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Entrevista: Pedro Bial e Camila Appel falam sobre ‘Em Nome de Deus’

Pedro Bial

Pedro Bial e Camila Appel conversam sobre ‘Em Nome de Deus’, séries que o Globoplay estreia neste dia 23 de junho

Nesta terça, dia 23 de junho, o serviço de streaming da Rede Globo estreia uma das séries mais relevantes deste ano: ‘Em Nome de Deus’. A série documental revela detalhes da investigação que denunciou João de Deus para o mundo.

Pedro Bial e Camila Appel conversam sobre o assunto.

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Entrevista com Pedro Bial

A edição do ‘Conversa com Bial’ que denunciou João de Deus já entrou para a história e a repercussão do programa foi responsável pela prisão do curandeiro, além das denúncias de tantas outras vítimas que sofreram os abusos sexuais cometidos pelo médium. Qual foi a necessidade de dar origem a uma obra ainda mais profunda sobre os crimes e a vida de João de Deus? A escolha de fazer um documentário nasceu durante ou após o programa de denúncia?

Pedro Bial: Toda reportagem e investigação tem um começo, mas não necessariamente tem um término ou, pelo menos, um término em um horizonte imediatamente visível. Quando pusemos no ar o programa que expôs as denúncias relatadas pelas mulheres em relação ao João de Deus, ainda não sabíamos, mas começamos a perceber, logo após a exibição, que a história tinha outros capítulos e outros episódios, e que a atividade criminosa de João de Deus não se restringia ao abuso sexual de pessoas vulneráveis. Então, o documentário surgiu como uma consequência natural do trabalho de reportagem, que continuou. Quando você começa a cavar um túnel, você vai percebendo que vai chegando em algum lugar e vai descobrindo também novos caminhos, e a história vai crescendo…Foi isso que aconteceu e essa história está contada no documentário.

Você divide a condução do documentário com a Camila Appel, que descobriu os primeiros casos de abuso de João de Deus. De que forma você acha que a participação da Camila contribuiu para a série documental?

PB: A Camila Appel é uma protagonista dessa história, não só por ter sido a repórter que iniciou, levou adiante e conduziu a investigação, assim como foi a alma da inspiração para o programa. A Camila, já com o acréscimo de toda a equipe que dividiu com ela esse trabalho, foi decisiva também para a série documental.

Como as denúncias chegaram até vocês?

PB: Para o programa, as denúncias chegaram a partir de coincidências de pessoas próximas à Camila, que tinham um histórico com Abadiânia. Mas não é que as denúncias chegaram até nós. A partir dessas coincidências, trabalhou-se em uma investigação e, por causa do documentário, essa investigação foi ampliada. Além da Camila, outros repórteres e a própria direção do documentário participaram deste esforço de apurar as denúncias. Elas nunca chegam, nós é que temos que ir até elas, a partir de uma pista, que leva a outra pista, uma testemunha que leva a outra testemunha, um comentário ali que precisa ser verificado e confirmado, que leva a um outro… É esse o caminho de uma investigação.

‘Em Nome de Deus’ é sobre as vítimas, João de Deus, a casa de Dom Inácio ou práticas religiosas? Nas palavras de Pedro Bial, como é definida a obra que está sendo lançada?

PB: Basicamente, ‘Em Nome de Deus’ é a história de mulheres e de sua coragem de reagir. Mais do que resistir, de agir, a partir do sofrimento, da humilhação e do massacre que elas sofreram. Não só de uma pessoa, no caso, o João de Deus, mas da sociedade e da comunidade que permitiu que esse homem existisse da forma que existiu e perpetrasse os crimes que perpetrou. É um documentário sobre a voz das mulheres.

Em 2018, você chegou a declarar que a verdade bateu à sua porta, sem talvez imaginar a série de outros crimes cometidos por João de Deus, como lavagem de dinheiro, tráfico e homicídio.  Teve algo que te chamou mais a atenção e que gostaria de destacar?

PB: No momento em que a nossa investigação se aprofunda, me chamou a atenção o fato de que já havia indícios e evidências claras de que João de Deus tinha um pé, ou os dois pés e as duas mãos, no crime. Era um homem que já tinha um histórico totalmente manchado e várias acusações. Me surpreendeu como ele conseguiu ser acobertado e poupado durante tanto tempo, quando tanta gente já sabia, ou no mínimo desconfiava seriamente, de suas atividades criminosas. Quer dizer, o silêncio que permitiu que ele continuasse praticando a sua falsa medicina, a sua falsa solidariedade e o seu verdadeiro mal.

Em sua carreira de jornalista, correspondente e apresentador, você já testemunhou muitas tragédias e conquistas. Como foi estar diante de uma acusação gravíssima a um cultuado personagem, tão querido por anônimos e famosos? Quando foi que você teve a certeza de que as provas eram suficientes e que isso merecia ser denunciado pelo programa?  

PB: O que nos deu a confiança de que estávamos diante de denúncias que eram procedentes foi a repetição na descrição de todas as vítimas, que não se conheciam porque eram de diferentes lugares, estados e países. A descrição revelava um padrão que se repetia com todas elas. Essa evidenciação de um padrão de comportamento e de abuso foi a virada que nos deu a confiança, para não dizer a certeza, de que havia, de fato, base para que João de Deus pudesse ser processado e que essas mulheres tinham um caso sério, verdadeiro e urgente.

Entrevista com a roteirista Camila Appel

A roda de conversa representa o primeiro encontro das vítimas de João de Deus e talvez seja um dos momentos mais emocionantes e aguardados do documentário.  Você presenciou este encontro e ainda conduziu a conversa com as vítimas. Houve um momento em que se viu obrigada a separar a Camila mulher da Camila jornalista? Como lidou com toda essa carga emocional?

Camila Appel: Foi um momento marcante na minha vida, sem dúvida alguma. Elas chegaram lá a partir de uma conexão de confiança pré-estabelecida. Eu já havia me encontrado com elas e as entrevistado para a série. Além de inúmeras conversas no telefone. Eu as conhecia bem, suas histórias, e elas também me conheciam. Isso foi importante para se sentirem acolhidas naquele momento e para que eu estivesse mais preparada para conduzi-lo.

Eu lembro de entrar no estúdio, me sentar e buscar preparar aquele espaço mentalmente. Recebê-las com total abertura, acolhimento e respeito.  Tivemos a preocupação de evitar que se conhecessem antes daquele momento. Não havia câmera alguma entre nós. Era uma equipe mínima e muito bem preparada. Muitas mulheres me disseram que se esqueceram que estavam sendo filmadas. Ficamos mais de oito horas ali, em dois dias diferentes. Foi uma experiência emocionante e, apesar do nível de terror de tudo aquilo, uma experiência muito mais bonita do que triste. De esperança.

Você é repórter, escritora, dramaturga e autora. Apesar do currículo, as descobertas sobre João de Deus representaram um marco na televisão brasileira e na história do ‘Conversa com Bial’.  Com o documentário, o público teve a oportunidade de conhecer o lado perigoso do curandeiro, que conta com uma ampla rede de proteção e envolvimento no tráfico, por exemplo. Em algum momento você chegou a sentir medo? Pensou em desistir?

CA: Eu fiquei tomada por essa história. Pensava nisso o tempo todo. Meus colegas, amigos e familiares não conseguiam mais falar comigo. Eu estava inacessível. Algumas pessoas questionaram a investigação, disseram que eu era irresponsável de manchar a imagem de um homem santo. Isso mexia comigo. Mas não o suficiente a ponto de me fazer cogitar parar. Nossa diretora-geral, Monica Almeida, demonstrava preocupação comigo e me oferecia apoio o tempo todo. Ela deu a segurança de que, se eu caísse, ela estaria ali para me segurar.

Qual era a sua opinião sobre João de Deus antes de tudo isso?

CA: Eu não tinha uma opinião formada sobre João de Deus. Conhecia muitas pessoas que já tinham frequentado seu centro, sabia que ele atendia celebridades e políticos. Já tinha ouvido relatos de cura e pessoas que realmente o consideravam “de deus”. E só.

Após as filmagens de ‘Em Nome de Deus’, o sentimento é de dever cumprido ou ainda sente que a história continua? Qual a sua avaliação do trabalho realizado?

CA: Por que essas mulheres nunca falaram antes (falaram, denunciaram, mas não foram ouvidas)? Por que elas não saíam correndo, como ele conseguiu abusar de tantas mulheres, por tanto tempo, como era sua rede de proteção, ele era mesmo um homem perigoso? Um criminoso? Como João Teixeira de Faria virou John of God?

Sentimos a necessidade de dar um espaço maior para essas histórias de abuso, para entender seu contexto.  E, sobretudo, mostrar algo bonito surgindo disso, da exposição horrorosa de feridas simbolizada pela roda das mulheres. É a beleza da união, da fala e da escuta empática. Uma palavra que costumávamos mencionar em nossas discussões era: sororidade. O eco positivo que essa roda pode causar.

É difícil falar em cura porque uma ferida dessas pode não ser curada nunca. Mas ela encontra uma outra forma de existir. Foi isso que eu vi naquela roda, cercada por mulheres corajosas, inspiradas para levantar a cabeça, sair do silêncio, e dizer que vale a pena não se deixar calar.

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