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Literatura: A vergonhosa (e absurda) censura na Bienal do Livro do Rio

Bienal - Garota segura livro doado por Felipe Neto
Bienal – Garota segura livro doado por Felipe Neto

O abuso de autoridade, hipocrisia e mentira do Crivella expressam o que ele e seus iguais pensam: que ser gay, em si, é perversão, independente do que um humano gay faça. É triste saber que, numa era onde tanto conhecimento de biologia, história e ciência está disponível, ainda existam mentes desinformadas e violentas de várias maneiras.”

Por Elenilson Nascimento

Minha vida como escritor nunca dependeu muito de bienais e feiras literárias, mas sei da importância de eventos assim. Desde 2000, participo de antologias, publico meus livros de forma independente e sei que ainda tenho muito caminho para percorrer, mas também sei que já tenho leitores fiéis. Na minha primeira bienal, em 2005, ninguém vinha falar comigo. Quer dizer, falavam, sim, mas era para perguntar o preço das coisas, onde estava o Ziraldo, onde era o banheiro, onde era o Bob’s (risos). Eu me lembro de subir na cadeira e colocar uma peruca rosa, tudo para ver se chamava a atenção. É muito bom olhar para trás e ver que antes eu caçava os leitores, e hoje eu chego e tem sempre uma filinha ficando tão grande que nem acredito, mesmo depois de tantos anos escrevendo.

E para quem, neste ano, já vinha participando de feiras literárias pelo Brasil inteiro, como a “Fligê – Feira Literária de Mucugê”, “Flipelô – Feira Literária do Pelourinho”, “Flip – Feira Literária de Paraty” e a “Flib – Feira Literária da Baixada”, ter vivenciado a absurda censura imposta na “Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro” foi como se eu tivesse regressado aos tristes e violentos anos 60, com o militares com o apoio da Igreja Católica tentando calar a boca de artistas e de cidadãos comuns. Parece que hoje, especificamente, os escritores viraram uma espécie de gigolôs da sua própria arte, aliás, como tudo neste país cobra-se um preço pagável ou não, e isso é indecente.

Quem estudou um pouco de História do Brasil na escola sabe bem o quanto o tempo de ditadura foi deprimente e como a maioria das pessoas tem pavor desse período voltar, mesmo que hoje muitos simpatizantes do nosso raso presidente da República estejam afirmando que tudo isso não foi bem assim. Nesta época, a censura rolava solta: os políticos, especialmente o presidente da época, simplesmente proibiram os jornais e revistas de abordarem certos assuntos, da mesma forma que livros foram tirados de circulação e/ou queimados em praças (vide Jorge Amado), artistas foram presos e cidadãos comuns foram mortos, mas as artes usadas como forma de protesto, não apenas como diversão. Muito tempo se passou, mas eu sinto muito em dizer que alguns reflexos de tudo que rolou no passado ainda estão afetando todos nós: exemplo disto foi que, como todos devem ter acompanhado, no último dia 07/09, em plena bienal do Rio, grupos de fiscais foram enviados pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, com o intuito de tirar livros com a temática LGBTQI+ dos estandes – afirmando que se tratava de “conteúdo impróprio”. Sim, é isto mesmo que você está lendo.

Leitor com livro censurado - Bienal do Livro do Rio
Leitor com livro censurado

O problema começou com um inocente beijo gay entre dois personagens masculinos na HQ “Vingadores: A Cruzada das Crianças”. O motivo? Na opinião do prefeito, uma criatura tosca, cheia de preconceitos e clichês, que usa a religião como arma ideológica – como publicado por ele mesmo, em suas redes sociais – “o livro tem conteúdo impróprio para menores”. Por outro lado, a bienal não só continuou deixando os livros à disposição para compra, como afirmou que ela continuaria dando “voz a todos os públicos”. Na manhã seguinte, todos os exemplares da HQ censurada já estavam esgotados. Não satisfeito com a reação de “insubordinação” por parte da direção da bienal, Crivella decidiu mandar um grupo de fiscais e policiais armados para o evento, com o intuito de retirar todos os livros considerados “impróprios” de circulação. A prefeitura da cidade mandou ainda uma notificação extrajudicial para os organizadores do evento para que os livros fossem lacrados e viessem com uma classificação indicativa ou aviso de que há material ou cenas proibidas para menores de idade. No entanto, a organização afirmou, em nota, que não iria recolher nem embalar livro algum, “pois o conteúdo não é impróprio e nem pornográfico”.

Neste meio tempo, vocês não sabem o prazer (quase sexual – viu Crivella!) de poder ter visto de perto o meu muso Laurentino Gomes. Queria tanto que ele autografasse o livro “Escravidão”, mas foi tanta confusão na hora que nem deu para chegar perto dele. “Voltamos à idade das trevas”, disse Laurentino sobre a censura na bienal. O escritor de alguns dos maiores clássicos da literatura brasileira, como “1808”, “1822” e “1889”, criticou a decisão do patético Crivella. Mas para o premiado e festejado autor a bienal deste ano foi “um símbolo dos desafios que o Brasil enfrenta atualmente”. Como ele mesmo descreveu: “De um lado uma celebração do mundo dos livros – foi a melhor bienal de muitos e muitos anos; quatro milhões de exemplares vendidos; mais de 600 mil visitantes em pouco mais de uma semana; temas importantíssimos relacionados à diversidade foram discutidos em diversas mesas, com autores importantes; e, ao mesmo tempo, uma tentativa absurda e escancarada de limitar a liberdade de expressão literária e criatividade dos escritores e também de escolha dos leitores”. Ainda segundo ele: “Foi uma demonstração bastante preocupante de certo fundamentalismo religioso existente hoje no Brasil, em diversos governos, estadual, federal, prefeituras, e que tenta controlar as liberdades de escolhas das pessoas com base de princípios morais, valores da família, numa coisa muito conservadora e muito repressora”. E continuou: “Então, eu acho que foi importante a manifestação que nós fizemos lá no final da bienal. Nós, os escritores, editores, distribuidores, os organizadores do evento porque nós vamos resistir a isso, pois o Brasil da democracia não aceita a volta da censura, a volta da repressão e a volta de quem lhe imponha o que deve ou não deve ser lido. O mundo dos livros é sinônimo da liberdade e isso tem que ser preservado”.

Laurentino Gomes - Bienal do Livro do Rio
Laurentino Gomes

“Foi um dos momentos mais bonitos que vi na minha vida. O Brasil aqui dentro da bienal reagiu imediatamente à tentativa de censura”, disse o escritor Laurentino Gomes sobre as manifestações ocorridas no sábado, 07/09.

Mas, para alívio geral, a Seop divulgou que “não encontrou material em desacordo às normas do Estatuto da Criança e do Adolescente”. Um representante da bienal, por outro lado, afirmou que iria recorrer à Justiça para “garantir o pleno funcionamento do evento e o direito de os expositores comercializar obras literárias sobre as mais diversas temáticas – como prevê a legislação brasileira”.  Já para a escritora Anna Carvalho tudo isso não passou de uma “aberração política nesse país de extremismo raso e pouco delinquente”: “Não acho que político (ou cargo público) deva fazer de seu lugar social, um lugar subjetivo. Maquiavel em ‘O Príncipe’ constituiu o que eram os políticos, aliás cada país tem os políticos que merece, os meios justificam os fins, assim esse país produziu um vale de lama”. E complementou: “Odeio militância, odeio minorias sob o cajado de lideranças que fazem de sua hipocrisia, o cárcere de gente que se acha livre. Liberdade não existe se houver caciques. E o Brasil saiu de uma histéria política estimada, com uma aberração proselitista que colocou minorias em seus lugares de servidão bovina e agora outro poder coloca a sua vocação religiosa a serviço de suas crenças pessoais”.

E num país de escassos leitores, ainda acho que poderia haver maior apoio aos livros e a leitura, mesmo sabendo que isso ainda não fizesse cócegas na audiência. Temos inúmeros exemplos do poder da televisão em alterar costumes. Imagino o impacto que isso causaria ao falar mais sobre os livros em uma rede de televisão. Poderíamos ter outra realidade, com mais leitores pelo país, por exemplo. Enquanto o assunto livro na TV e no rádio é praticamente inexistente, na internet sobra discussão por meio de blogs, comunidades nas redes e vídeos produzidos por leitores e amantes dos livros. Mas gestores públicos fanáticos e despreparados preferem vomitar seus preconceitos, sandíces e arrogância, dando cem passos rumo ao atraso e ignorância. Para o ator e diretor de teatro Lelo Filho, por exemplo, que também se manifestou com indignação referente à censura sofrida pela bienal do Rio: “Quando a ditadura se instalou no país eu tinha menos de 2 anos de idade. Sei, portanto, dos efeitos de um regime duro sobre o ensino e as artes. Conheci o medo vivenciado por quem pensasse diferente, até que a democracia, após muita luta, ressurgisse em nossas vidas. No entanto, as tentativas de censura, nesses últimos tempos, sinalizam o desejo de alguns em impor, de novo, o que devemos ler, ver, consumir como arte e cultura, seja recolhendo apostilas nas escolas de São Paulo ou tentando proibir um livro por causa de um desenho específico, na bienal do Rio”. E concluiu: “Nos dois casos, os absurdos foram derrotados pela Justiça e só por conta da, duramente conquistada, democracia e o respeito à nossa Constituição. Não acredito que haja outro caminho de civilidade e respeito às diferenças de ideias que não seja esse”, finalizou o pai da Fanta Maria, de “A Bofetada” .

Livros Censurados - Bienal do Livro do Rio
Livros Censurados

Estante de livros censurados na bienal pelo prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella.

Contudo, mesmo com o clima de indignação e medo que tomou conta da bienal, nos últimos dias, muita coisa bacana aconteceu. O painel lindo de cerca de 210m² no Pavilhão de Artes em homenagem ao Maurício de Souza, estampando vários personagens da Turma da Mônica e utilizando técnicas de lambe-lambe (com uma intervenção em estêncil da artista urbana Simone Siss), foi uma das coisas que mais atraiu o público presente para as famosas selfies. E, em uma ação chamada de “Embarque na Leitura”, uma parceria entre o MetrôRio e a Bienal do Livro, foram distribuídos livros nos assentos dos vagões do metrô. Logo nos primeiros dias, participei do “Encontro de Booktubers”. Para quem ainda pensa no youtuber como sinônimo de uma pessoa inexperiente falando – ou gritando – sobre trivialidades, moda, celebridades ou tentando fazer humor, não navegou o suficiente pelo site de vídeos, onde a literatura também tem seu espaço. Há alguns anos, usuários de variados perfis vêm criando canais para falar sobre aquilo que mais amam: os livros. São os chamados “booktubers”, tendência também no exterior, conforme destacou recentemente o diário The New York Times, em reportagem sobre a Vidcon, conferência de produtores de vídeo on-line realizada na Califórnia. E nessa bienal, os “booktubers” ampliaram cada vez mais seu nicho, embora seu alcance ainda seja tímido, se comparado ao das web celebridades. “O booktuber está aí há um tempo, mas somos um dos poucos canais que também dá aula de literatura. A gente entendeu que muita gente deixava a literatura de lado na hora de estudar, por achá-la um bicho de sete cabeças. Nosso objetivo é desmistificar isso, facilitar e mostrar que é possível ter tempo para a leitura”, acabei afirmando em uma matéria para um dos muitos jornais cariocas que estavam cobrindo o evento.

O beijo - Bienal do Livro do Rio
O beijo

Apoiamos todos os escritores, editoras e aqueles que trabalham com literatura que resistem todos os dias a esses ataques. Dito isso, seremos poesia até o fim!

PAUTA ACEITA NA BAND – Aproveitando a mídia abrindo espaço para falar de livros, no dia 31/08, sugeri uma pauta para um colega jornalista do Jornal da Band. E, ao contrário da imprensa medíocre de Salvador, mergulhada no seu mar de arrogância, no mesmo dia foi colocada no ar. Fizeram uma matéria sobre as dificuldades dos escritores brasileiros divulgarem seus livros em bienais e feiras de livros importantes no Brasil. E a Band ainda puxou um gancho de fazer um encontro bacana com alguns de nós escritores com o Maurício de Souza e o Ziraldo. “É hora de prestigiar os escritores nacionais. Um apelo: quem for na Bienal do Rio, por favor, valorizem os escritores nacionais. A gente valoriza tanto o que é de fora e tem tanta gente dando o sangue pela arte nesse país. Vamos valorizar os nossos!”, disse o repórter.

A sempre elegante escritora Thalita Rebouças também marcou presença e fez muito sucesso entre o público teen. A bienal homenageou a escritora Ana Maria Machado no Espaço Café Literário, onde a escritora participou de uma mesa com Marcos Pereira, presidente do SNEL, conversando sobre os seus 50 anos de carreira. Uma simpatia essa senhora! A atriz Cissa Guimarães e Bráulio Bessa, o poeta que ficou famoso no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Globo, falaram um pouco de poesia e censura nas artes na Arena Sem Filtro. Muitos cosplay se misturaram entre os visitantes, mas nenhum deles fez mais sucesso do que as meninas vestidas de Aias, personagens do famoso livro/série de TV “O Conta da Aia”, de Margaret Atwood.

AIA
AIA

Muito feliz por ter encontrado uma Aia na bienal… “Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes” – trecho de “O Conto de Aia”, de Margaret Atwood.

O objetivo principal da bienal é sempre fazer uma integração entre o público, autores e editoras, fomentando a leitura, o intercâmbio de ideias e o mercado editorial no país. Além, é claro, de presentear leitores de diferentes gostos com livros a preços acessíveis (ou nem tanto) e encontros com seus autores preferidos. Mas a 19ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro que ocorreu entre os dias 30/08 até 08/09, no centro de exposições do Riocentro, Zona Oeste da cidade, foi muito além disso. As fotinhas da bienal espalhadas nas redes expressam perfeitamente o que eventos assim são pra mim: um turbilhão de histórias. Não só dos livros, mas de todas as pessoas por trás dos livros. Os autores, os editores, capistas, tradutores, revisores, marketing, vendedores, leitores, produtores e, claro, os blogueiros. Eu conheci pessoas que eu só falava pela internet, reencontrei outras tantas que só vejo nesses eventos. Vi autores que admiro, profissionais que trabalham arduamente nos bastidores para levar literatura para as pessoas. Além de muitos influenciadores que ralam todos os dias para levar conteúdo de qualidade para aqueles que os admiram e os seguem. Bienal é isso. Um mega encontro de pessoas que tem como alegria comum o amor pelos livros. E quem ama ler sabe a felicidade que é ter um livro autografado, né? E a bienal no Rio foi o lugar ideal para você conseguir aquela tão sonhada dedicatória!

Participei também do relançamento do meu livro “Memórias de um Herege Compulsivo”, além de debates e mesas de autógrafos na Arena Sem Filtro. Fui tema de uma matéria exclusiva na coluna Extra Vip, do queridon Alberto Aquino: “As roupas são feitas de hipocrisia e ignorância. E eu sempre quero… Eu sempre quis me despir de tudo”, disse orgulhoso. E enquanto o assunto livro na TV e no rádio é praticamente inexistente, na internet sobra discussão por meio de blogs, comunidades nas redes e vídeos produzidos por leitores e amantes dos livros. E qual a diferença entre queimar livros como fizeram os nazistas na Alemanha, os fascistas na Itália, os franquistas na Espanha, as ditaduras na América Latina… e recolher obras que desagradam o tosco prefeito do Rio? Só queria também exaltar aqui a mesa linda na Arena Sem Filtro, da bienal, com os autores Conceição Evaristo, Fabricio Carpinejar, Ryane Leão, Eli Alves Cruz e Geovani Martins que inspiram reverenciando tantos outros que os inspiraram e assim segue o ciclo. ♥

E de todas as surpresas nesta bienal, poder ter tido novamente a oportunidade de encontrar a Conceição Evaristo foi um momento lindo. Conceição já havia terminado o momento de autógrafos e estava atrasadíssima para sua próxima atividade, só poderia tirar uma foto, mas delicadamente disse: “Eu posso subverter a ordem, eu quero fazer uma pequena dedicatória/autógrafo para eles” e assim o fez. Sempre educada, como esperávamos! Já tive a honra de conhecer a maravilhosa Conceição Evaristo em outras oportunidades e reafirmo aqui: ela é uma das melhores escritoras que temos! Suas palavras ecoaram por muito tempo em minha cabeça e no meu coração… e, agora, mais do que nunca! Conceição constrói textos através do conceito da “escrevivência”, escrita baseada nas experiências cotidianas, principalmente da mulher negra. “Nossa escrevivência não é para adormecer os da Casa Grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”. Resistamos!

Arena sem filtro
Arena sem filtro

Conceição Evaristo, Carpinejar, Ryane Leão, Eli Alves Cruz e Geovani Martins falando que nenhum tipo de censura é aceitável!

HIPOCRISIA – Cenas de violência, sexo (Hétero) e nudez ou seminudez feminina, drogas e linguagem imprópria fazem parte dos quadrinhos e filmes de super-heróis desde sempre e nunca foram um problema. Um beijo gay (sem nudez ou algo mais explícito) movimenta o judiciário e o executivo, sob o pretexto de proteção à criança e ao adolescente… Em pleno 2019, uma ação assim é muita saudade da ditadura. Mas, felizmente, essa também foi a bienal da indignação, da resistência e da resposta imediata por parte de todos os autores, organizadores, livreiros, editores, ledores e visitantes. Eu estava presente no momento, e foi bonito de ver a união de todos para protestar contra esses absurdos criminosos fundamentalistas babacas!

Meus livros não têm protagonistas LGBTQI+ (ainda), mas eu sempre coloco personagens para representar esse espectro nas minhas histórias (em “Clandestinos”, por exemplo, temos a Paulette Pink, ou o próprio Frederico – que não tem grilos em se relacionar com meninos ou meninas), não porque eu queira ser “o desconstruído” ou porque queira polemizar (e nem sei porque esse assunto ainda é tratado como polêmico), mas porque essas pessoas EXISTEM e não colocá-las em um livro seria como negar a existência do sol em uma manhã brasileira. E sempre seremos todos livres para nos apaixonar, nos empoderar e nos rebelar sempre que preciso!

Essa pode ter sido a bienal da censura. A bienal em que o preconceito deixou de ter vergonha e se escancarou pelos corredores dos três pavilhões. A bienal em que um prefeito tosco e fundamentalista achou que estava no direito de recolher livros que, teoricamente, considerava “impróprios para crianças”. E você acha que o conteúdo proibido nos livros eram a violência ou a pornografia? Não. Afinal, esses são os conteúdos que a “família tradicional brasileira” aplaude. Os livros censurados eram apenas sobre amor! Além disso tudo, os cantores Elza Soares e Martinho da Vila, além do jornalista Zeca Camargo aproveitaram para debater com o público sobre o tema, em uma mesa no Espaço Café Literário. Cerca de mais de 400 pessoas lotaram o evento, e muitos fãs ficaram de fora. Martinho disse que não é de falar muito: “Minha preocupação maior é a arte, é criar, não combater. Não assobiar e chupar cana ao mesmo tempo”, disse. Enquanto Elza largou: “Eu chupei muito cana”, engatou, ganhando o público. “E eu falo sem parar, combato mesmo. Sou faladeira.” Zeca Camargo mediou o debate, mas não se furtou a revelar curiosidades de como foi fazer a biografia da artista: “Elza tinha tudo para dar errado. Mulher, negra e cantora naquela época, sofreu todos os preconceitos. Cantava escondida dos pais. E não esqueceu de nada”, disse o jornalista.

Elza e Martinho
Elza e Martinho

Elza Soares, Martinho da Vila e Zeca Camargo debatendo com o público da Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

A CENSURA – Aí veio a história bizarra do Crivella e a censura a uma HQ com um beijo gay. “Vingadores: A Cruzada das Crianças” é o 66º volume da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, lançado no Brasil em 2016 pela Editorial Salvat em parceria com a Panini Comics. A série republica gibis em formato de luxo, com capa dura. Na história, que envolve dezenas de heróis da Marvel, dois membros dos Jovens Vingadores, Wiccano e Hulkling, são namorados. Eles aparecem se beijando em um painel de uma edição escrita pelo americano Allan Heinberg e ilustrada pelo britânico Jim Cheung. A história foi publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012, chegando ao Brasil, ainda em edições mensais, em 2012. Aí vem o prefeito-crente-hipócrita-fiscal-do-cu-dos-outros e decide PROIBIR um livro, por causa do “conteúdo sexual” que, segundo ele, fere a moral e os bons costumes cristãos. Mas, felizmente, os organizadores da bienal não se intimidaram e deixaram bem claro que todos são bem vindos a feira, sem distinção e que toda a diversidade deve ser representada.

Quantos livros com beijos entre Hétero existem? Quem, assim como eu, leu “Cantares” de Salomão quando criança? O abuso de autoridade, hipocrisia e mentira do Crivella expressam o que ele e seus iguais pensam: que ser gay, em si, é perversão, independente do que um humano gay faça. É triste saber que, numa era onde tanto conhecimento de biologia, história e ciência está disponível, ainda existam mentes desinformadas e violentas de várias maneiras. Para o talentoso Maurício Gomyde (ainda não tenho o autógrafo dele), autor do recém lançado “Todo o Tempo do Mundo”, o episódio de censura ao HQ com uma cena LGBTQ+, em pleno 2019, foi lamentável: “Ainda que não surpreendente, vindo de quem veio. O mais importante foi a rápida e contundente reação, tanto da organização da Bienal, dos autores e leitores, quanto da imprensa em geral”, disse. E ainda complementou: “Fundamental que se tenha mostrado que haverá gritaria, caso qualquer tipo de censura seja tentada” – disse Gomyde.

O escritor e diretor de novelas Walcyr Carrasco foi um dos autores mais assediados durante a Bienal.

Carrasco
Carrasco

O EFEITO DA CENSURA – E qual foi o efeito Crivella? Prateleiras vazias após vender todos os exemplares do meu livro “Memórias de um Herege Compulsivo”, e de todos os autores censurados na bienal. E, segundo fui informado, o meu livro entrou na lista dos proibidões por causa da palavra “herege” no título. Só por isso? Será que eles leram alguma coisa do conteúdo? Duvido muito! O rico e disposto comprador de todos os exemplares foi, como todo mundo já sabe, o famosão e desaforado youtuber Felipe Neto. O cara também resolveu protestar contra a tentativa de censura imposta pela anta, digo, prefeito da cidade do Rio: comprou e distribuiu gratuitamente no último sábado, 07/09, dia da Independência do Brasil, dentro da bienal, 10 mil exemplares das obras censuradas, com supostas relações homoafetivas, qualquer conteúdo que fere a família brasileira ou que tratam da questão de gênero. Muita gente criticou a ação do Neto, alegando que ele podia ter doado esse dinheiro aos pobres. Mas o tosco do Crivella também poderia ter prestado mais atenção nos pobres e não em assuntos que dizem respeito a liberdade dos outros…

Esta pode ter sido a bienal da censura. A bienal em que o preconceito deixou de ter vergonha e se escancarou pelos corredores dos três pavilhões. A bienal em que um prefeito tosco e fundamentalista achou que estava no direito de recolher livros que, teoricamente, considerava “impróprios para crianças”. E você acha que o conteúdo proibido nos livros eram a violência ou a pornografia? Não. Afinal, esses são os conteúdos que a “família tradicional brasileira” aplaude. Os livros censurados eram apenas sobre amor! A escritora Anna Carvalho foi bem pontual: “Não funcionou como index, como não funcionou sob o algoz de um politicamente correto que enclausurou os isentões também hipócritas. Hipocrisia está a direita ou esquerda… e o caminho do meio hoje seria a alternativa. Meu livro em coautora com Elenilson jamais será cativo de direções, isentões, direita, esquerda, quaisquer calhordas, cafonas que queiram lavrar atitude como se descolados fossem . Então, quanto mais perseguida a literatura, mas ela se rebela e tem que ser alinhada à função expressiva: não serve a deuses a não ser os deuses (des)sagrados de todos os ritos, raspas ou restos. Liberdade, hoje, é lenda”.

Youtubers
Youtubers

O youtuber e escritor Pedro Henrique Mendes Castilho e o delicioso – ups, desculpa Crivella!!! – Vinícius Grossos (*que até falava comigo e, de repente, virou uma celebridade das livrarias) no debate da Arena Sem Filtro, na bienal.

FAKE NEWS E ANA MARIA BRAGA – Quando me perguntam qual o principal benefício da leitura, eu não tenho dúvidas na hora de responder: com os livros eu consigo me colocar no lugar do outro; enxergar problemas e situações a partir da perspectiva de alguém que vive em circunstâncias completamente diferentes das minhas. Aprendo a respeitar o diferente, ser mais empático e ter mais compaixão. E a bienal também discutiu as fake News e o conceito de felicidade. “A censura é um ato de violência simbólica. E não me venha político nenhum tratar disso sob crivo exuberante do seu ser graco crasso. O Brasil é um poleiro governado por analfabetos políticos, depois de uma certa dinastia que fez um mal terrível a algumas causas, aliás, causas, minorias, não são espólios de ninguém. Sou minoria e não quero ser taxada também de esquerdista”, disse a escritora Anna Carvalho.

E quem também marcou presença foi a apresentadora Ana Maria Braga, que aproveitou para relançar o seu livro “À Espera dos Filhos da Luz”, lançado há 10 anos, e ainda prometeu nova obra para 2020. Não gosto nem um pouco do programa cheio de clichês (com aquelas receitas com ingredientes que ninguém nunca encontra) que a Ana comanda todas as manhãs na Globo, mas admiro muito a trajetória de vida dessa mulher. E o seu livro, que eu já tinha lido, tem belas mensagens de despertar e mostra também para o leitor que pequenas e boas atitudes podem mudar o mundo. “Estou relançando os ‘Filhos da Luz’, mas é uma história tão atual, de tempo mesmo. Achei por bem a gente relançar com uma nova capa, nova roupagem”, contou ela.

Filósofos
Filósofos

Os filósofos Luiz Felipe Pondé participaram de um debate maravilhoso na Arena Sem Filtro com o colega igualmente sensacional Mario Sergio Cortella. Foi show!

VERGONHA – Para justificar censura do prefeito Crivella à bienal, alguns babacas (na sua maioria crentes – olhem os perfis) andam espalhando boatos com imagens de um livro lançado em Portugal e que a prefeitura do Rio, burra como sempre, não pesquisou nada e usou essa “prova falsa” para recorrer contra a decisão do STF, que proibiu a censura no evento. Esta imagem que eles alegaram ter sido tirada da bienal é na verdade do livro “As Gêmeas Marotas”, editado 2012. O livro em questão nunca foi vendido na bienal, não está em português do Brasil, não é destinado ao público infanto-juvenil e inclusive na imagem anexada ao pedido está com plaquinha de preço em euro. É muito importante se revoltar e falar sobre, mas vamos tomar cuidado para não cairmos em um pânico coletivo e entender o que está rolando antes de entrar em desespero. a situação é absurda então agora mais do que nunca é importante buscar infos corretas.

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Por outro lado, na tentativa do prefeito Crivella de retirar da bienal a HQ por conter um beijo entre personagens homossexuais suscitou um debate acerca da LGBTfobia, um problema que ainda precisa ser superado. Então, a revista Carta Capital publicou uma lista de 10 livros que tratam sobre o tema e que você precisa ler. “O preconceito, segundo o dicionário, é qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. E nada melhor que o conhecimento para trazer luz a esse túnel que parece não ter fim. Enquanto o prefeito de uma das cidades mais famosas do mundo censura uma obra com conteúdo LGBT, nós fazemos uma seleção com 10 livros. Confira!”

  1. “Um Livro Para Ser Entendido”, de Pedro HMC.
  2. “História do Movimento LGBT no Brasil”, de James N. Green , Marcio Caetano, Marisa Fernandes e Renan Quinalha.
  3. “O Que Será?”, de Jean Wyllys.
  4. “Moletom”, de Júlio Azevedo.
  5. “Devassos no Paraíso”, de João Silveiro Trevisan.
  6. “Apenas um Garoto”, de Bill Konigsberg.
  7. “Armário Sem Portas”, de Karla Lima e Pya Pera.
  8. “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas”, de Elenilson Nascimento e Anna Carvalho.
  9. “O Mau Exemplo de Cameron Post”, de Emily M. Danforth.
  10. “O Ateneu”, de Raul Pompéia.
CARTA CAPITAL
CARTA CAPITAL

Eu só não sabia que o meu livro “Diálogos Inesperados”, em coautoria com Anna Carvalho, estava incluso nessa categoria de livro gay! Mas que bom que entrou na lista!

Por fim, eu me pego aqui pensando em todos os acontecimentos, nos perrengues pré-viagem (ida e volta), nas pessoas que encontrei e que desencontrei (com três pavilhões imensos fica difícil ficar on de novo), nos livros que comprei e ganhei (e surtei), nas pessoas que conheci ao acaso (em meio a surtos), nas piadas sem graça que contei e escutei (e ri), nas gargalhadas que dei (algumas delas desprevenidamente fotografadas e foram as fotos que mais gostei), nas emoções que vivi (mesmo não sendo Roberto Carlos) e naquelas que senti de longe. Esse emaranhado de pensamentos e sentimentos costuma me deixa em um estado inerte e a vontade de fazer alguma coisa simplesmente não surge, inclusive a vontade de ler. Mas voltei a leitura da bio da Elza, escrita pelo Zeca Camargo. Sem contar o fato de que, depois que a adrenalina baixa, a imunidade também tende a cair e não foi diferente comigo. Atualmente, quem está sofrendo as consequências é minha cabeça (mas há de melhorar). É, de fato, uma sensação de ressaca.

Crachá
Crachá

Chegamos ao fim de mais uma grande festa literária e a sensação de plenitude e dever cumprido é extasiante. Se a emoção do autor ao ver alguém interessado em suas histórias for a mesma que senti quando entreguei um marcador e a pessoa respondeu que já me seguia, agora eu entendo o que é essa sensação! Foram dias lindos que ficarão para sempre guardados na memória. Obrigado a todos os colegas escritores, blogueiros, jornalistas, editores, livreiros, todos os profissionais e comedores livros por estes dez dias na bienal… E tiveram momentos em que me senti inseguro, tímido(?), perdido, com medinho e apavorado? Inúmeros! Eu observava aquele mundo de gente com sonhos e interesses iguais aos meus e pensava como para eles parecia tão fácil. Alguns iguais nem me percebiam, enquanto outros eram tão doces, carinhosos e educados, me incentivando mais e mais. Em suma, não à censura. Eles batem com ódio, nós devolvemos com amor. Não vai ter censura, vai ter luta, loucura e muito beijo de língua! “Não é necessário queimar livros para destruir uma cultura, basta fazer com que as pessoas parem de lê-los”, escreveu Ray Bradbury. P.S. E parece que em 2020, segundo divulgado pelo prefeito ACM Neto, a bienal será em Salvador. Rezando para que isso seja verdade!

Hostinger

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