórias, dificuldades e triunfos de cada imigrante, portanto, dão tons bastante grandiloquentes a pessoas que, por diferentes maneiras e em tempos diversos, estabeleceram-se no Brasil. Em entrevista cedida ao Cabine Cultural durante o coquetel de lançamento da produção original, a produtora e a executiva ressaltam também que um dos objetivos da programação é conotar de positividade a figura do típico recém-chegado a nosso país; descrevê-lo como sujeito que “não rouba emprego, e embora venha muitas vezes sem nada, contribui para a construção nacional”. As entrevistadas, ademais, identificam-se com a temática abordada, já que heranças migratórias fazem parte de sua biografia e identidade.

Brasil de Imigrantes
Brasil de Imigrantes

A série será dividida em seis episódios, e cada um deles enfoca uma trajetória. O episódio de estreia diz respeito aos Bauducco, e tematiza o estabelecimento da família italiana no Brasil, no contexto do pós-guerra. Na mesma data, vai ao ar a saga dos Ostrowiecki. A Segunda Guerra também define essa narrativa: a família polonesa foi vítima direta da extrema-direita alemã, nos anos hitleristas. No dia 19 de agosto, David Vélez alegorizará os imigrantes colombianos. Como representantes da vasta colônia japonesa brasileira, os membros da família Nakaya ganham destaque em episódio datado para o dia 26. No dia 2 de setembro, os portugueses são postos em cena através de Alberto Saraiva, fundador e presidente do Habib’s.  Finalmente, serão retratados os percursos e percalços do vietnamita Thai Nghiã, no dia 9/9. Quem apresenta as sessões é Maria Fernanda Cândido. A escolha da atriz  é habilidosa, já que dispara a memória afetiva dos espectadores, evocando a saudosa Terra Nostra. No coquetel de lançamento da produção original, ocorrido no Unibes Cultural, em São Paulo, no último dia 6, representantes das famílias biografadas estiveram presentes e participaram de debate mediado por Ana Fontes, do Instituto Rede Mulher Empreendedora. Também se dispuseram a conversar com o público. Compartilharam histórias pessoais de superação, sofrimento, trabalho árduo, sorte e resistência, e foram largamente aplaudidos.

Agora, vamos a uma questão de discurso. Durante a apresentação da série, clássicos elementos da gramática normativa empresarial conduziram os dizeres. No vídeo inaugural, pincelaram-se alguns efeitos visuais com elementos de artes marciais. Palavras como “garra” e “sacrifício”, em dicções otimistas, vieram à tona. O termo “resiliência”, tão caro ao vocabulário de coaches, palestrantes motivacionais e bem frequente no circuito de afetos da população brasileira (desde as escápulas, nucas e antebraços tatuados com o verbete até os mantras dos tedtalks do youtube) foi mencionado por três vezes. Resiliência, resiliência, resiliência.

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Schopenhauer uma vez escreveu que os polos do sofrimento podiam ser representados pelo turista sem necessidades materiais, mas cheio de tédio, por um lado, e pelo nômade que vagava pelo mundo, carente de recursos básicos de sobrevivência e dignidade, a quem o tédio seria um luxo inexistente, por outro. O século XXI colocou estes tipos schopenhauerianos, em essência tão afastados entre si, em convivência e confronto direto e imagético: a praia onde se descansa é o local aonde chega o bote miserável. Como dissemos, os desafios de qualquer narrativa épica e individualizada sobre imigração são imensos: trata-se de convencer as massas de que o futuro é uma opção, e depende principalmente do mérito e da dedicação pessoal.

Caso tal convencimento não seja possível, o feixe desse conjunto de ideias será contradito pela dialética. Então o discurso empreendedorista – ao menos em sua versão mais corrente – estará diante da factuidade do capital no século XXI, e o termo individualista “resiliência” contemplará a sua sombra coletiva: índices galopantes de pânico e depressão, mão-de-obra ociosa, insatisfação no trabalho, síndromes de burnout e esgotamento psicológico, ausência de direitos trabalhistas e aposentadoria, informalidade, baixos salários, subemprego, entre outras questões.

E talvez continuem a existir mais prenúncios de crise e de que há algo de errado na economia mundial, sentido na pele pela maioria das pessoas que deixam seus países, ou que neles permanecem. Nas palavras de Fernando Pessoa, “estrangeiro aqui, como em toda parte”.

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