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Crônica: Manifesto em prol das #Artes BR

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Manifesto: “Sem a cultura e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” (Albert Camus)

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

Como escreveu um amigo ator (desempregado): “Quem morreu foi a Regina Duarte. Moraes Moreira, Aldir Blanc, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Flavio Migliaccio, Dona Neném e, na última semana, Maria Alice Vergueiro entram para a história!”. A Regina (sem arte) jogou uma pá de cal em sua biografia. Estava isolada em uma Secretaria sem expressão e sem qualquer atuação em prol da cultura, das Artes, hoje, virou faxineira da Cinemateca, enfim, uma ostra caída no esquecimento. Lamentável e desolador. Vejo esse repulso pela total falta de diversidade e equidade não apenas em uma questão de agenda, mas como parte essencial da falta de criação de debates que acolham as mudanças sociais e culturais contemporâneas. E também uma forma de tratar instituições de Arte como modelos para uma sociedade mais inclusiva e pluralista, em especial durante este momento de turbulência política no qual o país se encontra.

Os articulistas que escrevem sabem a força da Arte. A despeito dela é uma força que sai escarrada sob a poética da verossimilhança e, estando à parte da realidade, lida com essa mesma realidade como a emoção deveria merecer. Deuses que emprestaram suas peles ao teatro, ao tablado etéreo, aos spots, a força dionisíaca de Mollière, Shakespeare, Camus, Nelsons, Oswalds, tragédia, comédia, que são homens, embora flertem com deuses, e são autorizados nessa missão. Homens que comem, bebem, precisam de alimento, talvez tenham pecado, diante da estrutura de um Estado que ao invés de Arte patrocina o dízimo, e precisam sobreviver. E, em meio às formas novas de interditar o fluxo natural e pleno das ideias e das ações artísticas, temos ainda a repetição dos modos convencionais de censura em muitos fatos que estão aí com a interdição de livros, filmes, peças de teatro, discursos, blogs, sites, posicionamentos e tantas outras coisas. Os discursos de ódio, as fake news e todas essas formas novas de obstar e confundir as narrativas são só as formas mais recentes e mais complexas do velho ato obscurantista.

A escola Brasil precisou ser evacuada, politizada, adestrada aos padrões vigentes. A polícia militar foi acionada para calar bocas. E desde então os alunos, funcionários e professores da escola Brasil, nós todos, estamos paralisados em meio a essa pandemia do Coronavírus, em prol da segurança de todos. Mas o Estado fechado, gigante com a sua imensa boca de detritos, que tirou da Arte seu poder de escolha, pois a Arte também precisa de indisciplina contra tudo e todos. E essa é a condição, o niilismo, eis a sua parte no latifúndio. É nesse niilismo que árcades foram calcinados com suas casas salgadas, quando o pintor desfalca um esquartejamento histórico dando ao país recém-independente em um tronco sem um herói. São outros os personagens de agora. A ONU perdeu o que lhe restava de poder de influência. As nações recuaram nos seus propósitos mais amplos de construção de um mundo mais igual, mais justo e socialmente mais moderno. Os mandatários e suas iniciativas diplomáticas estão restritas a um repertório convencional. Não cabem mais num plenário das Nações Unidas, momentos poéticos e inovadores como aquele com o secretário-geral tocando seu tambor ao lado de um artista baiano, num gesto tão representativo das suas origens africanas em comum. Então, fez-se a Arte, fez-se a indisciplina contra o Estado que pendura o traidor, mas a Arte desposa o herói.

Hoje precisaríamos de um novo Manifesto Antropofágico, de um novo Oswald de Andrade, que publicou em maio de 1928, e que tinha por objetivo repensar a dependência cultural brasileira. Oswald – que morreu na miséria – utilizou durante o desenvolvimento do seu manifesto, teorias de diversos autores e pensadores mundiais, como Freud, Marx, Breton, Francis Picabia, Rousseau, Montaigne e Hermann Keyserling. E combinadas as ideias destes autores e a ideologia desenvolvida por Oswald, retomou-se as características dos primórdios da formação cultural brasileira: a combinação das culturas primitivas (indígena e africana) e da cultura latina, formada pela colonização europeia. E formou-se o conceito errôneo de “caracterizar”, perante a colonização, o selvagem como elemento agressivo. E vejam o documentário “Modernistas”, da TV Cultura, que fala muito sobre a vida e obra dos principais artistas que participaram da semana de arte moderna de 1922, pois os meios comunicação atuais, robustecidos e ampliados pela internet, e toda a oferta de conhecimentos e instrumentos novos para a movimentação das Artes pelas estradas da vida social, já caracterizam um estado permanente de movimento.

M Á R M O R E: Foi um tal de Michelangelo que esculpiu. Levava jeito, né?
M Á R M O R E: Foi um tal de Michelangelo que esculpiu. Levava jeito, né?

E quando Elis cantou para militares? Quando Simonal se esvaia feito um X-9 que ele nunca foi? E quando Elvis foi recebido por Nixon? Ou Madonna, mais recentemente, em uma banheira prateada com leite e ervas, falou da fome e da epidemia? E quando na guerra, Simone de Beauvoir e sua capacidade indisciplinada revelou a mente de uma menina que já sabia sobre as diferenças de poder entre meninos e meninas? Mas a Arte lhes tocavam sem subestimá-los. Mas também quando as mãos e veias de um certo Davi, de Michelangelo, suplantou a força criadora de um Deus para oligofrênicos, a Arte exibe sua chancela humanista, a Arte lhe tocou sem subestimá-lo. E quando uma atriz como Natália do Valle arrebenta suas compotas entre lágrimas e risos, a Arte lhe toca sem subestimá-la. Achamos muito difícil o surgimento de uma ou outra particularidade militante que se destaque do “grande meio circulante” da atualidade artística diversa e plural. Temos Arte para todos os gostos, cinema para todos os desgostos, música para a velha música, teatro para o pós-teatro. As categorizações e catalogações ficam a cargo das curadorias formais dos produtores-promotores e da curadoria informal dos cronistas na imprensa.

Mas e quando o ator baiano Lelo Filho, como acrobata em peles, ultrapassa os limites do hilário e, seguindo Plauto à risca, causa risos comatosos, a Arte lhe toca sem subestimá-lo: “Todo sábado penso em cada artista desse imenso país que, agora, não sabe quando voltará a fazer o que mais ama”. E quando Christiane Pinho dança o transe da enxarpe assassino de Isadora Duncan num hemisfério solar e estoico soteropolitano, a Arte sim lhe toca sem subestimá-la. Ao ver as mãos de Denise Stoklos em seu alfabeto épico, a sua mimese in latu sense, a Arte lhe toca sem subestimá-la. Ao ver o balé Corpo com acrobatas bailarinos subversivos ao grave, à gravidade dos corpos vivos e em insight, a Arte lhes toca sem subestimá-los. Sim, achamos que está e é isso mesmo que a sociedade mundial vem permitindo ou propriamente desejando. É por isso que não acreditamos nas tentativas de regressão da vida social e cultural a estágios pré-modernos. O homem moderno — e já o pós-moderno — acredita e confia na ciência, na tecnologia, na internet, na passagem de uma evolução biológica que nos trouxe até aqui para uma evolução compartilhada entre a biológica e a tecnológica que nos arremessa ao futuro.

Ao ver a tragédia da Arte de Cronos devorando seu filho na tragédia de descarte amoral, a Arte sim atende para relações de incesto e força. A intenção da Arte é promover o resgate de uma cultura primitiva e notável no manifesto, e os seus autores o fazem por meio de um processo não harmonioso de tentar promover a assimilação mútua por ambas as culturas. Oswald, lá no passado, no entanto, não se opôs drasticamente à civilização moderna e industrializada, mas propôs um certo tipo de cautela ao absorver aspectos culturais de outrem, para que a modernidade não se sobreponha totalmente às culturas primitivas quando um ator pousa no tablado e cospe e regurgita a força mimética de Shakespeare sobre os mortais na frente, na plateia basbacada que segura os braços das cadeiras para que o coice não lhe arremeta em sensações não autorizadas. E quando muitos investiram no conceito antropofágico, tempos atrás, não havia ainda a concretização de uma realidade indiscriminadamente global como temos hoje, com sua extensão e intensidade levadas ao cabo e ao nível do planeta inteiro. Isso não os impediu de acreditar na capacidade de tudo fagocitar tudo, de tudo engolir tudo e tudo se amalgamar. Agora já estão dadas as condições para que isto se dê.

E há a sirene, a coxia, as cortinas, a escuridão, mas levamos as atuações para o carro, casa, e nossos comas. É hora de pular do trem… E também, para que haja maior cuidado ao absorver a cultura de outros lugares, para que não haja absorção do desnecessário e a cultura brasileira vire um amontoado de fragmentos de culturas exteriores. Mas a onde estão os intelectuais de hoje? Os professores questionadores? Os alunos aplicados e anarquistas? Todos caladinhos, enclausurados, coladinhos em suas telas fazendo suas lives de lugar algum! Onde estão os pensamentos coerentes? Talvez a grande gafe artística nesse país por ter sido convidada para festa pobre do Estado e ali professado sua convergência diante da indisponibilidade democrática do mesmo, pois censores de qualquer ordem e Arte não combinam. Esse é o preço das placas, dos patrocínios, das mãos de ferro: desde antes até agora.

O Estado não se interessa por Arte, se interessa pelo sua bandeira patrocinando uma conferência libertada entre aspas de Gilles Lipovetsky ao lado de Djamila Ribeiro com os seus “feminismos de modinha” e que sua marca esteja ali farejando iluminuras. Esse mesmo Estado que confunde Arte com arena com direito a gladiadores, pão, circo e Itaipava, hoje deixa a Arte morrer porque seu elan não atinge a grandeza dessa mesma Arte de um Estado miope, eis minha deixa. E como disse Gilberto Gil em uma recente entrevista: “Dar opinião sobre tanta coisa tem sido sempre uma demanda para gente como eu. A situação do País, sua sociedade, sua vida política, etceteras, são coisas dinâmicas, estão mudando todo o tempo. Nada é hoje, propriamente, como era há um ano. Muito se melhora e muito se piora sempre um tanto. As coisas no mundo não estão nada simples. A complexidade é imensa. Aqui ou em qualquer lugar”.

Gilberto Gil com o seu disco "OK OK OK", foi composto em um momento em que o artista recebia apelos para se pronunciar sobre o que ocorria no Brasil caótico.
Gilberto Gil com o seu disco “OK OK OK”, foi composto em um momento em que o artista recebia apelos para se pronunciar sobre o que ocorria no Brasil caótico.

A Arte não existe sem ser física, pois precisa de interação, é dialógica, precisa urgente de uma atmosfera licita entre homens, mulheres, peles e aplausos. A Arte ainda gravita sobre um universo complexo, a Cultura, mas a nossa nação hoje não possui um Ministério para a Cultura, que englobe a Arte sem esse cunho ideológico e parasita. Definir o que é Cultura é tão complicado quanto definir o que é Arte. Talvez o mais plausível seja a concepção do antropólogo norte-americano Clifford Greetz. Segundo Greetz, o conceito de cultura, “denota um padrão, historicamente transmitido, de significados incorporados em símbolos, um sistema de conceitos herdados que são expressados em formas simbólicas pelas quais o homem se comunica, se perpetua, e desenvolve sua sabedoria e suas atitudes perante a vida.” Esses símbolos, diz Greetz, podem ser um objeto, um ato, um evento, uma qualidade ou uma relação, que servem como veículo para uma concepção. A Arte, nós ousamos afirmar, pode se encontrar em todos esses símbolos. Mas onde eles estão? No choro, alegria, drama, dialética! Perguntamos então: um governante estéril nesse país que rouba ar das pessoas (respiradores) vai saber o que seja Arte?

Arte é ética, viraz, insalubre, inodora, a merda viva e pujante feito nós todos nesse duo nesse artigo ou manifesto ou ode ou nada. O camarim, adereços, roupas, a pele que um ator descasca para que uma Fanta Maria surja para que os risos sejam defenestrados ante a tragédia do nosso país sem verde nem amarelo, isso é risco à risca. Levantemo-nos pois o Estado não tem capacidade de pensar sobre isso porque Arte nunca pode dialogar com capatazes, coldres, colarinhos brancos. E vejamos a nossa métrica: país analfabeto é igual a país inculto. Ao ver um diálogo que se passa na sala zero de uma aeroporto em uma cidade em guerra para que duas gerações discutam seus patíbulos, o Estado entenderá?

O dossiê sobre a Cultura do cancelamento, na capa da revista Cult, junho 2020.
O dossiê sobre a Cultura do cancelamento, na capa da revista Cult, junho 2020.

Talvez hoje com o mundo em pânico, pessoas isoladas, insuladas com seus elásticos esticados, sem o êxtase de um mortal sobre as dobras da emoção, isso que não é quantificado, pertence a Arte. Ao Estado pertence o que então? Já que enfiou hospitais de campanha super faturados em estádios outrora super faturados? Perguntamos: o que se fará com teatros, peças, shows, mambembes, circos, idílios, diretores, cenógrafos, operadores essa indústria de gentes que o Estado não enxerga em sua miopia ou cegueira branca? Vamos fazer o que Darcy Ribeiro dizia: “Brasil é um moinho de gastar gentes”.

Todos são deuses, divas que são humanos e padecem diante de seus boletos sumários, aos governos que usaram essas forças em seu script raso, sem grifos intencionais roubarem ar, vão também nos roubar os afetos? Nossos atores, atrizes, matizes, divas, mitos? Façamos essa prédica, nos devolva apenas a dignidade sem placas, ideologia, tapinha nas costas, queremos o básico. Esperando respostas nessa babel que está fora das coxias, sets, ribaltas e por hora a realidade cuspe toda nossa indignação nessa babel de insanidades. Afinal, nós temos uma secretaria da cultura? Algum planejamento para área? Alguém se importa? A verba destinada a dar um suporte à categoria, liberada há meses, já foi empregada em alguma inciativa? Ou a ideia é exterminar a cultura e estão aproveitando a brecha? Merda!!! Sempre. Fé num pulsar da nação em direção a um destino radiante, ainda que distante.

 

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