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Literatura: entrevista com a escritora Telma Brites Alves

Telma Brites Alves
Telma Brites Alves

“Eu me sinto vitoriosa e orgulhosa de mim mesma, pois corri atrás dos meus sonhos, e o que para muitos parecia apenas um capricho, ou passa tempo, se tornou em uma maravilhosa realidade, onde escrevi três livros em três anos.” (T.B.A.)

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

Escritora de uma obra de fantasia romanceada, que tem como pano de fundo a história e personagens da mitologia grega, a baiana super simpática Telma Brites Alves – que passou a infância entre Cafarnaum e o Morro do Chapéu, mas que já mora a mais de 30 anos na Alemanha, na adolescência gostava de ler Kafka, Simone de Beauvoir e Sartre, e terminou se formando em Ciências Sociais, pela UFBA. Com pouco mais de 20 anos, foi morar na Guiana Francesa, onde foi professora autodidata de português para estrangeiros. Após nove anos mudou-se para a França e conseguiu a titularidade CAPES – Certificat d’Aptitude au Professorat de l’Enseignement du Segund degré para lecionar língua portuguesa até o segundo grau. Depois de seis anos resolveu ir para a Alemanha, onde foi modelo e atriz.

Em 2017, a autora lançou “Gaia – A Roda da Vida”, em plena Bienal do RJ, e, também na Alemanha. Agora retorna ao Brasil para lançar a continuação da história, “Gaia – O Templo Esquecido”, que demandou de quase um ano de pesquisa, sobretudo sobre os deuses mitológicos e tudo que envolve os mitos gregos antigos e seus significados – ambos da editora Futurama. Telma criou uma enigmática história, onde a realidade se mistura com o imaginário, tendo como personagem principal Gaia, que é colocada à prova de todos os seus ideais, cuja sobrevivência depende da crença e da aceitação do designo a que está predestinada.

De passagem por Salvador, a autora organizou uma sessão de autógrafos na Livraria Leitura, do Shopping Bela Vista, em seguida participou da 19ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Atualmente, casada e com três filhos, ainda mora na Alemanha, em Sechtem, onde trabalha ensinando português e dedica seu tempo para cuidar da família e realizar seu sonho de ser escritora. Nesta entrevista, a autora fala um pouco sobrea presença feminina na literatura, sobre seus livros, sobre a sua ponte Brasil-Alemanha e muito mais.

EN – Seus livros são para os apaixonados por literatura fantástica, mas sabemos que a trajetória de um escritor(a) desse gênero não é “explosiva” da noite pro dia, sempre é digna de muito esforço, estudos, leituras e do apoio de grupos jovem nerds nas redes, gostaria que a senhora dissesse como chegou a esse gênero (a literatura fantástica).

Telma Brites Alves – Eu sou uma fã incondicional da literatura fantástica. Acho que a nossa realidade já é tão crua que sinto na fantasia dos livros um refúgio que me desprende deste contexto e me leva para o mundo encantado do imaginário, onde com um simples bater de olhos mudamos o indesejado.

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EN – Publicar um livro atualmente no Brasil é algo muito difícil, não apenas pela questão financeira, mas também porque existem mais livros do que as pessoas costumam ler no mercado, então as editoras costumam fazer um filtro para saber “quem vende e quem não vende”, gostaria que a senhora nos contasse um pouco de como foi o seu processo de publicação e quais dicas daria para quem quer publicar um livro hoje em dia.

Telma Brites Alves – Quando terminei de escrever o meu primeiro, consciente da dificuldade de encontrar um editor, enquanto autor desconhecido publicando primeiro livro e da impaciência de ver o meu sonho realizado o mais rápido possível, decidi assumir tudo sozinha e lançar como autora independente. Sem nenhuma experiência de edição, fui procurando na internet como se fazia um livro. Tive sorte por encontrar uma revisora, Bárbara Parente e um diagramador, Denis Lenzi, que me ajudaram, em todos os sentidos, para que o meu livro chegasse até a fase final. Publicar independente tem suas vantagens e desvantagens. Eu pessoalmente gosto. Mas, diga-se de passagem, é um processo custoso e não muito fácil. O processo mais frequente é o das parcerias com as editoras. O autor paga para uma editora publicar seu livro. Outra opção seria depois de passar por um bom revisador, enviar para a editoras, só aquelas que publicam o gênero literário específico ao livro e esperar por uma eventual resposta…

Telma Brites Alves
Telma Brites Alves

EN – Atualmente, a cultura nerd se popularizou e existem várias vertentes que se consideram nerds também como, por exemplo, geeks e gamers. Para a senhora, o que é ser nerd num país tão segregado como o Brasil?

Telma Brites Alves – Esta é uma pergunta difícil de responder, pois infelizmente com os meus anos de Europa estou um pouco distante da realidade do país. Mas penso que em qualquer sociedade atualmente, ser nerd é um comportamento que espelha o próprio sistema em que vivemos.

AC – As escritoras, às vezes, são taxadas de serem intimistas demais, fantasiosas demais, emocionais demais, o que a senhora acha dessa reflexão?

Telma Brites Alves – Eu penso que há escritoras e escritores que, às vezes, extrapolam suas emoções; assim, não considero como um estado único do sexo feminino.  Por exemplo, gosto muito da escrita do autor francês, Gilles Legardinier, no livro Demain Jàrrête!, com uma narrativa cheia de qualidades ditas “típicas” das mulheres, no entanto, escrita por um homem. Desta forma recuso a aceitar esta ideia como algo específico do nosso sexo.

AC – Gaia, filha de uma família abastada tem um hiato, a morte de sua mãe, de seu pai. E esse pretexto é o essencial que move essa personagem?

Telma Brites Alves – Não, ao contrário. A morte rodeou a personagem desde cedo, no entanto, estas perdas a motivaram e acordou nela a necessidade de buscar a vida. De lutar para sobreviver, para superar as lembranças e as marcas passadas.

EN – Atualmente com o avanço das redes sociais as mesmas estão sendo utilizadas pelos autores para alcançar um maior público que antes da Era da Internet era mais difícil alcançar, para a senhora, um autor, hoje, precisa ser multimídia?

Telma Brites Alves – Sem sombra de dúvidas. As redes sociais são canais certos de divulgação. Principalmente para os autores que querem atingir a classe jovem, que é o meu caso. Mas, como toda ferramenta, é necessário saber manuseá-la.

AC – A senhora se diz mística, Gaia parece também trazer essas questões bem afloradas, a personagem traz algo da senhora nesse aspecto?

Telma Brites Alves – Os personagens trazem, de um modo geral, muito de mim, não somente no aspecto místico. Eu não saberia escrever se não transportasse a minha essência para os meus personagens.

EN – Como é a vida de uma escritora baiana vivendo na Alemanha? Como a literatura brasileira é recebida por lá ou tudo ainda se resume apenas aos livros do Paulo Coelho?

Telma Brites Alves – Não especificaria a vida de uma baiana, mas a vida de um brasileiro em geral na Alemanha tem altos e baixos. A cultura é muito diferente da do Brasil, alguns se adaptam mais rápido que outros, é verdade, mas cada um tem a sua história de vida. Eu fiz a transição passando pela França primeiro, então o choque cultural não foi tão forte, são também duas culturas bem diferentes, mesmo que vizinhos. Quanto a literatura se resumir a Paulo Coelho, não poderia afirmar 100%. Se olharmos a questão como um todo, diria que sim, mas em certos grupos sociais, esta visão se alarga mais.

AC – Uma baiana de Cafarnaum, cidadã do mundo, a Bahia ainda lhe dá régua e compasso?

Telma Brites Alves – Sempre, caso contrário perderia as minhas raízes, a minha identidade.

AC – O gênero romance parece estar sofrendo de uma patologia da modernidade: interesse pelo rápido, por histórias curtas. A senhora acha que isso seja um desafio para os romancistas?

Telma Brites Alves – Penso que sim, pois devemos nos adaptar sem se distanciar das nossas bases. De uma certa forma o autor está sempre ultrapassando desafios, desde o momento que uma ideia aparece até a conclusão do manuscrito. É isso que faz as nossas histórias ficarem mais interessantes ainda.

EN – Existe um grupo que ainda possui um “pé atrás” com os autores da nova literatura, principalmente nacional, sendo a senhora uma dessas autoras, que já vem conquistando um público, gostaria que nos dissesse um pouco sobre como vê essa nova literatura e como enxerga o público leitor atual, atuando dos dois lados: como autora e leitora.

Telma Brites Alves – A nova literatura, como você diz para mim, existiu sempre. Talvez o fato de ter filhos e de ler quase tudo que eles leem, me apaixonei desde cedo pela fantasia. Para o grupo “pé atrás”, respeito, cada um tem o seu gosto, mas a sociedade evolui tão rápido que se não acompanharmos ficamos para trás com a sensação de ter perdido um capítulo da novela da vida.

AC – Os deuses e a mitologia ainda eram muito presentes na consciência coletiva, parece ainda despertar muito interesse. Como vê isso, qual o grau de importância desse tema para sua narrativa?

Telma Brites Alves – Em praticamente todas as culturas modernas podemos perceber o legado que a mitologia nos deixou, seja através dos esportes, na linguagem cotidiana ou na representação artística marcada por filmes, séries e jogos, tão admirados pelos jovens. Nos meus livros, que é destinado para o juvenil adulto, procuro apresentar a mitologia personalizando os deuses com características e emoções bem próximas às humanas.

EN – O autor de literatura fantástica nacional ainda sofre preconceito? Por quê?

Telma Brites Alves – Não poderia lhe responder esta questão. O fato de morar na Europa há mais de 30 anos, me afasta, de certa forma, da realidade cotidiana. A trilogia Gaia está sendo bem aceita e eu só tenho a agradecer os meus leitores.

Telma Brites Alves
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AC – Antônio Candido diz que literatura só existe se for gerada da ficção do próprio autor. Gaia traz ficções, mas o quanto de sua obra pode ser verossímil?

Telma Brites Alves – Eu concordo completamente com o Antônio Candido. Penso que não importa qual seja o gênero literário, o autor de uma forma direta ou indireta traz um pouco nas suas obras. Gaia anda pelas ruas de Colônia que passo cotidianamente, come comidas que gosto de preparar, visita lugares e passa por caminhos que frequento. Cada personagem, de certa forma tem um pedaço de mim, das minhas lembranças de criança, de sentimentos guardados no inconsciente que vieram pouco a pouco a superfície.

EN – A publicação de contos em antologias é, muitas vezes, o primeiro passo de muitos autores. Como a senhora se sente fazendo parte do sonho de muitos escritores iniciantes?

Telma Brites Alves – Ainda não consegui participar de uma antologia, mas acho uma ferramenta muito interessante para autores e principalmente os iniciantes que ainda não tiveram condições de lançar um livro independente, mostrar o seu trabalho. Eu me sinto vitoriosa e orgulhosa de mim mesma, pois corri atrás dos meus sonhos, e o que para muitos parecia apenas um capricho, ou passa tempo, se tornou em uma maravilhosa realidade, onde escrevi três livros em três anos.

AC – A morte rodeia Gaia, talvez seja essa a contenção ou motivação da protagonista. Como a morte norteia a vida dela?

Telma Brites Alves – A morte na vida de Gaia é o motor para lhe trazer a vida. Foi a partir das perdas de pessoas amadas que Gaia conseguiu sair do casulo em que se encontrava. Ela teve que se confrontar com estes sentimentos para poder aprender a se defender e crescer. Não quero dizer que só crescemos e evoluímos pelo sofrimento, longe disso, mas no caso de Gaia foi necessário.

EN – Os vlogueiros e blogueiros literários têm colaborado para o incentivo à leitura e recomendação de livros internacionais e promoção da literatura nacional. Como a senhora avalia a questão dos vlogs literários no Brasil e na Alemanha?

Telma Brites Alves – Eu só tenho a agradecer aos meus parceiros literários do Instagram, Youtube, Facebook. Graças a eles Gaia começou a ter uma certa visualização nestas redes. O nível varia, do iniciante com poucos seguidores com os já que interagem profissionalmente, mas tem gente fazendo um trabalho muito bom neste campo.

AN – Poseidon é o deus, Gaia terrena. É essa relação mítica que sustenta Gaia que dá o tom profético de seu enredo?

Telma Brites Alves – Gaia é a última descendente de uma linhagem que começa a partir da relação com Larissa a “única” amante humana de Poseidon e Gaia, a mãe terra é a primeira; a que dá origem aos deuses. Uma começou e a outra pode ser aquela que dará o fim se não ouvir seu coração e aceitar os desígnios que o universo colocou em suas mãos.

EN – O autor brasileiro, além de escrever bem, precisa estar atualizado sobre as diversas ferramentas de publicação e interação com leitores que não param de aumentar. Como o marketing digital tem contribuído para a divulgação de seus livros?

Telma Brites Alves – Como já disse foi graças a mídia, às parcerias no Instagram, as postagens nos diversos grupos do face, que Gaia conseguiu sair em pouco tempo do anonimato. Tem muito caminho a andar, mas já não anda invisível.

AN – Vivemos num tempo de hiper-realidade, de uma mudança com relação tempo e espaço. As obras fantásticas têm espaço para os leitores da agilidade pós-moderna?

Telma Brites Alves – Acho que tanto a fantasia literária como a ficção científica estão completamente enquadrados e adaptados nesse processo evolutivo em que nos encontramos.

EN – Deixe suas considerações finais para aqueles que são apaixonados por literatura fantástica e desejam viver sendo escritores ou escritoras.

Telma Brites Alves – O caminho é árduo e a semente leva muito tempo para germinar, algumas morrem antes de nascer, outras nascem, mas não vingam e outras conseguem florir e dar seus frutos. Seja um jardineiro que não tenha medo de adubar a terra, plantar e regar a sementinha cotidianamente com paciência, delicadeza, persistência.

Telma Brites Alves
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Telma Brites Alves com os seus dois livros, “Gaia – A Roda da Vida” e “Gaia – O Templo Esquecido”.

Contato: @telma_brites

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