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Pane nos campos-de-força: sobre a poesia de André Nogueira

André Nogueira

A poesia de André Nogueira é por vezes orbital, e flana por céus, aragens de siderações, épocas estelares, quês cósmicos: “Bem-aventurado/ é o padre/ dos balões,// O gás-hélio/ que o levou/ para as alturas,// O sopro divino do vento,/ as estrelas — bilhões/ polvilhando o céu de prata e ouro puro”. Rapidamente, no entanto, o poeta abate, em pleno vôo, quaisquer transcendências evasivas. Nogueira causa pane aérea em cismas noturnas, escancara tiques e capta chilreios no painel do progresso. Faz-nos perceber a sujeira da viração. E contunde nossas cápsulas de leveza, e, aceleradamente, nos reconduz ao chão. E à terra. E que terra é esta?

O Brasil de Notre Dame do Agreste [Editora Primata, 2020] é o Brasil que explode, literalmente, sob as dinamites dos senhores do minério, onde só a torre da igrejinha respira à tona, inundada de lama tóxica. País sangrando, sob o zunir dos helicópteros, cravejado por balaços de fuzis, que nas cidades sobrevoam escolas, e perfuram telhados e corpos. (Moedores aéreos de carne, reposições do helicóptero-citibank de Roberto Piva, a abrir fogo contra os amantes do Copan. Eterno retorno do sempre-igual. Moscardos-dragões no brasão do Brasil, bestas panorâmicas, infernais).

Só que André, poeta brilhante, rasga fissuras no horror, como sulcos na terra arrasada, e lá semeia fragmentos germináveis. Logo o sino anuncia outra vez a quermesse, há violas e feirinhas nesse agreste. Nogueira recolore as bandeirolas, barrocos tosco-encardidos das Minas Gerais, as quase-pazes de Guimarães Rosa, e revive a natureza como templo verdadeiro, com as grutas protetoras, damas-da-noite e amigas-árvores, e os animais entoando salmos anagógicos, fabulares, alienígenas, fluorescentes, nestes tempos devastadores de covid. Os animais! Com os animais o poeta tantas vezes conversa, e lindamente, como Augusto dos Anjos com seu tamarindo.

E não é André Nogueira, nessas grutas mercuriais, um eremita, que transforma a lama de rejeitos em vinho e mel? Reencantador de Paraopebas, pedregulhos de brita, o poeta recostura o grande cesto da sua mãe-natureza, que as máquinas da exploração descoseram. André, viajante das zonas crepusculares, vem escrever sem parar sob os sombreados folhifarfalhantes do câmpus, nas mesinhas das arcádias, ao anoitecer das sextas-feiras. E abre em seus caderninhos trilhas e meandros entre escombros e ruínas, vias de escape para além dos arames farpados, guaritas e campos-de-força.

O livro Notre Dame do Agreste está disponível em:

Notre Dame do Agreste, de André Nogueira

 

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