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Teatro: Lelo Filho continua incomodando e queimando demônios

Fora da Ordem

“O ator baiano Lelo Filho reestreia, agora digital, o importante e necessário espetáculo ‘Fora da Ordem’.”

Por Elenilson Nascimento e Anna Carvalho

 “Há um grande equívoco em relação ao que se pensa, o que se sabe e o que realmente acontece sobre a cultura na Bahia, especificamente em Salvador. (…) E, nesse ínterim, o excelente ator baiano Lelo Filho é a exceção”. Bom, foi dessa forma que eu comecei uma matéria sobre o ator, lá no ano de 2014, sobre o seu monólogo “Fora da Ordem”. E não retiro uma única vírgula. A cultura da Bahia de resume a alguns bons e dedicados, que podemos contar nos dedos de uma das mãos. É uma imensidão de parasitas que se chamam artistas, principalmente nos palcos e telas. Lelo Filho, ao contrário dessa multidão de chatos, conhecido por suas participações em espetáculos como “A Bofetada” e “Siricotico – Uma Comédia do Balacobaco”, reestreou de forma digital no último dia 17/07, em uma pré-estreia concorridíssima e cheia de contratempos, o seu primeiro monólogo, para debater um pouco, nestes tempos de quarentena, sobre o período de ditadura no Brasil.

Sim, o pai da famosa Fanta Maria, saiu (até que enfim!) da perigosa e enfadonha zona de conforto e encarou personagens sofridos em um dos piores períodos na nossa História e que alguns idiotas querem reviver – onde personas que fazem parte de um núcleo familiar padecem com seus fantasmas e as consequências da ditadura. “Com as casas de espetáculos fechadas pela pandemia, nossa sala de ensaio foi transformada num pequeno teatro para que você, em casa, possa desfrutar de espetáculos ao vivo e transmitidos via internet” – contou o nosso anfitrião. E a módica frase positivista que embalsama a bandeira brasileira: “ordem e progresso”, talvez seja um grande estigma a ser superado. A quem interessa a ordem? Quem dirige essa ordem? Desfrutamos dessa ordem? Os insubordinados, não! Os fora da ordem, não! Desde “Pra Frente Brasil’, “Bye Bye Brasil”, a saga frenética de “Eu Sei Que Eu Vou Te Amar”, “Roda Viva”, “Macunaíma”, o teatro vira uma bela fronteira de resistência. Mas no enredo de “Fora da Ordem”, duas gerações da família Telles Pinto e 50 anos de história pós AI-5. Um ator. Quatro personagens em cena. Um misto de ficção e realidade. Este é o tempo, espaço e ação da peça, primeiro espetáculo solo de um artista único, com mais de 40 anos de carreira.

Mas muito cuidado com a palavra “ordem”, porque ela é motim, não é cênica. E ser existência segurando as mãos de qualquer Estado, não é ser resistente, pois precisamos nos impor sob a frase emblemática de Millôr Fernandes: “Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”. Mas ele consegue ratificar e criva a sua frase para descrever um entrevero com Chico Buarque. Exatamente como o ator, produtor, diretor, autor e um dos fundadores da Cia Baiana de Patifaria – se desafia nesse projeto “Fora da Ordem”, ganhador do Prêmio Myriam Muniz 2013 da FUNARTE, inspirado numa canção homônima de Caetano Veloso. A peça aborda temas como: ditadura, racismo, homofobia, violência, guerras santas, e intolerância social. E o momento é mais do que ideal, tema recorrente, porque existe um hiato de fato, todo país que passa por uma ditadura deve-se respeito, eterno cuidado com sua arte, com sua vocação, com a perseguição da liberdade como algo inexorável, sem agendas, normoses, dialética, e do ser livre. Mas o Brasil tende assassinar dialéticas, assim como fez com Belchior, Raul, Renato, Cazuza e tantos outros. E hoje em dia em plena democracia, nunca foi tão difícil se discordar, exercitar essa parte fundante no espetáculo da liberdade laureada: ser dissonante.

Em “Fora da Ordem”, através de um núcleo familiar desmantelado que vai desmoronando ao longo do espetáculo, Lelo expõe aos que não viveram os “anos de chumbo” o quão nocivo foi aquele período para a nação em vários sentidos: veto aos direitos políticos, cerceamento das liberdades individuais, censura prévia da informação que atingiu a todos e, brutalmente, as artes. E nesse contexto, a peça cumpre o papel do teatro em relembrar o que a ditadura produziu em seu frêmito nesse país, na caça de professores, escritores, jornalistas, atores e no total esquecimento de seus mortos. A força bruta do casto sobre a força bruta do livre. E a peça é uma espécie de luto, de exercício pungente sobre esse passado que ainda paira sobre hoje, pois a ditadura exorta seus demônios, suas comiseraçoes, o seu hálito de formol e ali o ator que já deu vida a trasloucada Fanta Maria, surge épico, voraz, trazendo em sua pele a textura tácito-explicita dessa necro época. Mas ainda hoje se espera que o país gofe e vomite os esqueletos de seu armário.

O ator baiano Lelo Filho ainda traz o oxigênio sobre um ator que não encerra sobre si a pecha do humor.

Mas o conflito se estabelece ao colocar em cena um pai militar e torturador num embate com quatro filhos que têm, como o próprio texto define, “a alma livre”. “Fora da Ordem” tem sim como força motriz discutir questões que parecem revelar um mundo em busca de algo que pode ser uma nova ordem, especialmente em 2020, ano em que se completam 52 anos que o AI 5 foi decretado. E aqui descerramos algo infame e de profunda heresia, a democracia também pode ser maculada com a liberdade pungente de agendas ditas democráticas, do politicamente correto. “Recriar um ambiente de censura e arbitrariedades foi como mexer num baú de memórias do período em que textos teatrais passavam pelo crivo da censura, novelas eram proibidas no dia de seu lançamento, discos de vinil tinham faixas arranhadas, letras de música ganhavam metáforas para driblar as proibições do regime militar”, recordou Lelo Filho.

Mas o país produziu nos últimos anos uma certa anestesia, o patrulhamento anacreonte de pensamentos, atitudes e ações pela lógica civil do silenciamento “good wibes” , de gente que decide e patenteia suas patotas, de um entorno livre, mas casto por pessoas e perseguições tácitas ou trágicas de veículos (inclusive o nosso antigo blog Literatura Clandestina e, hoje, a censura aos jornais) que peitava o Governo alado de um certo partido que perseguia, entulhava e capitaneava essa nova versão de ditadura a delivery, a granel, em um varal de unidades de pensamentos aparelhados, na arte, na educação, universidades, nos livros, ou seja, produziram uma ditadura ainda pior: a livre. Que país, my God!

Mas o espetáculo solo do Lelo Filho, uma mistura de teatro, música e cinema, reúne ainda um coletivo de participações especiais, vozes em off e projeções. Uma peça “reensaiada para o novo formato, mas sem perder a magia da mistura do teatro e cinema da versão original apresentada desde 2014 quando a peça estreou, tendo levado mais de 7 mil pessoas aos teatros por onde passou”. Contudo, hoje, esse mesmo país que regurgita censura em todos os lados, cria seu índex, mente, extorna e convida gente que ainda pensa a estar mais uma vez sobre esse ar rarefeito.

Sim, “há perigo na esquina”, hoje, a democracia pode ser atacada pela toga, pela Bic, por um certo filho do Brasil. Ora sob améns e aleluias, patrocinados por igrejas e afins; ora sob o corcel veloz e frátrio de companheiros. E, pasmem, Lelo Filho ainda traz o oxigênio sobre um ator que não encerra sobre si a pecha do humor, mas traz o volume épico da dor de espíritos atingidos nessa babel baiana, nessa província de celebridades sem talento, que também excretou censura na ditadura. A Bahia lhe deu régua e compasso para ter em sua pele o sal do suor, lágrimas e ar rarefeito de um ósculo pouco liberal. Lelo Filho ainda faz a síntese dessas dores com pungência, verdade, verossimilhança.

E, nesse Brasil, distante para os mais jovens e esquecido pelos professores de História, do ame-o ou deixe-o, nessa pátria que cisma em festejar o luto da sua própria cultura… O Brasil, onde o cidadão sempre foi o verdadeiro coração valente frente a frente com o seu presente covarde que lhe oferta como anti-herói, a corrupção sendo vista como legítima, o ator premiado, sozinho no palco num cenário macabro (com direito até a cadeira elétrica), interpreta emocionado coisas que nós queremos esquecer, incorporando no seu modo narrativo para conduzir um enredo nada fácil, e acaba saindo muito bem na empreitada, demonstrando versatilidade, cuidado, talento e talento de novo – nas cenas da tortura, por exemplo, onde emociona e passa muita verdade na construção de seu personagem agredido.

“Fora da Ordem” no seu formato digital em um país produziu nos últimos anos uma certa anestesia: o patrulhamento anacreonte de pensamentos.

A compleição física longilínea do homem cede lugar à estrutura voraz e transmutada para esse tempo espúrio. Insistimos, na censura gelada produzida pela ruptura da dissonância, pela morte da dialética de um país democrata em que esse poleiro de gastar gente à La Darcy Ribeiro e que ainda procrastina gemidos desses corpos dóceis que são exibidos nessa democracia estúpida de hoje. Em suma, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Não somos inéditos, repetimos com a mesma maestria embalsamada coisas, cenas, lumes que ainda não queimamos de fato. Ainda há aqui espectros de espíritos que regozijam com a época saudação gestapiana. “Fora da Ordem”, em seu formato digital, é o soco no estômago de brasileiros prisioneiros de um vírus tácito que sintetiza benesses de uma outra ditadura que governa 20% do mundo. E enquanto houver ditaduras que invistam em democracias sob o véu do capital, a liberdade estará em xeque mate, matando cada espírito dissonante e muito pouco voyeur dessa nova ordem.

SERVIÇO
FORA DA ORDEM c/ Lelo Filho
Todos os domingos, a partir das 18 h.
Os ingressos estão à venda no Sympla e a plataforma de transmissão é a Zoom.

 

 

 

 

 

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