Teatro: “Embarque Imediato” um espetáculo raso e demasiadamente clichê

Embarque Imediato
Embarque Imediato

Embarque Imediato não consegue, em momento algum, chegar onde deveria chegar. Ou apontar soluções. Com um cenário e texto bem parecidos com a peça anterior “Namíbia, não!”, a peça é uma coletânea de fragmentos sem nenhum cuidado aparente.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho*

Tudo indicava que seria um programa educativo e absurdamente necessário, principalmente nestes tempos de racismo oficializado pelo próprio presidente, preconceitos vomitados em redes sociais e total falta de informação em um projeto louvável e patrocinado(?) pelo Governo do Estado de viabilizar preços para levar ao teatro e um pouco mais de cultura com valores (realmente populares) para pessoas que nunca teriam acesso, inclusive antes de começar o espetáculo propagandas estrategicamente são inseridas no telão principal sobre este Governo petista e adestrador de porcos, como que aliciando a sua autoria, em paráfrase com o “Príncipe”, de Maquiavel, “governantes não têm réguas óbvias, nelas virtudes e defeitos podem, enfim, está em sob medida subjetiva, flexível e quase em litígio com a ética”, mas o projeto é louvável.

O ENREDO – Mas a peça “Embarque Imediato”, que também é uma celebração mais do que bem vinda dos 80 anos do grande ator Antônio Pitanga, um artista marcante do cinema (*vejam “Bahia de Todos os Santos” (1960), “O Pagador de Promessas” (1962), “Uma Nêga Chamada Tereza” (1970), “Eternamente Pagú” (1988), “Cartola – Música para os Olhos” (2007), entre outros), teatro e TV brasileira, além do encontro com os seus filhos Rocco Pitanga, conta também com a presença virtual de Camila Pitanga, que dá voz aos textos em off da montagem e aparições em vídeo. Mas, dessa vez, a situação dramática destes encontros que, no enredo, em um aeroporto internacional entre um jovem doutorando negro brasileiro e um senhor africano, descendente dos Agudás (africanos escravizados no Brasil que retornaram ao país de origem após alforria quase sempre comprada), não deu liga. Na personagem do jovem afro-americano, a perspectiva ocidentalizada e a defesa de que houve aspectos positivos na diáspora forçada dos africanos, que aqui na América do Sul foram escravizados em diálogo com o velho senhor descendente de Agudás que questiona nervosamente essas supostas vantagens. Ambos personagens estão confinados numa sala, o jovem por ter perdido seus documentos durante uma conexão de voo; e o velho se explicação aparente.

No enredo, este encontro entre o velho africano e o jovem pesquisador brasileiro ou entre a África e a diáspora ficou parecido como um papo numa mesa de bar e/ou num jogo de futebol no Estádio da Fonte Nova, num discurso confuso e contraditório no texto inédito do Aldri Anunciação, com encenação de Márcio Meirelles. Com o Teatro Castro Alves, em Salvador, completamente lotado, a montagem colocou pela primeira vez em cena a família Pitanga, vivendo estas personas que se encontram num aeroporto internacional e estabelecem, na teoria, um diálogo sobre a História e sobre o preconceito racial de todos os dias. Mas o espetáculo “Embarque Imediato” não consegue, em momento algum, chegar onde deveria chegar. Ou apontar soluções. Com um cenário e texto bem parecidos com a peça anterior “Namíbia, não!”, também do  Aldri, a peça é uma coletânea de fragmentos sem nenhum cuidado aparente. Tudo é jogado no palco como se fosse em uma aula de sociologia em uma faculdade administrada por sindicalistas.

Embarque Imediato
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EXPERIÊNCIAS – Os Pitangas vivem um encontro paradoxal entre experiências bem distintas (o velho africano e o jovem pesquisador brasileiro), mas a obra não consegue debater, não tem atrativo, questiona o tempo todo a condição do negro na sociedade, mas sempre colocando-o  como a vítima constante de todas as épocas. Falou-se muito da sociedade branca escravocrata, mas se esqueceu de falar também que negros algozes também escravizaram negros (*vejam “O Nascimento de uma Nação” e/ou “12 Anos de Escravidão”). “Embarque Imediato” faz parte da trilogia teatral iniciada pelo já citado espetáculo “Namíbia, Não!” (com direção de Lázaro Ramos) e seguida por “O Campo de Batalha” (direção de Márcio Meirelles e Fernando Philbert). Estes espetáculos da trilogia, segundo o seu autor, não compõem uma mesma narrativa temática, mas têm em comum a “linguagem articulada” na “dramaturgia do debate do sujeito múltiplo” (*pesquisa poética acadêmica de autoria do autor no curso de Doutoramento em Dramaturgia no PPGAC-UFBA).

A PEÇA SEM LIGA – Aldri Anunciação pode até ser que o festejado autor e então queridinho da Rede Bahia tenha os seus méritos, o que não podemos descartar, mas o espetáculo “Embarque Imediato” não agrada quem, ao menos, tem um pouco mais de leitura. Em cena, o debate sobre História, identidade, preconceito e cultura (ou falta dela). De acordo com o autor da peça “o encontro entre a personagem jovem e o velho desenha-se de modo a extrapolar a ideia de conflito entre duas subjetividades”. A peça foi feliz em  promover um debate sobre a diáspora brasileira, em que a cena é configurada de modo a apresentar diferentes pontos de vista e permitir que o espectador chegue às suas conclusões, a partir das reflexões e argumentações tecidas ao longo da cena, mas peca com relação ao didatismo. Parecia uma aula em escola paroquial! E só!

Outro ponto a destacar foi a plateia segmentada, cheia de figuras pitorescas, com seus turbantes, argolas e roupas com estampas africanas para mostrar que estava ocupando o território, pelo menos naquele momento. E parafraseando uma autora local que fala do Estado de democracia do povo baiano, aliás, não é bem democracia, é uma condição de gado marcado, um povo que está condicionado a admitir tudo, a baixar a cabeça, a aplaudir somente os seus iguais, como se tudo de bom ou ruim, se for proclamado pelo seu afeto, pelo seu voto acrítico, seja aceito passivamente, sem visão crítica, sem nenhuma leitura, sem contextualização. Olham para tudo estabilizados sem qualquer reflexão, e em muito se reflete esta política demagógica de pão e circo e de marcação de xis em provas do Enem. Tudo bem educado e nada divergente.

Embarque Imediato
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EMBATE DE FORÇAS – O espetáculo “Embarque Imediato” é um diálogo entre dois homens, dois seres com vivências diferentes, com experiências de mundo bem distintas, com pedagogias idem; um jovem e outro mais velho sob a ordem narrativa de uma discussão ancestral. O mais velho era a voz da diáspora em sua carga mais emocional, crítica que, de certa maneira, negava ou questionava o outro por ser jovem (supostamente, segundo ele, sem experiência) que iria para Alemanha para defender uma tese sobre Bertolt Brecht, como defesa. O homem mais jovem, cosmopolita, viajado, falante de inglês, de cultura, estilo nouveaux  (*mesmo com a rasa atuação do Rocco) causa no outro, em sua existência, uma certa rixa.

Mas a peça propõe, nesta situação dramática, mais um embate de forças. A personagem, ainda que identificada na unicidade da forma do sujeito, condensa em si diversos matizes como que um grande mosaico representativo de vozes múltiplas e de uma memória coletiva. Trabalha-se nessa narrativa a hipótese de que o sujeito diaspórico condensa na sua. E mesmo com um artista como Antônio Pitanga, do alto de seus oitenta anos, esbanjando talento, brilhante, terno com suas falas ponderadas, não consegue se remediar do tom didático, chato, clichê, com discursos biográficos do tipo UFBA sindicalista, mas que grita da força dos negros, do sofrimento dos negros, dos algozes dos negros, inclusive dos da Marielle Fraco.

PÁRIAS DECLARADAS – Não somos cuidadosos com certas análises porque, segundo Cândido, a arte pede análises sim. Mas não somos racistas, pelo contrário, mas críticos de um espetáculo pelo tom dramático que excedeu na monotonia do espetáculo, com vários gêneros, e com uma dialética usada que foi bem questionável. O fim do espetáculo cai como se fosse um final imediato, um corte na narrativa muito mais panfletária, ideológica, partidária. E o que tem sobre esse estado de coisas: arranjos com textos que falam o que seja conveniente aos gestores dessa Cuba remanescente, tudo para esse tom romântico, idílico com os gestores de tais verdades.

Ao final, esperávamos um Antonio Pitanga com um discurso político, mas não houve; o diretor, sim, falando de falências, tempo de falências, de urgências, etc. Ao diretor, uma réplica nossa: quando houve democracia num Estado que se acostumou a ser unilateral e perseguir quem era diversidade? Óbvio, que numa perseguição tácita, típica, a mesma que confere aos discursos de minoria uma assinatura das esquerdas: veados, pretos, putas, drogados que não frequentem o mesmo palanque. A pia batismal da esquerda não têm causa, são párias declaradas e jogadas ao ridículo.

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Enfim, estas impressões, onde a arte no país está de luto e em crise, que perdeu-se dinheiro, onde há um discurso de mágoa que se confere numa certa apologia perigosa, mas isso tratamos em um outro texto, pois governantes e arte não podem andar juntos porque esta harmonia não pega. Arte é lugar de subversão e não comunhão com clubes de mitos mitômanos. Nunca houve isso para que terminasse bem.

* Anna Carvalho é escritora, blogueira, professora, jornalista e co-autora com Elenilson Nascimento em “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” e “Clandestinos”, além de ter participado da premiada antologia “Contos Perversos” com o conto “Pretinho Básico”. Contato: carvalhoanna141@gmail.com

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