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Mitos não morrem, en(can)tam. Por quem os mitos (ainda) dobram?

Literatura Mitos não morrem
Literatura Mitos não morrem

“Em três dias, três grandes nomes morrem: o poeta e músico Moraes Moreira, o romancista Rubem Fonseca e o escritor policial Luiz Alfredo Garcia-Roza sob uma morte no isolamento, sob o peso do tempo.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

A morte em pandemia, nesse estado de isolamento nos faz pensar mais, pois nunca foi tão clichê estarmos presos ora no passado, ora no presente, como uma espécie de salvação, na cinza das horas. Lendo Albert Camus, na quarentena daqueles tempos, ora pela iminência de uma guerra protocolar sob ponto de vista ético, explico: guerras são declaradas, são ou têm sua ética, seus protocolos, drints, escambos, grupamentos, estratégias. E, a de agora, bem tácita por perseguir a curva, achatar, abrir, fechar, isolar.

Hoje, vivemos sob o tácito ataque de um vírus amoral, aético, que provocou um morticínio típico das guerras declaradas inimagináveis, intangíveis e com centenas de caixões numa via clássica do Velho Mundo, instituindo outro elemento laboral que revela pessoas éticas (ou não), caos, nova ordem, em uma guerra contra o outro, mas nesse elan algo nos conforta: nós temos lembrança, metafísico, a solitude, a solidão. A morte, algo pouco solidário, hoje é solitária, derradeiro adeus entre máscaras, medo, isolamento, onde ruas desertas riem de tanto medo, e o simples respirar virou algo complexo.

Assim que soube da partida de Moraes Moreira, por exemplo, no último dia 13/04, isolado em meu isolamento, nesse idílio cuja pretensão era para ser menos sofrida do que já é. Morreu dormindo, boa morte se considerarmos mortes incineradas, despersonalizadas, destituídas de afeto póstumo, de olhares defeituosos, acusadores, incinerados. Feito José Wilker, Moraes morreu sozinho em seu apartamento na Gávea, Rio de Janeiro. O homem que compôs com os Novos Baianos, a anarquia dos clandestinos,  dos proscritos, mas foi anárquico e morreu só. Por outro lado, os Novos Baianos foi um grupo alternativo que entendeu o capitalismo sob o seu viés, sem parcimônia. Eu, do meu lado de cá, lembro de um LP do Moraes com músicas carnavalescas, sob versos harmônicos: “Toda cidade vai navegar no mar azul badaue, ver os temperos se namorar na massa do massapé”, e naquele tom hiperbólico em que ele dizia ser o Carnaval de cada esquina importante, imenso, sem cordas, dionisíaco, retumbante.

Transcrição do recado do Moraes em nosso livro "Clandestinos", quando o cantor se apresentou no TCA, em Salvador (BA), em 2019.
Transcrição do recado do Moraes em nosso livro “Clandestinos”, quando o cantor se apresentou no TCA, em Salvador (BA), em 2019.

Aquele LP era dotado de marchas de Carnaval e eu escolhi simbolicamente essa, mas tinha também o clássico “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”. Moraes começou tocando sanfona de doze baixos em festas de São João e outros eventos na sua cidade. Na adolescência aprendeu a tocar violão sozinho, enquanto fazia curso de ciências em Caculé, na região sudoeste da Bahia, em 1967. Aos 19, foi para Salvador, onde começou a estudar no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Lá, ele conheceu seus futuros companheiros dos Novos Baianos: Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor, além de Tom Zé. Em 1968, eles criaram o espetáculo que deu origem aos Novos Baianos, “Desembarque dos bichos depois do dilúvio universal”. O grupo já tinha também a participação de Baby do Brasil (Baby Consuelo, na época) na voz e o guitarrista Pepeu Gomes quando foi participar do popular Festival da Música Popular Brasileira na TV em 1969, com a música “De Vera”, de Moreira e Galvão. Logo em seguida, me perdi do Moraes, e o reencontrei em um álbum de uma novela global sob título de “Sintônia”, o velho Moraes em um bandolin confessando uma canção de amor idílica eternizada.

Fechando a minha estada com pensamento, aliás essa massa cultural odiosa, a humanidade em sua claustrofobia, pensando em cada miséria humana, em cada centelha de sua agonia por ter tempo de sobra, solidão doméstica, privativa em vidas domesticadas. Aprender com um intérprete, cantor, letrista que a vida também serve de contemplação, de pausa, de estar sob licença doméstica de si mesmo. Mas com Moraes, posso escoltar a morte com suas letras ouvindo-as, pois talvez este seja o dolo mais correto nesse hiato, ter tempo para ouvir músicas, sentir saudades, chorar nossos mortos, confessarmos fragilidades, nos entupirmos de nossa fragilidade prepotente, ato educador dos dias de hoje, nessa era do vazio, celebrar hiatos.

Autor de "Feliz Ano Novo", "A Cólera do Cão" e muitos outros livros urgentes, Rubem foi um contista, romancista, ensaísta e roteirista. Em 2003, ele venceu o Prêmio Camões.
Autor de “Feliz Ano Novo”, “A Cólera do Cão” e muitos outros livros urgentes, Rubem foi um contista, romancista, ensaísta e roteirista. Em 2003, ele venceu o Prêmio Camões.

Dois dias depois da partida do Moraes, na quarta-feira, 15/04, morreu aos 94 anos o escritor Rubem Fonseca, criador de livros precisos e brutais. E aproveitando as muitas homenagens que estão sendo feitas ao escritor pelas redes, queria lembrar uma história bem bacana. Rubem já era conhecido por todos por ser avesso às entrevistas e interações com a mídia. Em 2012, porém, ele quebrou a timidez por um motivo nobre: cuidar da saúde de um ipê roxo, durante as obras de ampliação do metrô do Rio de Janeiro. A árvore teria o local alterado pelas obras da Linha 4 do Metrô. O escritor, que tinha o hábito de regar o ipê, manifestou preocupação e se mobilizou para impedir que a árvore sofresse danos durante a obra. Ela acabou, assim como diversas outras plantas, replantada na Praça Antero de Quintal, no Leblon, a poucos metros da casa de Rubem.

À época, eu estava fazendo matérias sobre o consórcio responsável pelas obras para a Folha de S.Paulo, e já considerava o Seu Rubem o maior escritor brasileiro vivo e lembro que ele comemorou muito o replantio daquela árvore. No dia, ele não cabia dentro de si. Ergueu o braço, no ar como quem comemora o gol da vitória. De fã, passei a chamá-lo de “o homi da árvore” em algumas ligações que mantive com ele, após a aproximação durante a negociação para que o ipê ficasse num lugar seguro. Da primeira ligação que fiz, com minhas pernas bambas, ao primeiro encontro, quando levei meu exemplar de “Clandestinos”, o qual foi devidamente autografado, foram muitos contatos. Ele era avesso convicto a qualquer interação com a mídia, e eu virei, nesse período, contando com o exagero, quase seu fotógrafo e assessor pessoal.

Seu Rubem fugia de conversa com a imprensa, que, sejamos francos, sempre reconheceu seu talento literário. Mas eu consegui que o autor de “Agosto” autorizasse o envio das minhas fotos e informações para a imprensa. Continuei trocando mensagens com ele, até bem pouco tempo atrás, no qual o escritor se referia à árvore como “nosso ipê” e elogiava o tratamento dispensado a ela. Ano passado, coincidentemente, fiz um post em suas redes sociais relembrando a história. Hoje, porém, me sinto “devastado” com a perda do escritor e meu amigo de árvore. Sempre recluso, o escritor não gostava de dar entrevistas nem de falar de sua vida pessoal. Mas em seu novo livro, “José”, ele criou um personagem que pode ser autobiográfico. Rubem figura no topo da lista dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Ao lado de outro também grande, o curitibano Dalton Trevisan, Zé Rubem, como é conhecido pelo círculo restrito de amigos, construiu uma fama de recluso: negava-se a conceder entrevistas, como já disse, não apreciava ser fotografado e, quando identificado em suas caminhadas “criativas” pelo bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, costumava dizer que “não, ele não é Rubem Fonseca, e sim Ruy Castro”.

Sobre a sua biografia e vida pessoal, pouco se sabe. Agora, uma pequena novela inédita, “José” (Nova Fronteira), vem à luz e tudo indica que o escritor que odiava falar de si próprio andava com propensões a memorialista. Como no título do livro, Rubem se chama a si mesmo de José. Como o personagem, descrito em terceira pessoa, ele é descendente de imigrantes portugueses, nasceu em Juiz de Fora e foi para o Rio aos 8 anos de idade. Também como o protagonista de sua história, estudou Direito, foi comissário de polícia, tornou-se um escritor – e famoso: o do livro lembra encontros com a autora americana Susan Sontag e viagens a prêmios literários internacionais. Todas essas coincidências levam a crer que o autor estivesse falando de seus anos de formação. Mas ainda assim, Rubem manteve o mistério em torno da criatura que parece ser ele próprio e cujas andanças por um Rio de Janeiro hoje inexistente ganha às vezes ares de ficção. Ou seja, sempre que o leitor acredita que tudo o que está sendo dito é verdade, na sequência um engenhoso procedimento literário lança dúvida e coloca tudo a perder. Eu, também metido a escritor, vou aqui sentir muito a sua falta. O que dizer do Rubem Fonseca nessa hora? Só agradecer. Autor de “Feliz Ano Novo”, “A Cólera do Cão”, “Agosto” e outros, Rubem foi um contista nervoso, romancista devotado, ensaísta curioso e roteirista aplicado. Em 2003, ele venceu o Prêmio Camões. Mas ainda acho que o seu melhor livro é mesmo o “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”.

"Todo mundo devia ter direito a sua cota de cinza, para não morrer afogado em cores e brilhos." (Luiz Alfredo Garcia-Roza)
“Todo mundo devia ter direito a sua cota de cinza, para não morrer afogado em cores e brilhos.” (Luiz Alfredo Garcia-Roza)

Já na última quinta-feira, 16/04, perdemos mais um mestre da literatura brasileira, Luiz Alfredo Garcia-Roza, aos 84 anos. Ele foi responsável por uma série de livros policiais que traz como personagem principal o detetive Espinosa, em livros como “O Silêncio na Chuva” e “Uma Janela em Copacabana”. Lá nos meus treze e/ou quinze anos, quando ninguém apostava nada em mim, quando não tinha nenhum professor apoiando, quando dentro de casa eu ouvia que “essa coisa de ficar com a cara nos livros era coisa de veado”, e sonhando em escrever livros para vender nas bancas da feira, descobri a obra policial de Garcia-Roza em um sebo e devorei as aventuras do delegado Espinosa. Anos mais tarde, nossos caminhos se cruzaram na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Agora, o Brasil perde mais um grande professor, um escritor exemplar, e um poço de bondade. E, nisso tudo, em meio a essa pandemia, celebrar a despedida anárquica de mitos nos dias de hoje, talvez seja algo mais revolucionário do que a liberdade poética pela morte de um vírus em sua aventura caricata, sindrômica, cruel, covarde, aética, porque essas mortes pelo efeito do cataclisma da pandemia, registram exatamente sob o peso necessário das ausências, tempo de sobra para sentirmos, pensarmos, fundarmos, lançarmos, sentirmos o peso de nada mais caber nas reticências, vá em paz, Moraes, Rubem e Garcia-Roza!

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