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Literatura: Forever Young (Tributo com vergonha nos pés a Fernanda Young)

Fernanda Young
Fernanda Young

“A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias.” (Fernanda Young)

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

Ainda lembro bem do dia, lá pelos idos de 1998, recém- formado, quando comecei a lecionar, detestando o ambiente da educação, me sentindo um lixo em sala de aula, tendo de aturar alunos mal educados e conviver com coleguinhas demasiadamente deslumbrados, com um salário que mal dava para pagar as minhas poucas despesas, andando entre as prateleiras de livrarias, procurando algo novo entre os velhos para ler e que fizesse eu me sentir inspirado novamente. Coisa que eu fazia com muita frequência. Precisava urgente me encontrar em páginas que não fossem minhas, pois nessa época já começava a participar de antologias e ter pequenos textos publicados em jornais e blogs. Ainda nesta época ou­via muitas quei­xas de es­cri­to­res, po­e­tas, músicos e ar­tis­tas so­bre a so­li­dão e o aban­do­no serem uma coisa cons­tan­te. Mui­tos la­men­tavam por usos e cos­tu­mes de egos perdidos e pe­din­do afa­gos. Não pa­re­ce ser o ca­so de escrever isso aqui e ago­ra, mas o de um quei­xu­me que nem ou­sa apre­sen­tar-se no mun­do da ho­ra pre­sen­te, mais ocu­pa­do demais com es­cân­da­los e fofocas de ce­le­bri­da­des pas­sa­di­ças e mor­ti­ças.

E lá estava eu: vivendo de uma profissão desvalorizada, me sentindo um cão leproso e morando, praticamente, em livrarias – quando Salvador ainda as tinha. E quando eu digo morar eu não digo entrar, comprar um livro e sair. Quando eu digo morar eu quero dizer sair de casa pra isso. Muitas vezes sem nem pretensão de realmente comprar. Mesmo porque o meu salário de professor era tão vergonhoso que nem isso dava pra fazer com frequência. Mas ia assim mesmo. Ia de estante em estante descobrindo coisas interessantes, mesmo que o assunto não me interessasse minimamente, pois livraria é aquele mundo de cores, palavras, versos, histórias e autores. Por vezes conhecidos, outros nem tanto. E eu sempre gostei do ambiente porque a maioria dos livros não está lacrado. Lembro de uma na Avenida Sete de Setembro, centro de Salvador, que tinha muitas estantes. E muitos pufes, onde você podia deitar e ler a tarde toda se quisesse. Eu fazia isso quase todos os dias. Porque eu amo o clima de livraria, o cheiro dos livros e aquela gente toda com cara de inteligente. E aquele silêncio cheio de burburinhos? Aquele barulhinho gostoso de pessoas folheando páginas. Parecia que ali todo mundo se entendia. Mesmo que fosse apenas com as palavras dos outros. É um bom lugar também pra se tomar um café. Ou no meu caso, um chocolate quente com bolinhos. Mas sempre vinha algum funcionário pra dizer: “Só tome cuidado para não derrubar em cima do livro!”. E foi nesta época que eu pegava meu dedo indicador e passeava por inúmeros títulos. Cores. Palavras. Autores. Tirava um, dois, três livros. Li algumas sinopses, outros eu sequer abri. Mas descobri autores que amo até os dias de hoje. Reinaldo Arenas, Patrícia Highsmith, Jack London, Antonio Gala e Fernanda Young. E é dela e para ela que este texto é dedicado.

Fernanda livro
Fernanda livro

VERGONHA DOS PÉS – Não sei bem dizer em qual número eu me encontrava quando avistei “Vergonha dos Pés”. Um título que me acolheu perdidamente. Às vezes, penso que foi o fato de eu ser míope, ou quem sabe pelo o vício em ler livros com letras miúdas e/ou gostar de pornografia. Por fim, prefiro por a culpa no fato de eu ser de capricórnio com ascendente em peixes. Mas lembro de ter comprado aquele livro e corrido para casa e lido aquele texto nervoso numa tarde inteira. Fico pensando, não sendo nada clichê, não querendo engrossar as homenagens tardias e póstumas a fila de quem é falado só pós-morte, que os bons morrem cedo demais. E penso, incrédulo, submeter essa tamanha inteligência a pouca indulgência da eternidade.

Fernanda fez uma literatura forte, de gênero, vomitada, gritada, nervosa. Operou, pelo humor, seguindo o rito de Plauto, um dramaturgo romano, onde o riso como conserto de costumes de uma sociedade que hoje age no comando de quem cativantemente lhe ordena. Nunca tinha lido nada da Fernanda Young, sempre que ouvia falar dela, ligava imediatamente à imagem de uma mulher vestida de preto e cheia de tatuagens (já naquela época). E eu estava certo, era ela. O que eu não sabia era da grande facilidade que ela teria em me ganhar nas palavras. Poemas e poesias sempre foram meu ponto fraco, eu estava prestes a me apaixonar. E “Vergonha dos Pés” nasceu do encontro da Fernanda com um maço de cartas amarradas por uma fita de cetim, que ela achou em uma caixa cheia de livros numa tarde qualquer. Ana, a personagem central desse livro, alimenta o sonho de ser escritora. Ela cria histórias fantásticas, imagina tramas sórdidas, elabora diálogos, é demasiadamente avassaladora, intensa, alegórica, seja em conselhos a um casal que tinha tudo para dar errado, seja nas suas crônicas cirúrgicas sobre a realidade. Seu olhar voyeur, seu DNA discursivo, faz da protagonista deste livros, como a própria Fernanda, aliada de drama e risos com conta-gotas cirúrgico, sereno, de excelência. Mas tudo se passa somente em sua cabeça.

As histórias da Ana jamais chegam ao papel. “Vergonha dos pés” é uma atordoante e louca viagem aos pensamentos da Ana. O encontro com Jaime, a paixão fulminante entre os dois, o tédio que lhe provoca a vida universitária aparecem entremeados aos personagens que existem somente em sua imaginação, vivendo emoções extremadas, não muito diferentes das da própria Ana. E ao “comer” este livro, podemos perceber o quanto da autora tem nele. São páginas e mais páginas de recortes, rascunhos, anotações descabaçadas e até mesmo bordados de poemas, produzidos por ela. “Poesia é mesmo uma estrutura cruel, visto que, se não conseguimos ler corretamente um poema, ele não fará sentido algum. Há versos que, sozinhos, contam páginas e páginas de uma história; outros encerram, na medida cirúrgica, exatamente o que querem dizer. É como se um romance coubesse ali”, afirmou Fernanda em certa ocasião.

Fernanda Young
Fernanda Young

O ÚLTIMO TEXTO – Fernanda Young se tornou uma das mais importantes autoras brasileiras contemporânea sobre o universo feminino. Solitária, lírica, imprevisível. Fernanda com as suas tatuagens e com a sua opinião sempre única e formulada pela sua voz sincopada, foi e é a voz pouco indulgente sobre uma sociedade que a classificava de “puta”. Aliás, Young viveu da insubordinação mais clássica, competente que, ainda hoje, as unanimidades burras e defensoras de psicopatas precisam ser unânimes. E nada surpreende mais, mas Fernanda viveu sob o peso da sua perversão, onde poucos são os que são fiéis a ela. E benditos os perversos de coração.

Em sua última coluna, nas páginas de Opinião do jornal O Globo, Fernanda faz um pequeno tratado sobre os cafonas e o seu mau gosto existencial no Brasil de hoje: “A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias”. Pois é, agora, o país inteiro viverá sob seu estarrecimento, alguns programas sazonais em perder esse corcel selvagem viverá de badalar rebentos comuns como se fossem únicos, em sendo bonzinhos. Esse país que enterra liberdade com competência de quem ladra com algemas e barrotes, pois Fernanda Young sai de cena no momento certo em que arte transa com ideologias, panfletos, contratos, mas a arte tem que ser subversiva, não pode trancar com agendas pentecostais. Fernanda é e será sempre mais do que tudo isso. Mais do que este país de medíocres!

Como ela mesma disse, no seu último texto publicado: “O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas”. E, neste Estado de letargia, o Brasil virou cafona na sua distópica (*daquela da “pica das galáxias”) cafonice! A própria Fernanda parece ter sido dividida em duas partes. Uma que seria os rascunhos ‘scaneados’, e a outra com os poemas reescritos, para melhor leitura. O seu diferencial sempre foi o seu jeito inacabado de ser. Os rascunhos trazem junto os desenhos de uma urgência que todo apaixonado já sentiu e uma sensação de mistério que todo diário pessoal constrói.

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Tenho medo da morte e, hoje, além do medo, tenho raiva, medo de se perder uma grande mulher, sua rebeldia, transgressão, sua pouca paciência pra burrice, pra anacronismos ou qualquer obediência. Sacanagem da porra, morrer de asma. Poderia encarar outras pessoas que fazem a vida ser pouco menos delinquente. Um dia antes de sua morte, com apenas 49 anos, Fernanda Young publicou um desabafo em seu perfil no Instagram. No fim do texto, ela disse: “Sou uma mulher de 50 anos que sonhou alto e realizou muito”, e afirmou, por fim, que estava longe de encerrar sua “jornada nessa orbe”. Mas, agora, estou ouvindo a Fernanda chegando e disparando em alto e bom som e tendo que se submeter a sua passagem. Fada sensata. Triste que ela tenha partido vendo o Brasil desmoronado.

Mas, depois de tudo, a ficha parece que ainda não caiu. Eu, que fiquei tão emocionado no dia em que a conheci, uma mulher tão moderna, tatuada, inteligente e cheia de vida. A gente nem se falou direito, mas o fato de vê-la ali, saber que você era real, suscitava em mim a admiração necessária pra ter um modelo a seguir, quase como uma mãe-amante-amiga-das-letras. Eu bem desejei ser tudo isso em alguma realidade paralela. Que sonho ter uma amiga escritora, subversiva e maternal. Você era isso tudo, e acho que quem fazia parte do teu círculo íntimo poderia confirmar e dizer ainda mais coisas incríveis sobre você. Estou arrasado, Fernanda, como a Fernanda Feeling de “Clandestinos”, mas a ficha ainda não caiu por completo. Agora vai você, aos 49… pois Agosto continua sendo o mês das minhas perdas profundas, dolorosas, irreparáveis. É muito difícil comemorar aniversários quando a prévia deles é perder pra sempre pessoas que de alguma forma davam sentido à sua vida. Mas eu aprendi que palavras não devem ser guardadas.

Fernanda e Rita
Fernanda e Rita

Fernanda Young fez última aparição pública em julho no lançamento de livro da Rita Lee. A escritora foi com quatro filhos prestigiar amiga; Fernanda morreu no dia 25/08, em Minas Gerais.

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