Crítica TV Notícias Televisão

Televisão: “Segunda Chamada”, uma série necessária

Segunda Chamada
Segunda Chamada

E quanto mais um professor transige seu lugar de dar aula e escapa para outras funções como voz de polícia, de defender um colega de uma violência sexual, mais o Estado desidrata a sua função constitucional de educar, de dar segurança, de manter dignidade, de dar cidadania, e entramos num paradoxo cruel de Estados gigantes e populistas.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

Temos mais de 16 milhões de analfabetos. E isso é vergonhoso. O ensino fundamental foi praticamente universalizado, mas a qualidade deixa muito a desejar. A educação profissional e o ensino médio ainda não encontraram o caminho certo, mesmo com este Governo pífio dizendo o contrário. Os cursos de formação de professores são lamentáveis, como também são lamentáveis os salários pagos aos quadros do magistério. Faculdades de Pedagogia e todos os outros cursos de licenciatura entregam ao mercado de trabalho, todos os anos, docentes incapazes de assumir uma sala de aula, incapazes de fazerem uma leitura crítica de um texto de uma página e sem nenhuma perspectiva de futuro. Por quê? Porque muitos desses professores trazem limitações oriundas de uma educação básica falha. Cometem erros crassos de ortografia, têm dificuldade na compreensão de textos e total desconhecimento de conceitos científicos imprescindíveis. Saem dos seus cursos de licenciatura sem se livrar dessas dificuldades. Falta na formação dos professores uma união entre a teoria e a prática. E precisamos urgente ajustar esses dois mundos. O ensino tem de estar conectado com o dia a dia. Nenhuma reforma avança sem um bom professor e um bom salário.

Leia também

Sexo, moda, comportamento, no Feminino e Além
Guia de filmes para passar no ENEM e em vestibulares
Lista de filmes que falam sobre Ética e moral
Os 10 filmes românticos mais assistidos no Brasil
10 livros incríveis para o homem moderno
Programação de cinema da Rede UCI Orient

Entrando, no cenário atual, filósofos políticos, historiadores do pensamento político, escritores, booktubers e os poucos senadores em prol da Educação pontuam que para quem tem críticas passamos de um a outro sem sair da crise moral. Não há ideia de horizonte, a ideia de democracia, que ao analisar o Estado atual dos regimes democráticos, verifica as transformações sob a forma de “promessas não cumpridas” e apresenta também o contraste entre a democracia ideal e representativa, tal como concebia por seus fundadores. A única mentalidade que reina no mundo acadêmico supervaloriza a teoria e menospreza a prática. Os futuros professores passam os quatro anos da formação nas universidades sindicalizadas e balançando as bandeiras de esquerda estudando matérias obsoletas, com docentes deslumbrados com os cargos em instituições de ensino superior e o trabalho concreto em salas de aulas é sempre colocado no segundo plano. Briga-se para pagar um piso de 400 dólares mensais aos professores de ensino fundamental, por 40 horas semanais, quando o Japão paga 2.000 dólares aos seus mestres.  Cinco vezes mais!

E, talvez, por causa de todos estes fatores, e mais alguns não contabilizados aqui, estreou na semana passada, a série “Segunda Chamada” ambientada numa escola decadente – como a grande maioria espalhada pelo país – que forma adultos nos ensinos médio e fundamental. Mas tramas passadas em escolas não são novidade na cardápio televisivo da Rede Globo, vide as inúmeras temporadas da utópica “Malhação”. Entretanto, poucas escolas da ficção foram mostradas com tanta força quanto em “Segunda Chamada”. A série chama a atenção por fazer da escola um microcosmo social, expondo as dificuldades de professores e alunos que encaram uma tripla jornada para buscarem mudar suas vidas. Ver Debora Bloch no papel da professora comprometida já seria motivo suficiente para acompanhar a série. Mas há muitos outros. A história de Carla Faour e Julia Spadaccini com direção de Joana Jabace é forte, bem realizada e emociona com um tema oportuno e tratado sem panfletarismos. E a matéria bruta deste conceito, tal como é, em que, com maior ou menor participação o cidadão vive cotidianamente, buscando, ao fim, um cuidadoso prognóstico sobre o seu futuro.

A atriz Débora Bloch é a professora idealista Lúcia na série "Segunda Chamada".
A atriz Débora Bloch é a professora idealista Lúcia na série “Segunda Chamada”.

 

“Segunda Chamada” é uma oportunidade única para quem não gosta muito de ler e de conhecer um pouco da escola “real brasileira” e refletir sobre o papel do professor nessa cena. E a realidade de muitos nessa profissão tão desvalorizada. Quando ministrei aulas no curso de Pedagogia, por uma escolha quase óbvia, tratei das cartas de Paulo Freire sob título “Professora sim, tia não”. No texto, o educador e filósofo, unanimidade entre os que militam na área mesmo sem terem lido uma única linha, diz que a forma de tratamento familiar desconstrói um novo assédio na figura profissional do professor enquanto afeto e menos competência (aqui discorro em mais um desdobramento desse desvio de função: professores viram “prós”, e esse diminutivo revela tanta coisa). Ser tio(a) revela um certo distanciamento da aquisição cognitiva, reconhecimento formal de sua instrumentação para sociedade. Tenho muitas ressalvas da posologia freiriana porque se sabe que ele, tal qual Foucault, acredita em mecanismos de coerção e que a escola age como forma de representação e perpetuação das elites, aqui um adendo, mas quando foi que o Estado tentou quebrar essa relação de diáspora entre escola pública e o resto da educação exilada de escolas particulares?

VISÃO MASTIGADA – E voltamos a série da Globo, em que vemos a personagem de Débora Bloch “raptando” uma criança para retirá-la de uma cena familiar em caos. Ela ensina em uma escola pública cujo nome é Carolina Maria de Jesus (primeira autora negra e que foi autora do célebre livro “Quarto de Despejo”), onde tudo são signos. Mas o ato de ler a Globo requer muitas emendas, muitas analogias em sua visão mastigada. A escola e o turno noturno são mastigados em cenas bastante conhecidas de quem dá aula: a professora que vende bijous, o professor de artes em seu enredo de alguém descolado, a professora que sofre violência do marido, o diretor que se encerra em seu cargo burocrático e político e que não admite que ninguém passe da linha tênue entre ensinar e compensar outras demandas daqueles fiapos de relação. Aliás, existe sim um certo consumo nas posturas de diretores serem bedéis do Estado. Hoje este cinismo desaparece e os diretores ocupam cargos sob extensão do braço olheiro do Estado que faz das escolas públicas redutos ou cartas brancas para que governadores se assenhorem de seus postos. Aliás, de novo, educação pública virou terreno de textos de empoderamento de um sistema falido que, na falta de nota, concede certas realidades michês entre o Estado e a sua forma peculiar de desvio de função.

Mas a trama em “Segunda Chamada” consegue ficar de pé e se sustenta num parapeito desconfortável. É que as personagens se dividem entre os que estão esgotados da luta diária e aqueles idealistas incansáveis. E quando se analisa a personagem de Débora Bloc (professora Lúcia), se evidencia que aquelas relações não se estabelecem para dentro dos muros da escola, a professora age como uma agente comunitária, psicóloga, delegada, juíza, e o Estado compõe essa farsa de educação pública com esses arremedos para que continue na fábrica de “moer gentes com carinho, texto e empoderamento”. E uma certa exaustão paira sobre todos eles. A professora Lúcia ensina português e seus colegas Eliete (Thalita Carauta), Marcos André (Silvio Guindane – ele foi o ator, ainda criança, do filme excelente “Como Nascem os Anjos”) e Sônia (Hermila Guedes), além de Jaci (Paulo Gorgulho) que dirige a escola, sofrem com o orçamento precário e os salários baixos. E quanto mais um professor transige seu lugar de dar aula e escapa para outras funções como voz de polícia, de defender um colega de uma violência sexual, mais o Estado desidrata a sua função constitucional de educar, de dar segurança, de manter dignidade, de dar cidadania, e entramos num paradoxo cruel de Estados gigantes e populistas: o Estado não tem que dar nada, é sua obrigação, quando o Estado tira nota, mantém a arquitetura hostil, mantém uma merenda escolar meia boca, coloca bedéis, coloca cursos de pasta rápida, põe um plano de carreira de universidades públicas para seus funcionários do Estado, e estabelece conexões prostituídas com o sistema como um todo.

A grande revelação:  a rapper Linn da Quebrada vive a Natascha no elenco de "Segunda Chamada".
A grande revelação:  a rapper Linn da Quebrada vive a Natascha no elenco de “Segunda Chamada”.

DEMOCRACIA EM FARRAPOS – Segundo muitos que rezam na cartilha socialista, ser 100% ético é uma utopia. Mas é a partir da utopia que se pode melhorar o real, e agora é o momento de se produzir algo bom no que diz respeito às modalidades de decisão na Educação, pois a regra fundamental da democracia é a regra da maioria. A crise da Educação não vem sem a crise moral desse mesmo Estado que se perpetua em engenharias hostis nas relações com as escolas, com as periferias, com a manutenção dessas classes ora no sistema da Educação básica pública, ora “promovida” para universidade pública, negando competência e insistimos aqui: não se democratizou a universidade pública, se popularizou (com suas listas de benesses), bem diferente, muito pouco e ainda esperado pelo sistema de Governo que entende Educação como extensão da relação fálica com manutenção de projetos de poder. Mas o fato de não existir alguém plenamente ético na democracia, não quer dizer que tenhamos que ser pessoas que toleramos o plenamente não ético. Existe um caminho humano. Só que toda vez que eu errar ou deslizar eticamente, eu tenho que conhecer isso como um equívoco e tenho que arrumar.

E os alunos em “Segunda Chamada” estudam à noite porque trabalham duro durante o dia inteiro. São motoboys, cobradores de ônibus, manicures, donas de casa, domésticas, diaristas ou vivem de prostituição e venda de drogas. Ou estão no subemprego. A série pega o Patinho Feio, o embrulha para presente ao som de Elza Soares, com “Você Merece”: “Você deve notar que não tem mais tutu/E dizer que não está preocupado/Você deve lutar pela xepa da feira/E dizer que está recompensado/Você deve estampar sempre um ar de alegria/E dizer tudo tem melhorado/Você deve rezar pelo bem do patrão/E esquecer que está desempregado…”, e não omite a outra relação prostituída: a do Terceiro Poder ou da própria mídia entrando em casas para dedilhar o que seja conveniente em suas relações de conluio ou não com o próprio poder. Muito tênue também entre o relato e a falta de neutralidade dos autores da série em retratar, simular ou maquiar a realidade com os focos que a sua atuação queira, então a emissora que se instalou com o telecursos, hoje com a Hora do Enem, com o Canal Cultura, nessas demarcações de cultura popular, de inovação de tudo pelo que a Globo saliva, entra em mentes como o vintage papo do “politicamente correto”, faz a refeição completa da série, com atrizes sem maquiagens, sofridas, zumbis, que se apresentam assim para lutar na trincheira da guerra já perdida para Educação que também exibe alunos cujas demandas de vida são mais fortes e têm na sala de aula algo bem menor: uma instalação a mais.

A série mostra as situações e as vulnerabilidades de um sistema que deixa a desejar.
A série mostra as situações e as vulnerabilidades de um sistema que deixa a desejar.

SALAS QUE EXIBEM TOLERÂNCIA – A série mostra alunos do EJA (Ensino de Jovens e Adultos) da periferia de São Paulo, traçando um painel social bem definido: pobres de periferia e sem futuro. São personagens tão intensos e cheios de problemas, que a série parece transmitir desesperança. Pena, pois um país que se deseduca, se educa à margem de mãos arbitrárias e que salivam pela perpetuação do poder; país deseducado é um país que lê mal, vota mal, vive mal e se enterra mal num ostracismo ou engodo muito pior: sou empoderado, embora não migre de classe, continuo na periferia e agradeço o “pão e circo” que os governos me dão e sua célebre arrebentação do nada, não há ressaca nesse mar, ele é calmo bom para as derivas. E as salas de aula que exibem “tolerância” com trans, com mães adolescentes, com meninas que apanham, com a feiura, com o tráfico de drogas, com a prostituição, com a pobreza milimetricamente assistida pelo Estado para que nada mude, tudo isso compõe o ritual da abelhas rainhas; e o sistema vence em sua total retroalimentação de poder e aí não tem Foucault, Marx, Paulo Freire que salvem, porque nenhum foi capaz de mudar, mas se perpetuou sob os poderes, mesmo com a ilustração desses camaradas sob o problema, pois veio a luz e o problema hoje brilha no escuro, é um problema lindo, ágil e onipotente.

Entretanto, o texto de Carla Faour e Julia Spadaccini, apesar de intenso, não é desesperançoso. Afinal, os alunos da Escola Maria Carolina de Jesus acreditam que a Educação é capaz de transformar. Daí seus sacrifícios. Mas há outras dificuldades se somando à privação de sono. Solange (Carol Duarte) tem um bebê, que é obrigada a levar para a aula por falta de ajuda em casa. Ele chora sem parar. Natasha (Linn da Quebrada), travesti, sofre preconceito dos colegas. Por aí vai. Todo o elenco brilha e vale mencionar ainda Teca Pereira (Dona Jurema), Felipe Simas (Maicon) e José Dumont (Sílvio), que fazem bonito no primeiro capítulo. E numa época onde a ignorância parece aflorar de todos os lugares e a Educação tem sido cada vez mais renegada, parabéns a todos aqueles que continuam tomando na cara com ética e dignidade. E não adianta dizer feliz #DiadoProfessor 📚só neste 15/10 se no resto do ano você apoia esse Governo maldito que quer acabar com o que ainda resta da Educação neste país de ignorantes. Vence o problema e não o país, que não dá direito a primeiras, segundas ou ultimas chamadas.

E nem vou mais me prolongar muito aqui, visto que todos já sabem a minha opinião sobre ser professor – coisa que me arrependo muito. Anos atrás, quando ainda lecionava, exibi em um colégio religioso e hipócrita o excelente filme “Batismo de Sangue”, que fala sobre os horrores da ditadura. Resultado: alguns pais pediram a minha demissão, me acusando de doutrinação. Somos às vezes a única esperança para muitos alunos, mesmo que eles não queiram e tenham como referências jogadores de futebol pagodeiros e traficantes! “Segunda Chamada” mostra as situações e as vulnerabilidades de um sistema que deixa a desejar. E a Globo sempre vai ser a escrota, que apoiou a Ditadura, manipulou as eleições do Collor e sempre militou pelo interesse das elites, MAS, em termos de dramaturgia, a emissora humilha… “Segunda Chamada” é sobre eu, é sobre você, é sobre nós, é sobre todos os corpos que não tem voz. Eu como professor me sentir representado na série, não só por minha atuação profissional como por meu CORPO. E quando a personagem Natasha (@linndaquebrada) cantou “Me Usa” da banda Magníficos, na sala de aula, o meu coração ficou tão pequeno. Gostei muito do primeiro episódio! Mesmo assim, quero aqui reafirmar a importância de todos educadores que vestem a camisa, que não ficam em cima dos muros, mesmo estando na merda. E não são só os professores, mas as merendeiras, porteiros, inspetores, secretárias e todos que compõe a vida de uma escola. Todos são educadores, todos educam e são educados, já dizia Paulo Freire. Parabéns a todos os professores! E obrigado por nada!

Adicionar comentário

Clique aqui e comente

Deixe uma resposta

Assista ao trailer

A Grande Mentira (The Good Liar)

Assista ao trailer

Ford vs Ferrari

Assista ao trailer

Dora e a Cidade Perdida

Assista ao trailer

Estaremos Sempre Juntos

Assista ao trailer

Doutor Sono

Assista ao trailer

O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio