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Crítica “Democracia em Vertigem” – Vertiginosamente tendencioso

Democracia em Vertigem
Democracia em Vertigem

 

“Se o brasileiro vive hoje um colapso ético é porque pais, professores, igrejas, famílias e patrões fracassaram na tarefa de educar eticamente. Nenhum ser nasceu ético. Educar é mostrar para as pessoas que o mundo delas tem limites. E o limite delas é o outro.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

O tamanho da crise moral do brasileiro desde a campanha no ano de 1984, durante as Diretas Já, quando achávamos que a derrubada da ditadura e a chegada da democracia resolveria todos os problemas, parece que nos foi jogada para que aprendessemos a pescar antes da hora, a burlar as leis, sonegar impostos, enganar os clientes, copiar em provas, fazer um gato, uma ligação clandestina, estacionar o carro onde não deveríamos, afinal, ninguém está vendo. A tirar vantagens de tudo e cada um pensando em si mesmo, no seu bem estar. Imagine fraudar o leite que as pessoas irão dar para as crianças? Quem se acostuma a tirar alguma coisa que não lhe pertence, mesmo que seja pequena, se um dia se candidatar a um cargo político e for eleito, seguirá fazendo a mesma coisa que fazia antes. Quem tem que mudar? Todos nós a começar pela nossa atitude dentro das nossas casas. E nem George Orwell, no seu clássico “1984”, poderia imagina um cenário como este que estamos vivendo hoje.

Vivemos no Brasil uma crise moral muito grande e não é só com os políticos não, não é só na Petrobras, não é só em Brasília com os seus políticos corruptos, não é só dentro das universidades que viraram celeiros de sindicalistas psicopatas de esquerda, mas é aqui mesmo com as nossas mentiras diárias, nos nossos trabalhos, nas empresas, nos nossos bairros, nas nossas cidades, afinal, ninguém está vendo. Mas, um dia, haviam perspectivas. Haviam esperanças. Haviam objetivos maiores. Mas veio o Sarney como resposta. E quando combatemos Sarney, precisávamos de uma eleição direta e o Brasil precisava crescer de novo através da democracia. E veio o Collor! E veio Itamar Franco. E veio FHC. E veio a era Lula. E veio a foquinha adestrada da Dilma. E quando achávamos que estávamos no fundo do poço, veio o Bozo. Em dez horas e 47 minutos de pronunciamentos, o atual presidente do Brasil cita mais Israel do que o Nordeste brasileiro e menciona mais esquerda do que direita. Apresenta mais problemas do que soluções, fala mais em Deus do que em como vai melhorar o país. Além de ameaçar não dar entrevistas se a imprensa não escrever o que ele quer. Um presidente que se recusa a falar sobre o assassinato da menina Ágatha pelos capitães do mato, que não sabe lidar com o contraditório e sempre foge daquilo que o desagrada. No fundo, um tremendo covarde. E continuamos na mesma merda. Ou pior.

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TEXTO NEUTRO – Mas, o documentário “Democracia em Vertigem”, na Netflix, de Petra Costa, que já dirigiu “Elena”, “Olmo’ e “A Gaivota”, por exemplo, mergulha na história que levou ao impeachment da Dilma Rousseff, e tem gerado calorosos entusiasmos nas hostes de esquerda, além das fogueiras acesas na ala da direita. Apesar de ser um documentário feito aparentemente com boas intenções e algumas boas sacadas, ele ironicamente revela um lado ingênuo de quem não aprendeu absolutamente nada sobre o que aconteceu no Brasil. Não há texto neutro, mesmo que ele seja apresentado sob viés de uma obra onde a jovem diretora vive uma cruzada pessoal ou personalista de ser neta de empreiteiros e ter os pais lá na década de 1970 militando no PCdoB; e seja também uma articulista de redes sociais.

Democracia em Vertigem
Democracia em Vertigem

A premissa errada neste documentário é que a “elite”, forçosamente de direita, como reza a cartilha de esquerda, por assim dizer, criou toda uma situação artificial e conluios sem fim para forçar a saída da presidente Dilma. Inclusive, atuando pelo Judiciário, para prender o Lula. E focamos aqui a filósofa Hannah Arendt, autora da tese da banalidade do mal em que, fruto da lavagem cerebral, ninguém pode ser julgado à luz da ética como moral. Mas, a diretora de “Democracia em Vertigem” não será poupada por que acaba criando uma narrativa mitômana que transita entre dois Lulas, o homem do povo, representante absoluto que, ao assumir o primeiro mandato, confere nossa tomada da Bastilha, sustentando que tudo foi golpe palaciano de dentro. Como todos na história do Brasil. Todos os que lideraram a retirada da Dilma foram (e alguns eram até os 45 do segundo tempo) aliados de primeira hora.  Lembramos também de brasileiros tomando banho no Lago Paranoá e do Lula, autocrata, que dramaticamente se comportava como Deus absoluto, comprando o Congresso, negociando emendas, se travestindo de mercador ou encantador de acéfalos, e, principalmente, adestrando porcos. E a elite assistia a tudo aquilo apavorada e torcendo por um bom final. Pois mesmo ela tem uma parte esclarecida e outra não.

MEA CULPA – Entrando, no cenário atual, o filósofo, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano Norberto Bobbio, pontuou que para quem tem críticas passamos de um a outro sem sair da crise moral. Não há ideia de horizonte, a ideia de democracia no texto, que ao analisar o estado atual dos regimes democráticos, verifica as transformações da democracia sob a forma de “promessas não cumpridas”, apresenta também o contraste entre a democracia ideal e representativa, tal como concebida por seus fundadores. A matéria bruta deste conceito, tal como é, em que, com maior ou menor participação o cidadão vive cotidianamente, buscando, ao fim, um cuidadoso prognóstico sobre o seu futuro. Aliás, uma dica para quem compra a ideia personalista do homem que “deu o mundo” aos pobres, assista “Entreatos” de João Moreira Salles, e veja que todos os seus personagens foram presos, textos de igualdade caíram feito moscas diante do capital, que irônico.

Mas a direção mambembe de Petra Costa faz a mea culpa econômica em “Democracia em Vertigem”, poupando do flerte cleptocrata da personagem principal em nome do partido, onde a persona asquerosa populista é poupada e o seu partido réu. E a verdadeira vertigem no filme, como adjetivo dessa democracia que corre perigo, é muito voltada ao aspecto sufragista da própria democracia. Todos que estão contra o Macunaíma dela são considerados como anomalias, quando a verdadeira anomalia é quando alguns entenderam que as benesses oferecidas por um autocrata não são, na verdade, benesses, são os mesmos pão e circo de sempre. Parece como um versículo bíblico onde os donos do poder vão golpear e fazer cair mil à esquerda e 10 mil à direita, na numeração correta da Bíblia. Mas o documentário, como muitos petistas, transita na grana, mas flerta com discurso popularesco: associar o Lula e a Dilma à própria democracia e o resto às margens da ditadura e ao fascismo.

GRATIDÃO ADESTRADA – Outro ponto é a ausência quase total dos próprios militares no filme. Eles, que agora são eminências pardas de protagonismo tanto na fuça como em deep background, demonstram que a tão falada democracia foi enraizada nesse país, pois o país é feito de pessoas econômicas, pessoas alienáveis, e também não nos esqueçamos das linhas de Antonio Gramsci, que cita as universidades públicas que viraram patíbulo de militantes, as cotas que dedilham a sociedade, os milhares de meninos e meninas cheios de ideologias de Facebook, diplomas comprados, empoderamento de modinhas, artistas com seu capital social que entram nas salas rezando na mesma opera bufa. Que empoderamento? Já que a presidente, vítima do famigerado golpe disfarçado de impeachment, deixou dez milhões de desvalidos cheios de textos, gratidão e homilia.

Mas o documentário consegue mostrar que os principais atores da derrocada heterodoxa do PT foram um Legislativo que já tinha sido seu, e um Judiciário com muitas nomeações do próprio, inclusive para a Corte Suprema. Os apelos emocionais de pessoas paupérrimas agradecendo a estada de filhos na universidade, onde o emocional quase poético faz das reitorias uma espécie de chacais sem a comiseração bélica, aliás já falava um grande crítico literário: não há a escravidão pior do que a escravidão por amor. Ou seja, não falamos aqui de autocrítica necessária, o que tanto pedem do PT. Falamos de absurda inépcia administrativa e política, bem como uma condução ruinosa e fantasiosa da economia, aliada à vista grossa com casos flagrantes de corrupção. Que começou a incomodar a massa – uma ralé moralista que ascendeu graças ao PT. E aos agora malditos “pobres de direita”.

DITADURA – Vale ressaltar, mais uma vez, que muitos personagens tidos como artífices do golpismo eram outrora defensores da ordem democrática — sob esse prisma da vertigem do sufrágio. Inclusive o próprio Eduardo Cunha, meses antes de os fatos saírem de controle, afirmou peremptoriamente, em cena de arquivo no documentário, que seria um absurdo pensar em destituir Dilma do cargo. E o trágico partido, para não dizer vigarista, que apoia Maduro, ditador latinoamericano, mas que enfia tanque em gente como se nada fosse, que é capaz de criar, sob capatazes, a lógica de que essa ditadura existe contra o capitalismo, aliás todas existem a partir dele.

O lado bom, se é que podemos chamá-lo assim, é que uma crise testa a capacidade das pessoas e as leva a um questionamento sobre ética. Se o brasileiro vive hoje um colapso ético é porque pais, professores, igrejas, famílias e patrões fracassaram na tarefa de educar eticamente. Nenhum ser nasceu ético. Educar é mostrar para as pessoas que o mundo delas tem limites. E o limite delas é o outro. Outra questão: na ditadura brasileira, houve uma omissão trágica e deliberada, nenhum dos dois lados prestaram, ambos queriam autocracia, a liberdade defendida por guerrilha, Guevara, Olga, Luís Carlos Prestes não era nada democrático, as ligas camponesas, tão fartamente narradas por Calado em “Quarup”.

DEMOCRACIA EM FARRAPOS – A democracia é, muitas vezes, estabelecer princípios de que o outro não é o centro de nada, apenas uma parte de um todo. E nós somos capazes de adquirir e aperfeiçoar essa ideia. Bobbio afirma que não existe uma maneira correta de fazer democracia errada. E vai mais afundo: a população tem o governo que merece. O que bem transparece nos protestos nas ruas, que começaram em 2013 e se prolongaram até 2016 sem que se entendesse muito bem os motivos iniciais, pelas investigações da Lava Jato (e suas operações por vezes questionáveis) com o protagonismo do então juiz e agora ministro Sergio Moro. E a um Power Point desastrado que colocou o Lula como chefe de um esquema de “propinocracia”. E, então, Lula é preso. E Aécio Neves, o líder da oposição, é flagrado em um telefonema revelador que vaza à imprensa.

Criou-se, então, a domesticação circense de pessoas que seguem feito órfãs de seu Líder que, caindo, cai atirando, arrogante, ciente de que a criação de postes, lendas, narrativas rasas caem como luvas num país de pobres fanáticos. Então, na falta de leitura, pesquisa, são vítimas em potencial desse sequestro, se escoram famintos na ideia do líder proselitista intocável e amado por natureza. E assim o fenômeno Bolsonaro se forma. Com as vias livres, o capitão reformado e totalmente ignorante chega ao poder, numa conciliação que atendeu a uma direita defensora da democracia e a extremistas que rogavam pela volta dos militares. E viva o povo burro brasileiro! A história é cíclica e, no Brasil dos últimos anos, bastante revolta.

Democracia em Vertigem
Democracia em Vertigem

Para terminar esse enterro de cérebro ao som fake de “Lula lá, brilha uma estrela…”, o grande mérito macabro de um serial killer de consciências, é pavimentá-las ao seu bel prazer, antes de ser preso, se apossar de um sindicato e as pessoas não notarem que esse líder não é um político preso, é sim um preso que não teve celas capazes de prendê-lo pelo simples fato de que arrogância de um titere cleptocrata não pode cumprir pena e o mais perverso: o sequestro ou apreensão moral de um povo que vê, enlouquece e saliva o seu Macunaíma de nove dedos tão entre grades quanto ele. Mas, para além dos capítulos da história, o filme de Petra Costa é o retrato de um país que se forjou sobre uma base mambembe, que nunca se reconstruiu. Fundada no total esquecimento.

A última mensagem (em frases) do filme “Democracia em Vertigem”, é uma porrada: “O juiz Sérgio Moro é nomeado ministro da Justiça de Bolsonaro. E Lula permanece preso”. E está tudo aí: a continuidade do golpe iniciado em 2013 em um documentário “encomendado” que todo mundo deveria assistir, principalmente para aqueles que acham que a situação atual do Brasil é culpa somente do PT. Mas lembrando aqui também que a desastrosa política econômico-financeira dos governos lulopetistas já custou mais de R$ 250 bilhões aos contribuintes. E continuará impondo custos ao País até 2041. A “modulação de efeitos” das decisões judiciais é uma construção teórica que tem por objetivo proteger os negócios jurídicos. Direitos fundamentais não são negócios jurídicos – e isso não é ensinado nas faculdades de Direito. A liberdade e as garantias fundamentais (contraditório, por exemplo) vão continuar, infelizmente, não negociáveis.

Caetano Veloso e Monica Iozzi se emocionam com o filme “Democracia em Vertigem” de Petra Costa

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