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Motéis brasileiros enquadrados em sua dimensão de heterotopia

Motel Brasil
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Motel Brasil é certeiro – em descrições tão precisas que chegam a desentranhar o absurdo – na dissecação dessas utopias fantasmagóricas, que muito revelarão sobre nossa civilização a quem desencavar seus vestígios

Foucault chamou de heterotopias os espaços da sociedade que, entre outras características, projetavam uma outra temporalidade sobre quem viesse a atravessar seu limiar, seu umbral. Ou seja: um tempo que rompesse a lógica das rotinas produtivas e dos afazeres cotidianos, oferecendo-se como alteridade e como contraponto aos dias e às semanas banais. Cemitérios, prostíbulos, colônias de férias e quartos reservados para a lua-de-mel seriam alguns exemplos paradigmáticos de heterotopias.

Às vezes, no entanto, as heterotopias estão em íntima relação com o biopoder estatal deformante, e o abastecem ideologicamente, justamente em função de sua descontinuidade para com a cidade normativa: é o caso das prisões e dos hospícios.

O filósofo chegou a escrever que seria necessária uma ciência das heterotopias. Poucas coisas são mais profundas do que essa proposição, do que esse convite a um olhar, a um método de estudo absolutamente único, coloreamente enlouquecedor.

Mas voltemos ao assunto: o motel, em sua gênese norte-americana, modelada a partir do pós-guerra, é um fenômeno sociocultural também analisado por Foucault como exemplo de heterotopia.

A temporalidade de ruptura desses locais de repouso em autoestradas americanas residiria justamente no fato de serem propícios, esses motor hotels, à sexualidade clandestina.

No livro Motel Brasil: uma antropologia contemporânea, de Jérôme Souty [tradução de Jorge Bastos Cruz [Rio de Janeiro: Telha; Terceiro Nome, 2019], o antropólogo francês atende ao pedido de Foucault, e nos presenteia com uma brilhante análise heterotópica a respeito das particularidades dos motéis brasileiros; de suas diferenças para com o modelo norte-americano, e de suas analogias com os love hotels japoneses (aliás, não nos esqueçamos do clássico e polêmico filme Love hotel, filme de Shinji Sōmai, de 1985).

Motel Brasil, todavia, não se esgota na discussão heterotópica; motel e não-lugar, motel e cultura kitsch e camp, motel e arquitetura do medo, motel como exemplo de feudalização urbana (ao lado de shoppings e condomínios fechados etc) são outras abordagens que se podem encontrar nesse livro original e profundo, que certamente seria devorado por Benjamin como um tratado único sobre as fantasmagorias.

E ainda que a fantasmagoria nos insira, conforme lembrava Benjamin, numa temporalidade de angústia mítica, não chega a ser viciante desorientar-se nos estudos sobre as utopias fantasmagóricas?

Nesse sentido, Motel Brasil é certeiro – em descrições tão precisas que chegam a desentranhar o absurdo – na dissecação dessas utopias fantasmagóricas, que muito revelarão sobre nossa civilização a quem desencavar seus vestígios, se o mundo vier a acabar um dia.

Cito a pág. 66:

‘As suítes do motel Riviera (Barueri, São Paulo) se inspiram em uma série de ilhas tropicais ou de balneários conhecidos (Bali, Taiti, Búzios…). No motel Adventure, em São Paulo, elas remetem a esportes radicais, como escalada, rapel, etc. Na suíte Duplex Rapel, por exemplo, o hóspede deve escalar dois andares de paredes para chegar a um spa de hidromassagem instalado em uma falsa caverna […]. Algumas suítes parecem verdadeiros parques aquáticos, com piscina, cascata e sauna. Já o primeiro motel “ecologicamente correto” navega em uma temática atual, visando à preservação do meio ambiente e ao “desenvolvimento sustentável” […].

Observe-se que não só seres humanos frequentam os motéis, seus animais domésticos também: desde 2012, existe em Belo Horizonte o Pet Motel, que propõe quartos para encontros de animais de estimação com decoração temática (seguindo um modelo proposto a seus donos) assim como assistência facilitando a reprodução, acompanhada por um veterinário’.

 

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