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Eric Mitchell Sabinson e algumas palavras sobre tradução literária

Eric Mitchell
Eric Mitchell

“Com certeza um tributo feito com amor será superior a um show com os velhos Stones, que estão caducando há décadas.”

I

Faleceu em fins de outubro Eric Mitchell Sabinson, professor aposentado do departamento de teoria literária da Unicamp. Folheando sua tradução de Cálamo, de Walt Whitman [Jabuticaba, 2016] nesses últimos dias, não pude deixar de lembrar de alguns comentários que ele fazia sobre o ato de tradução, e sobre a publicação de uma tradução literária. A pedido do professor Eric, Cálamo foi preparado apenas em português, desacompanhado do texto-base. “Se a edição fosse bilíngue os versos seriam lidos como linguística, não como poesia”, costumava dizer o mestre judeu, dando risada. “Se os versos originais viessem no final, até que tudo bem. Mas prefiro ver no livro só a poesia em português”. O prefácio que Eric escreveu à sua versão brasileira de Whitman é uma boa alegoria da grandeza de suas aulas, de suas metáforas tão certeiras e engraçadas, e de suas conversas cheias de amor pela vida e pela literatura. Passemos então às palavras dele, a este trecho que recorto. Cito-as da pág. 7 da mencionada edição.

“E os poemas que o leitor encontrará nas próximas páginas? Antes de comprar este livro, ele precisa saber que o tradutor é nova-iorquino. Não há garantia de que os versos sejam, de alguma maneira, superiores ao produto nacional porque, afinal de contas, são também um produto nacional, mesmo que os ingredientes sejam importados, como uma garrafa de escocês Passport nos anos 70 ou uma engenhoca montada numa fábrica da zona franca de Manaus. Na adolescência tive a oportunidade de ouvir The Rolling Stones, Ike and Tina Turner e B. B. King ao vivo em Madison Square Garden. Contudo, se eu estiver em Pirassununga numa noite chuvosa, e uma banda local fizer um show cover, posso assistir de bom grado. Com certeza um tributo feito com amor será superior a um show com os velhos Stones, que estão caducando há décadas.

Ora, a tradução de um poema não é somente prótese. É também cover, um trabalho respeitável, que dá continuidade e renovação à cultura do passado. Quando leio meu trabalho, sei que estou no Brasil e estou feliz. Whitman entenderá. ‘Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo’.”

II

Ainda tenho o desejo de falar brevemente sobre alegoria, e brevemente sobre tradução, e brevemente sobre o professor Eric Mitchell Sabinson. Mas falo agora dele e de tudo isso através de um de seus alunos, de quem ele tanto gostava: Guilherme Beltramin de Faria Rodrigues. Guilherme lança agora a tradução desde o grego clássico de O ciclope de Eurípides [Ofícios Terrestres, 2019]. Fruto de sua dissertação de mestrado na USP, a edição conta com novíssimo estudo introdutório no qual o tradutor faz um apanhado das características do drama satírico (O ciclope é o único remanescente completo), da caracterização dos personagens sátiros e dos intertextos entre a ação da peça – Odisseu e companheiros aprisionados na caverna de um monstro canibal, um glutão nefasto, no sentido de nefas – e a famosa passagem em que a besta-homem surge, no canto IX da Odisseia. Pois bem. Até aí, tudo muito interessante e bem amarradinho, a exemplo da qualidade poética com que Guilherme trata o texto euripidiano, tanto nas notas quanto na carga poética. Mas um lance que eu enxergo como ainda mais empolgante, no meio disso tudo, é a interpretação alegórica, a atualização da recepção da peça que o tradutor desfecha em seu comentário sobre o drama. Este é bastante político. Lembro sempre que algumas pessoas costumavam dizer que quem estudava letras clássicas era reacionário. Guilherme contra-argumenta muito bem, e passemos agora às suas palavras:

‘A barbaridade do ciclope, por mais monstruosa que seja, tem certas nuances do que se chama de civilidade; por outro lado, os heroísmos de Odisseu, por mais dignos que sejam, trazem tonalidades de ridículo e violento. No meio disto tudo estão os sátiros, servos do ciclope e depois servos de Odisseu; incapazes de desobedecer a qualquer um de seus mestres totalmente, mas a todo momento tentando se desgarrar em direção à liberdade do vinho, da dança e do sexo. O texto de Eurípides aponta para as possibilidades de rebelião contra um tirano, um bárbaro; mas também para como esse processo passa por uma ação subversiva, cuja participação heroica pode ser rebaixada e questionada.’

III

Neste ano a editora Patuá publicou um livro bastante esquisito. Trata-se da poesia insólita, de imensa qualidade estética, do jovem escritor M. Bibiano Branco. Sua minibio é sucinta: “nascido em Garanhuns, Pernambuco, é filho de mineira com pernambucano, neto de povo preto. Entre o Beiral e o abismo é o seu grito de estreia”. E seus versos mantêm certa ascese na forma, no vocábulo nervoso e exato, versos feitos de cliques precisos, como espetadas de grafite numa tela de celular; por outro lado, são bastantes amplas, caóticas e polifônicas as visões de bestiários e dos mundos ctônicos que o poeta compõe.

Seria necessário fazer um comentário mais amplo a respeito dessa visão do tempo e da megalópole neoliberal como produtora de avejões, de fantasmagorias do inframundo, dessa legião de asmodeus que Bibiano enumera e combate – porque é poeta de resistência – em versos como os de Beiral do inferno:

Ele falava, e os caramujos
Escorriam nas dentarias
De trabuco e metralhas
Calhamaços de trapaça,
Frase feita e pilantragem.

Não havia gente que não
Esticasse sem juízo a razão,
Quem não babasse grosso,
Com língua na enganação;
Se não, pedrejariam pragas.

Mas cravou-se um anúncio,
Placas de alerta na cidade,
Quem não estava esticado
Dançava e ria de gralhadas
Tudo talhado num uníssono
Do gargarejo do demônio.

IV

Só que a angústia diante da megalópole neoliberal num tempo desumano produzirá, na obra de Eugenio Gianetti [Zoobreviver, Patuá, 2018] não efeitos de proliferação de bestas, pragas e fantasmas à la As tentações de Santo Antão, de Bosch, como vemos em parte da obra de Bibiano. Em Gianetti não nos deparamos com fogaréus nem multidões de assombrações, mas antes com a solidão imensa, na devastação pós-diluvial. São Paulo, a cidade, é “puta velha e solitária”, onde “ninguém me espera/em lugar nenhum”, cidade de “pontes submersas” que também é ruína, embora ruína às vezes redimida, em clave de evocação uterina: “na placenta/luz suave de abajur/ adágio de mar interior/impermanências e suspiros”. Poesia forte, angustiante e belíssima. Irmã da de Bibiano no acurado retrato da angústia, e diferente na maneira com que povoa (esvaziamento em Gianetti, miríade de vultos em Bibiano) e atravessa o pesadelo, e a ele sobrevive.

***

Em memória de Eric Mitchell Sabinson, professor

 

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