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Um pornô fantasma

The Operation
The Operation

Um pornô fantasma

o grande reflexo lilás caminha/creme de anjos/flor ameaçadora da manhã/vento varrendo a paisagem

[Roberto Piva]

The operation (1995), de Jacob Pander e Marne Lucas, curta underground bastante premiado nos já remotos anos 1990, é uma sequência pornográfica filmada em infravermelho.

Segundo a Wired, no filme “tecnologia e carne colidem”. A técnica se faz presente, entretanto, não apenas no aparato de câmera ou nos recursos de montagem à disposição: o jogo sexual (sobretudo oral) apresenta uma cenarização cirúrgica.

Encontra-se numa maca o personagem interpretado por Otto Wrek, a quem o preto e branco fantasmagórico do infravermelho dão as feições de um CPR. Gina Velour, a atriz que interpreta a cirurgiã, corta o tecido que envolve o seu objeto cirúrgico delicadamente, como se retalhasse um omento seguindo uma linha pontilhada. Em sequência, toma-lhe, de seu paciente, o pênis, com uma pinça-bisturi (há ênfase nas tesouras, nas pontas secas, nas lâminas organizadas), e a felação tem início, numa estranha luz de chapa radiografada. Um pouco antes, ela tirara a máscara médica. Sua peruca é mimetizada sem prejuízos de representação.

O mais são episódios, como diria Aristóteles; o fim do intercurso se encontra no cumshot, também chamado de money shot, no velho jargão pornô. A trilha sonora é um ruído estranho, de frequências indiscerníveis, vozerios alienígenas.

Um trio de cirurgiões, cujos trajes remetem a roupas anti-atentado biológico e a máscaras de gás, tendo câmeras instaladas à testa, languidamente observa os engajados na dinâmica pornográfica. Como se as figuras tivessem algo de sacerdotal, sob as capas de TyVek de borracha incólume, com luvas e óculos protetores.

Se os personagens de James Ensor se engajassem numa representação pornográfica, talvez o efeito fosse semelhante ao causado por The operation. Após a ejaculação, recebida pela protagonista, o trio de observadores vai embora. Os mascarados deixam seu camarote, talvez satisfeitos com o que observaram, talvez gracejando por detrás das carapuças, talvez balbuciando algo aos pés dos ouvidos, entre si. E eis que surgem num elevador. O elevador é lúgubre, seus limites são alambrados; assemelha-se ao elevador que antecedia a tortura na filmagem do snuff, em The Brave (1997, dir. Johnny Depp).

A cena final da obra de Jacob Panders fecha-se num zoom, e demora-se no semblante de um dos médicos. A cabeçorra, tomada frontalmente, evoca imediatamente um formato de bico, como se fosse uma repisada referência aos bocais de proteção utilizados no século XIV, durante a Peste.

A atmosfera religiosa-ritualística cerca a figura dos cirurgiões voyeurs, nesse filme; talvez aí se localize a paródia do médico enquanto figura salvadora. E a espetacularização técnica dos efeitos especiais e da câmera, que capta espectros de calor, não se liga materialmente à caricatura médica, enquanto paroxismo de status e dinheiro, numa escala social tecnocrática?

Tecnocracia espúria ou religiosidade inquietante: The operation, enquanto sarcasmo, aglutina em perspectiva satírica as tendências temporais e transcendentais da técnica e do misticismo ocidental.

Quando a carne e a técnica colidem num cenário de conotação ritualística, extrai-se daí o creme de anjos, para lembrarmos de um verso de Piva. Vemos a convergência da visualidade maquínica e alerta à pornografia, à pós-pornografia, ou se quisermos, a uma pornografia endoscópica, que sonha em colonizar o corpo inteiro, inclusive as entranhas invisíveis.

Link para informações sobre o filme: http://www.theoperationmovie.com/

 

 

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