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Lista literária – Dez ensaios dos anos 2010: parte 1

Lista literária - Dez ensaios dos anos 2010: parte 1 - Rituais de Sofrimento
Rituais de Sofrimento

Lista literária

Todo fim de década, fim de século, fim de ano, e também todo período dito de decadência trazem consigo a fantasmagoria da retrospectiva, do ranking dos melhores, do listão dos essenciais do milênio etc. Não seria qualquer listagem e qualquer ranqueamento, atos ilusórios em si, tentativas virtuais de retornarmos ao passado? Nisso reside a atmosfera poderosamente lúdica do gesto irracional de ordenar coisas em listas, apesar de sua essência fantasmática.

Atendo abaixo a essa requisição de listagem, portanto, justamente por amor a essa atmosfera, mas também por amor à sua rarefação. Assim, seleciono dez ensaios que considero essenciais à próxima década, publicados nos anos zero-dez.

Para recalcar o mal-estar com o neoliberalismo e com a epidemia de aids, com os genocídios na Bósnia e Ruanda, com o maremoto do crack e a explosão da violência urbana, os anos 90 tiveram Friends. Para recalcar o mundo em fechamento pós-onze de setembro, os anos 2000 registraram a expansão ubíqua, transnacional, da velha internet. Para recalcar o apocalipse climático e anticlimático e a recrudescência do fascismo nós temos, nos anos zero dez, as redes sociais e os smartphones. Mas os ensaios abaixo não favorecem o recalque; antes, ajudam a escovar a história a contrapelo, para hoje e para ontem. E já vamos percebendo que a última década do mundo há pouco ficou para trás.

Os critérios de minha seleção: 1-livros publicados no Brasil, em português, entre os anos 2010-2019; 2-cinco brasileiros e cinco estrangeiros; 3-obras de extensão curta ou mediana, que sejam ou flertem com o gênero ensaio, em prosa; 4-legibilidade ao grande público: os tempos do apocalipse não exigem leveza ou ideias rasas, mas revisão da dicção de aparatos deleuzianos, derridianos e lacanianos etc, de expressão muitas vezes impenetrável; 5-o quinto critério, e o mais importante: minhas afinidades eletivas com cada um desses livros. Seguem, por enquanto, os cinco brasileiros.

1-Rituais de sofrimento, de Silvia Viana. São Paulo: Boitempo, 2013.

Análise de diversos reality-shows como expressão fantasmagórica da violência neoliberal:

 “Para mim, a melhor definição do show de realidade coube ao vencedor do Big Brother de 2009: ‘o Big Brother é um jogo social  dentro de uma realidade condicionada.’ A formulação é precisa por ser imprecisa: ela pode definir qualquer outro espaço social, visto que hoje todas as relações são postas como um grande jogo, imagem que, por si só, já as condiciona.” [págs. 37-8].

2-A música do tempo infinito, de Tales Ab’Sáber. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Três ensaios sobre a fantasmagoria da cultura clubber, da eurodance, do ecstasy etc enquanto repressões do mal-estar coletivo causado pelas relações laborais podres:

“O mundo do trabalho […] os reduz ao mais concreto e empobrecido destino que eles acreditam confrontar com sua dança e um sorriso fixado no rosto. Certo dia ouvi de uma moça: o que pode uma garota hoje, em um mundo sem política, sem direito, sem trabalho e sem cultura, se não dançar a noite inteira, tomar uma droga no banheiro e trepar com um desconhecido ao final de tudo?” [pág. 70].

3-Putafeminista, de Monique Prada. São Paulo: Veneta, 2018.

No livro, Monique Prada estabelece uma panorâmica dos discursos sobre a prostituição e dos dizeres-políticas de trabalhadoras sexuais e argumenta em favor de sua práxis, no âmago dos feminismos:

“Da Antiguidade aos dias de hoje, a puta ora é vista como sacerdotisa, detentora de saberes divinos, ora como mulher perdida, desprezível, desqualificada. Dos bordéis estatais de Sólon, na misógina Grécia Antiga, à prostituição massiva como única alternativa para a subsistência de mulheres em períodos de escassez; da prostituição de luxo em bordéis dito secretos à sedução e os perigos das esquinas; dos anúncios de jornal e adesivos em telefones públicos à internet e à prostituição exclusivamente virtual dos portais onde homens, mulheres e casais se exibem em webcams, as transformações são facilmente perceptíveis. E isso não impede que modos mais tradicionais e “respeitáveis” de prostituição, como o casamento por conveniência financeira e os sugar daddies com suas discretas babies (que podemos descrever como uma versão moderna do “tio que ajuda a pagar os estudos”) ainda sejam bastante presentes.” [pág. 59]

4-Guia Rússia para o turismo do colapso, de Rachel Pach. São Paulo: Elefante, 2018.

Rachel Pach localiza na Moscou às vésperas da copa do mundo as fantasmagorias das propagandas de especulação imobiliária e disseca, benjaminianamente, seu discurso de destruição do patrimônio histórico, da narrativa e da identidade coletiva, numa cidade transformada em mercadoria:

“Uma nuvem de mistério e deslumbre envolve, desde sempre, os projetos espaciais nunca construídos. Parece que as projeções de viver no futuro feitas no passado (distante ou recente) produzem em nós um fascínio que pendula entre o projeto e o destino; algo de muito sedutor acontece quando viajamos neste campo aberto – entre as abstrações dos devires possíveis e as contingências concretas de como as coisas se sucedem”. [pág. 102]

5-No espelho do terror. Jihad e espetáculo, de Gabriel Ferreira Zacarias. São Paulo: Elefante, 2018.

Ensaio do fenômeno do terrorismo sob a ótica do espetáculo:

“A estética dos vídeo-games também é evocada em filmagens com câmeras GoPro acopladas às armas, com objetivo de emular as imagens dos jogos de first person shooting. Mas aqui vamos além de uma simples lógica de propaganda. Aqui nos aproximamos de algo que poderíamos chamar de promessa invertida de realidade. Com tais vídeos, o Estado Islâmico busca aliciar jovens habituados aos jogos de videogame, vendendo a ideia de que a guerra é como um videogame da vida real: uma inversão perversa na relação entre realidade e representação. [pág. 35]

Continuamos em janeiro de 2020.

 

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