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Crítica: “Deadpool”, um (anti)herói contra sua própria feiura

Deadpool

“Como está, Deadpool é uma espécie de filme stand up tautológico. Uma piada atrás da outra e um rosto sem graça”

Por Adolfo Gomes

Qual a graça de um (anti)herói indestrutível, cuja maior vulnerabilidade é ser feio? Provavelmente, o humor. Parece ser a resposta de Rob Liefeld e Fabian Niciesa, os criadores do personagem “Deadpool”. O chamado “mercenário tagarela” da Marvel acaba de ganhar o seu longa-metragem solo. Dirigido por Tim Miller, estrelado e produzido por Ryan Reynolds, o filme se anuncia, até pela natureza da matriz, uma sátira desbocada, com muita violência e sexo, como se, enfim, a franquia multimilionária das HQs estivesse disposta a se arriscar.

Não é bem assim. O que o “Deadpool” cinematográfico teria de transgressor é, calculadamente, subjugado pelo alcance epidérmico das suas provocações. Nada é levado às últimas consequências aqui. Não temos nudez, por exemplo; as cenas de sexo são verborrágicas e visualmente castas; a violência gráfica é tão fragmentada, que logo se acomoda a desempenhar um papel apenas pirotécnico, sem valor ou peso diegético para a narrativa.

O aspecto amoral do personagem, traço de potencial renovador no cenário das adaptações Marvel para as telas, naufraga sob o peso das motivações adolescentes, predominantes nas ações e no comportamento do hesitante mascarado. Por sinal, é também uma decepção que o mote anedótico de um herói que oculta a identidade somente por se sentir constrangido com a sua própria aparência, seja eclipsado pelo tom demasiado auto-referente e egocêntrico na construção do personagem e da trama.

Deadpool

Sim, seria ótimo ter um protagonista de um “HQ Movie” que só pensasse em si mesmo, sem medir as consequências dos seus superpoderes – já experimentamos algo semelhante, em outra chave é claro, com o Coringa de Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas”. Mas o que clássico vilão tinha de perigosamente anarquista, o “Deadpool”, de Miller/Reynolds, tem de condescendente com “way of life” juvenil do puro e simples: “dane-se os outros!”

Enfim, antes que os aficionados do personagem, entrincheirados na defesa da fidelidade aos quadrinhos, contra-argumentem que esse é o espírito do material de origem, é bom lembrar: não estamos diante de uma obra de Proust ou Faulkner. Além do mais, respeito carola ao original, quase sempre, é álibi para falta de imaginação.

Como está, “Deadpool” é uma espécie de filme “stand up” tautológico. Uma piada atrás da outra e um rosto sem graça. Talvez seja mesmo a tragédia de nosso anti-herói: no fim das contas, nem o collant colorido ou sequer a máscara são capazes de salvá-lo.

 

Adolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Abraccine. Curador de mostras e retrospectivas, entre as quais “Nicholas Philibert, a emoção do real”, “Bresson, olhos para o impossível” e “O Mito de Dom Sebastião no Cinema”. Coordenou as três edições do prêmio de estímulo a jovens críticos “Walter da Silveira”, promovido pela Diretoria de Audiovisual, da Fundação Cultural da Bahia.

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