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Filmes de Eric Rohmer em streaming no Petra Belas Artes

Cena de 'Conto de outono', de Rohmer
Cena de ‘Conto de outono’, de Rohmer

São filmes lentos, que pertencem a um outro tempo narrativo: um tempo antipornográfico, singelo, grácil

Os filmes de Eric Rohmer (1920-2010) estão sendo exibidos online, de graça até 15 de abril, no Petra Belas Artes [www.belasartesalacarte.com.br]. No cardápio temos filmes da série Comédias e Provérbios e clássicos como Conto de Primavera (1990).

Em geral, as obras centram-se em longos diálogos femininos; amigas numa mesa de bar, de café, conversando sobre vicissitudes de relacionamentos, insinuando seus jogos e mistérios. São filmes lentos, que pertencem a um outro tempo narrativo: um tempo antipornográfico, singelo, grácil. E os silêncios, os não-ditos, os gracejos, as tristezas, os segredos são o que lhes importa.

Os enredos, de aparência bastante burguesa, inserem em si a própria crise da burguesia, se neles repararmos bem. Mas não se restringem a uma argumentação política. Nesse sentido, Rohmer capta um mundo análogo ao da Educação Sentimental, de Flaubert, cem anos depois. Nas obras de Rohmer, a crise social passa ao largo, na rua de trás, enquanto protagonistas se decepcionam ou se alegram por amor, numa branda vida triste.

Embora  a tensão social esteja ali, turbulenta e pressurizadora, o foco das histórias diz respeito aos corações solitários das personagens; aos quartos vazios; aos lindos pulsos que escolhem abajures numa loja de antiguidades; aos batons nos filtros de cigarro, ao clima kitsch dos restaurantes-moinhos, às fragilidades amorosas; à sensação de velhice aos 24 anos; enfim, a tudo o que é inclassificável e inconsumível e, portanto, que não é kitsch. Talvez essa seja a razão de Rohmer influenciar cineastas tão contrários à sua linguagem.

O violentamente pornográfico Tarantino paga-lhe tributo, principalmente na soltura de longos diálogos, que adora filmar. Em Bastardos Inglórios (2009), a cena em que Hans Landa apaga o cigarro no chantilly do strudel, no café, diante de Shoshanna, é o desfecho de uma conversa bem rohmeriana: de um Rohmer às avessas.

Na França de Tarantino, a ocupação nazista, a câmera que mostra tudo, obscena; na França de Rohmer, o mundo baunilha, os enquadramentos misteriosos, intimistas. Cancelam-se os opostos e sobram os denominadores comuns: a beleza das mulheres e sua profundidade, nos cafés do passado, em permanente evocação.

Parece que esses filmes se alienaram, com certo maravilhamento (se é que isso é possível) dos final dos anos oitenta e dos noventa: do desemprego, do neoliberalismo, da Bósnia e de Ruanda, do terrorismo, do colapso ambiental, dos estados policiais, das guerras pela TV, das catástrofes causadas pelo mercado financeiro. Podem ser ilusórios ou desfocados, mas são filmes que têm a linguagem de uma temporalidade perdida, que, mentirosa ou não, não deixa de encantar.

Como diz Mamede Mustafa Jarouche, sobre sua tradução de As Mil e uma Noites: “Nietzsche observa, num ensaio não tão bom mas ainda assim pleno de sugestões, que às traduções não raro lhes falta o próprio tempo, ‘alegre e corajoso’, do texto traduzido; noutras palavras: falta-lhes tudo. Em defesa desta tradução e acaso de muitas outras, talvez seja lícito argumentar que se executa, especialmente hoje, num tempo que, oposto ao absoluto do da hipótese nietzschiana, exige a sombra dessa refração como antídoto à tristeza e covardia que caracterizam qualquer presente, ou, adaptando os termos de Walter Benjamin, num tempo que só pode libertar-se de si mesmo exilando-se num outro tempo.”

Quem diria que a temporalidade de Rohmer nos seria tão singela e convidativa em tempos de aparência apocalíptica.

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