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Crônica:  A Liberdade guia o povo? (Pela Liberdade de Expressão e em solidariedade ao cartunista Aroeira)

Aroeira
Aroeira

“A ameaça de processo contra o jornalista Noblat e o cartunista Aroeira é o retorno à censura.”  . 

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

“Eu não gosto do bom gosto/Eu não gosto de bom senso/Eu não gosto dos bons modos/Não gosto/Eu aguento até rigores/Eu não tenho pena dos traídos/Eu hospedo infratores e banidos/Eu respeito conveniências/Eu não ligo pra conchavos/Eu suporto aparências/Eu não gosto de maus tratos”. Quando Adriana Calcanhotto escreveu essa letra de “Senhas”, no ano de 1992, o Brasil havia acabado de botar no olho da rua um presidente da República. Hoje, na segunda década do século XXI, vivemos a era do agravo à caneta de origem francesa, passando pela censura da campanha do Banco do Brasil e um pedido de boicote aos anunciantes da Folha e de vários outros jornais e revistas, onde o primeiro ano do Governo Bolsonaro foi marcado por controvérsias, mentiras, senhas emitidas do gabinete do ódio, censura e muita burrice.

Por outro lado, universidades viraram centros de doutrinação em massa, assim como as igrejas, os times de futebol e as repartições públicas. E das nossas mãos uniformes devem ter saído, em alguma vida ou tribuna de Nero, ideias que pulsavam liberdade. Sempre à margem dos processos, nunca lhes couberam em lugares de confinamentos. Em algum lugar, alguém escreveu algo que nunca esqueceremos: “Para os homens insurgirem se antes foi preciso, espantarem-se”. E depois olhamos e descobrimos o que se transformou a casuística das universidades com seus DA’s alimentados por ideias e rituais políticos com três lados, aliás, basta ter a palavra política para que tudo perca o sentido ético. Sem insurgência, tão pouco espanto. E, a depender do lado, sua reputação será calcinada, sua casa salgada, sua língua cortada e suas gerações nutridas pelo ódio perpétuo. E assim é feita a política chacal brasileira. Mas preferimos NÃO nos calar!

Há anos atrás, quando escrevemos o livro “Clandestinos”, cometemos a gafe de saber o peso da beligerância de grupos sofisticados pelo poder que se engendram, como ratos, na democracia criando a democracia mais palatável do planeta: feita nos resorts das ideologias e com os seus companheiros. Uma democracia serva de um pensamento menor, presa e feito Cronos comendo seus filhos. Nosso blog Literatura Clandestina foi cancelado, excluído, deletado por esse capital intelectual que não é moeda, mas existe, e se existe ante ao pragmatismo, acaba. Maquiavel tratava do poder, de fins e meios, e dizia que não se conciliar com ética para atingir objetivos. Mas nesse Brasil sem rumo de hoje e sempre, o presidente dos lunáticos radicais pernetas assinou sua posse com uma caneta simples, “tipo Bic”. No dia seguinte, na posse de ministros, usou um modelo da marca brasileira Compactor, fundada nos anos 1950, no Rio de Janeiro, para começar a sua era de recalques e desmandos. A marca da caneta celebrou o fato em suas redes sociais: “Uma honra ver nossa marca ajudando a escrever um capítulo tão importante na história do país”. No dia seguinte, o próprio Bolsonaro, vaidoso, agradeceu a marca, via Twitter: “Nós é que agradecemos a ótima qualidade e preço da caneta!”.

Mas, do lado de cá do mundo real, depois do nosso blog desaparecer no esgoto da rede, na pausa do retrato, desde ali já sabíamos que um país que não entende a diferença entre público e privado e que concilia Estado com personalismo, não será país nunca, será confraria de boteco, que desde sua primeira eleição democrática, como diria Belchior: “do tempo em que você sonhava”, deu em um corpo podre, desesperadamente gritando em português; mas, depois de tudo isso, elegemos o Collor, que ainda hoje é vivo e muito vivo, e que mais recentemente pediu perdão pelo “confisco” de poupanças porque antes disso o sistema o aboliu.

País que até hoje exibe esqueletos de pessoas mortas durante a ditadura, hoje negada por esse Governo infeliz. Mas gostaríamos de falar daqueles que foram cancelados porque estavam do lado “errado” da força. Mas qual o lado certo das escolhas diante de tantos picaretas? Arthur Bernardes, arquiteto brilhante que sumiu porque ousou sair fora da ordem; Santos Dumont, Simonal, Elis, Walmor Chagas, Leila Lopes, Flavio Migliaccio e aí entro num lado tenebroso dessa cultura personalista. Artistas são aquilo que pagam? É isso? Não sabemos! Giramos o daio do rádio e ouvimos uma poesia parnasiana cantada por Belchior. Belchior que também morreu. Gilberto Dimenstein que morreu mês passado. E são tantos nomes de pessoas sendo grifadas pelo ticket da morte. Leiam o “Dicionário de Suicidas Ilustres”, de J. Toledo, publicado pela Editora Record.

Charge do cartunista Aroeira censurada.
Charge do cartunista Aroeira censurada.

CENSURA – E de repente, não mais que de repente, em pleno 2020, o ministro da Justiça André Mendonça anunciou, via Twitter, que ordenou à Polícia Federal que investigasse o jornalista Ricardo Noblat, colunista da revista Veja, além do cartunista Renato Aroeira, por uma charge que desagradou o presidente Jair Bolsonaro. Chefe hierárquico da PF, o ministro já adiantou o veredito do tal inquérito: a inclusão do jornalista e do chargista na lei de segurança nacional, que considera crime “caluniar ou difamar o Presidente da República, o do Senado Federal, o da Câmara dos Deputados ou o do Supremo Tribunal Federal, imputando-lhes fato definido como crime ou fato ofensivo à reputação. Pena: reclusão, de 1 a 4 anos”. Ou seja: nós todos, os meros morais e f…, que costumamos chamar esse presidente tosco de “Bozo”, vamos todos ser acusados de calunia!

Mas a questão não foi só a charge em si. A questão passa por algo chamado intimidação. Esse Governo usa a lei da segurança nacional para restringir a liberdade de imprensa, calar bocas, fechar jornais. Um Governo pífio que é executor, por assim ser, por ser um títere, que não colabora com nada, não é capaz de assumir nada… amorfo, pequeno, vil, sem vida, útil para a idiotia útil que o serve – assim como os lunáticos seguidores que, enfim, foram presos. Resultado: igual ao descarte de judeus na execração sumária da Gestapo nazista. Igual a essa doença que pede isolamento, que dura muitos dias, que é imoral, invisível e existe, que mata, que não escolhe classes e que mudou o laboral do mundo inteiro. Esse Governo que também apresenta uma nova modalidade de morte: sozinha, sem direito à despedida, ar, família, afeto, consciência.

E de tanto o homem ser voyeur da vida, a doença veio sob o estilismo dessa pósverdade. Tudo tão sólido se dissolveu no ar poluído das cidades. E aqui do lado de baixo do Equador, o vírus disruptivo, mostrou a que veio, pior do que o vírus é a histeria coletiva: corrupção, desvio, grana, vil metal, numa troca com covas, cadáveres, censura, fake, establichment, povo na arena, gritando gol para cada ponto do seu time do seu lado. Ele instaura uma síndrome pior do que vírus, onde homens sórdidos roubam dos hospitais, literalmente, o ar que respiramos. E lembramos aqui de Drummond: “Tempo de fezes, poeta em fezes”.

A tela “A Liberdade guiando o povo” é uma visão romântica sobre a Revolução Francesa de julho de 1830.
A tela “A Liberdade guiando o povo” é uma visão romântica sobre a Revolução Francesa de julho de 1830.

E pensamos na famosa tela de Eugène Delacroix – este quadro “La Liberté guidant le peuple” (A Liberdade guiando o povo, em português), pintado em 1830, pode ser considerado um poderoso ícone das revoluções ocorridas durante o final do século XVIII e primeira metade do século XIX e das lutas das camadas populares pela tão sonhada igualdade – a liberdade imensa ao lado do pintor, com a mulher com os seus fartos seios à mostra, onde a liberdade era uma mãe que nutria o ideal revolucionário contra a Bastilha. Uma Bastilha símbolo de déspotas cairia para a subida de outros. O quadro mostra a insurreição das classes oprimidas, uma multidão de homens com armas e espadas nas mãos, surgindo de uma nuvem de poeira e fumaça, derrubando as barricadas e vindo implacável ao encontro do espectador, um garoto com pistolas nas mãos e um grito de guerra na boca, avançando sobre o pé direito e exortando os companheiros à batalha; tudo ganhando uma enorme força na representação de uma revolta irrefreável. E até quando o Facebook, por exemplo, vai continuar censurando a Revolução Francesa? Em tempos tenebrosos, o Facebook revela-se ser uma empresa privada que apoia o conservadorismo que ainda almeja a restauração.

Pensem nos heróis de uma distopia pósrevolução em que burgueses tomaram o poder, pensem: “Rousseau, em seu livro ‘O Contrato Social’, afirmava que a família e a escola se comportam como cenários de uma vida que se consuma em tendo liberdade individual e responsabilidade coletiva, explicamos então: na escola a alteridade se constitui como um objeto que não é cenário, é atuação de sujeitos que se formam e, mais do que isso, se refazem em uma atitude de transformação, se tornam políticos. Porém, a principal protagonista da obra é a Liberdade, representada por uma mulher corajosa, trazendo os corpos dos soldados adversários mortos aos seus pés. É bastante chamativo a forma como ela é retratada: uma filha do povo, nascida do povo, viva, determinada e impetuosa, encarnando a revolta, surgindo da sombra para a luz como uma chama e segurando a bandeira francesa como um símbolo de luta, ela volta o rosto para seus companheiros de forma a chamá-los e guiá-los à vitória final. A Liberdade aqui, usando até um fuzil, é uma alegoria com visão moderna, atual e real. Num país que perdeu o seu senso de perplexidade e nos enoja com uma encenação democrática; na nossa sala de aula, a democracia ressurge como um ente que vai sobreviver na fila do SUS, vocês são o futuro. Ou não.

No daio do rádio, a canção acaba: “Eu aguento até os estetas/Eu não julgo competência/Eu não ligo pra etiqueta/Eu aplaudo rebeldias/Eu respeito tiranias/E compreendo piedades/Eu não condeno mentiras/Eu não condeno vaidades (…) Eu gosto dos que têm fome/Dos que morrem de vontade/Dos que secam de desejo/Dos que ardem…”. E retornamos aos idos de 2000, chegando dez minutos atrasados em uma sala de aula cheia de adolescentes mimados, jurando não estarmos mais envolvidos em moldes, em confusão. Subimos apressados e encontramos uns punhados de rebentos melequentos querendo abraços, outros nos olhando com o desprezo pouco inédito de jovens assintomáticos com aquels olhos que matam reputações. Subimos as escadas rápido, nas nossas lida com cem minutos, os segundos nos derrubam. Pegamos as armas idílicas feitas de piloto, apagador, caixinha azul, cadernetas de notas com a logomarca da escola. E a vida que segue…

 

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