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Crítica Televisão: Por que “SEE” ainda não funcionou? (c/spoiler)

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“Apesar dos ótimos argumentos e um bom texto, a famosa crítica, o próprio elenco e boa parte do público revelam decepção com a série “SEE”, protagonizada por Jason Momoa.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

Até que enfim a Apple TV+ está finalmente entre nós. O serviço de streaming da Apple estreou com algumas produções originais, e bem interessantes, como a série pós-apocalíptica “SEE”, bem ao estilo de inúmeras outras produções que tratam do apocalipse humano em uma certa estada de tantas ilusões ou compulsões por coisas, como em  “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “O Livro de Eli” (2010), “Eu Sou a Lenda” (2007), “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008), “Guerra Mundial Z” (2013) e “A Caixa de Pássaros” (2018), com Jason Momoa – o Khal Drogo, Conan e Aquaman – no protagonismo como o personagem bastante intimista Baba Voss. A estreia aconteceu com bons índices e já se foram oito episódios até o momento. A trama mostra um período de quando a humanidade foi atingida por um vírus mortal, extinguindo 99% da população e deixando apenas dois milhões de pessoas vivas na Terra. Porém, todas elas ficaram completamente cegas e assim os seres humanos permanecem por séculos.

O retrocesso com a cegueira foi tanto que as pessoas voltaram a viver seres medievais: construindo suas próprias armas, suas habitações e caçando para sobreviver. Mas o melhor: sem trânsito, políticos em Brasília e celulares. No entanto, acredita-se que os humanos se tornaram cegos por obra de Deus, que achou que esta seria a única solução para não tornar a raça humana extinta, visto que a destruição causada pela humanidade só iria se intensificar. “SEE” mostra pessoas que se tornam rudimentares em gestos, gostos, em simplicidade, crendices ou deformações primitivas, aliás, o humano é o objeto de muitas séries, filmes, livros e peças de teatro atualmente. E em meio às florestas densas, árvores enormes, rios perigosos e animais famintos, finalmente vemos coisas que restaram da população antiga: além de pneus deixados para a construção da tribo. E como diria Rilke: “O amor é a coisa mais danosa imposta a duas criaturas”.

Jason Momoa na série "SEE", da Apple TV+.
Jason Momoa na série “SEE”, da Apple TV+.

Mas observando com mais cuidado a série “SEE”, podemos constatar que o pós-apocalipse é a reinvenção do gênero humano, a verdadeira inovação, tão estudada ou parametrizada pela sociologia, na capacidade do ser humano de ver ou pensar que veja. Há uma exaustão no trato humano na sua eventual dispersão que, segundo Saramago, no seu “Ensaio Sobre a Cegueira” , onde a “cegueira branca” vem como uma espécie de dispersão, de o ser humano se vincular a benesses da informação sem o devido sentimento. “Em um mundo ambientado no futuro, a raça humana teve de encontrar novos modos de sobrevivência e interação, depois de perder totalmente o sentido da visão. Mas toda a estrutura dessa sociedade passa a ser desafiada quando um par de gêmeos nasce capaz de enxergar”, diz a sinopse. Contudo, o despertar do lado mais vulnerável do homem é a sua própria incapacidade emocional de se vincular, a dependência do outro, o rompimento com regras de auto suficiência.

SÉRIE SELVAGEM – “SEE”, em uma das suas cenas iniciais, explora um parto natural, cercado de dores, gritos, em uma sociedade de guerreiros fortes, com hierarquia definida, perseguições, mortes e medo. A série é selvagem. Tudo muito rudimentar e artesanal. As populações vivem em cabanas, fazem suas próprias armas e precisam caçar para se alimentar. Tudo isso sem enxergar. Além disso, há toda a superstição em torno da visão, as teorias conspiratórias de como Deus teria deixado a humanidade cega, os mitos sobre bruxaria e a perseguição a quem é diferente. Então, ficamos imaginando como seria bem vindo os fórceps, mas não há fórceps, há parteiras, dores, alienações, outros jogos de poder com adversários mais externos: fome, inanição, luta pela sobrevida, sem os haters de hoje em dia, em uma odisseia do humano que se dá pelo amor, pela capacidade do vulnerável e senso de comunidade.

Baba Voss treinando a sua filha adotiva Haniwa.
Baba Voss treinando a sua filha adotiva Haniwa.

Com todos cegos e ainda se adaptando a essa condição, enxergar virou uma heresia. Não é nem permitido tocar no assunto, caso contrário a pessoa seria considerada uma pecadora e perseguida até a sua morte. É quando Jerlamarel (herói ou vilão?) aparece na história e começa a provocar o caos nesta nova humanidade, acusado de ser um bruxo por propagar o fato de que os humanos que enxergavam existiam e que novos podem começar a nascer enxergando. Jerlamarel, papel do ator canadense Joshua Henry (de “Sex And The City – O Filme”),  aparece na série após o nascimento dos gêmeos Kofun e Haniwa, que teve com Maghra (Hera Hilmar) que, na verdade é casada com Baba Voss. O casamento entre os dois só aconteceu porque a jovem apareceu em sua tribo já grávida de três meses e precisava de proteção. O casamento e a proteção de Maghra não são aceitos pelo restante da tribo, visto que se trata de uma desconhecida grávida de um herege, que vive como um fugitivo por ser uma pessoa que enxerga, fazendo com que todos corram risco de vida. Então, os conflitos e as regras mostram que, definitivamente, os humanos passam por um retrocesso, com dificuldades de conviver em grupo e raramente pensando no próximo.

Pela animosidade, pela volta de sentimentos ultrapassados nesse entorno que vivemos em nossas bolhas, pois vivemos sim em bolhas tecnológicas, quando algo acontece de apocalipse, as bolhas explodem. Então, pensamos que o homem público, na sua aparição dialética, aparece na Revolução Industrial, na luta de classes marxista, desde então se discute Marx, capitalismo, todos inimigos externos, e essa série “SEE” opta por discutir o interno, o humano, o coletivo, o bem estar ecumênico, universal, que não acontece sem essa ruptura tão dolorosa com as benesses das relações difusas domésticas, de sociedades ditas evoluídas. Jerlamarel, por exemplo, um herege que vive fugindo dos soldados e caçadores de bruxas da rainha Kane por propagar o que se considera um mito: a visão. Mas o verdadeiro centro da narrativa da série são as crianças. Filhos de um homem que enxerga, elas herdaram o poder da visão. Mas, isso pode ser uma dádiva, ou uma maldição. Por outro lado, Jerlamarel deixou um baú com vários livros dentro dele. Com os livros, que os gêmeos deveriam conferir apenas após 12 verões, eles conseguiram aprender a ler, adquirir novas habilidades e conhecer o seu antepassado. Lembrando que “leitura de livros” é heresia, então até para os membros da própria tribo a informação de que os irmãos enxergam é um segredo.

A Rainha Kane, que se mastruba para chegar a Deus.
A Rainha Kane, que se mastruba para chegar a Deus.

O QUE DEU ERRADO? Mas parece que nem tudo são flores para o recém-estreado serviço de streaming Apple TV+, comandado pela empresa da maçã, criada por Steve Jobs. Agora, a plataforma que tem, como cartaz, entre outros produtos, além da série “SEE”, anda recebendo milhares de críticas negativas e vendo que a trama ainda não conseguiu decolar. A série tem recebido duras críticas por parte dos analistas, críticos de cinema, blogueiros e também soma uma baixa aprovação do público. Talvez a série tenha se tornado cansativa para os apressados e imediatistas quando escolhe expandir o mundo para além dos personagens principais, desenvolvendo uma vilã – a careca rainha Kane que se mastruba para chegar a Deus – com pouca relação à trama central e com uma jornada individual que não se encaixa em nada com a premissa do enredo central. O astro de “SEE”, o fortão e super simpático Jason Momoa, revelou recentemente em entrevista ao Digital Spy o quão “desafiador” foi para o elenco incorporar personagens cegos não tendo essa deficiência na vida real e também que não entende a baixa aceitação do público. Mas entre as principais críticas, estão o roteiro e a distribuição dos papéis dos personagens. “SEE”, às vezes, parece um conceito ultrapassado, com alguns dos personagens apenas sendo jogados de um lado para o outro em um quadro branco, mas ninguém descobriu como usá-los para contar uma história que seja envolvente.

Contudo, quando os redatores da série resolvem voltar à narrativa, ao grupo de sobreviventes que tenta vencer as ameaças dos caçadores de bruxas ao passo que trabalha questões de poder em relação à visão e também à literatura, a série ganha impacto e um atrativo muito mais propenso ao êxito. Evoluídas mesmo são as pessoas que tomaram a pílula da matrix, saíram desse estado de coisas chinfrins, ligaram o botão do “foda-se” estrutural (principalmente agora que virou modinha colocar a palavra “foda” em títulos de livros), dessa sociedade chata e repleta de inteligências artificiais catando autorizações para sobreviver nessa Babel estéril de sentimentos. Ora, em um mundo dominado pela cegueira, conseguir enxergar e ler pode ser uma vantagem ou inferioridade, a depender da perspectiva que a série apresenta. E todos fazendo parte de uma cena rudimentar, onde voltaremos a ser homens das cavernas, sem o sexismo, sem masculinidade tóxica e tão brutais quanto tóxicas em sistemas em seu lúpus humano. E esse é o apocalipse. Para quem ainda não conferiu, a série está disponível no catálogo da plataforma de streaming Apple TV+. A série “SEE” entrou no ar juntamente com o lançamento do serviço, no último dia 1º de novembro. Assistam com cuidado essas séries que desceram no  pior da humanidade:  a sua capacidade de tomar a pílula da matrix e renegaram essa tolerância às coisas que deveríamos enxergar como sendo inaceitáveis. Em terra de cego, quem tem olhos, se rebela.

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