Crítica

“La Canicule em Paris: quando o calor extremo vira debate político”

Durante uma onda de calor histórica, o ar-condicionado tornou-se o centro de um debate político cada vez mais intenso em França.

Em meados de junho, Emmanuel Grégoire, o recém-eleito presidente da Câmara de Paris, surgiu nas margens do Canal Saint-Martin rodeado por parisienses sem camisa, num evento performativo que simulava um batismo inspirado em São João. Entre os presentes estava Lyas, um influenciador de vinte e poucos anos, de cabelo encaracolado, que vestia uma t-shirt rasgada com a frase “fashion pas facho” (“moda não fascista”), estendendo os braços para receber um gesto simbólico do autarca antes de cair na água. Outros banhistas seguiram o exemplo, entrando no canal.

Grégoire, membro do Partido Socialista, não foi o primeiro presidente da câmara de Paris a promover a reabertura dos canais à população, numa cidade cada vez mais afetada pelo aquecimento global e por ondas de calor extremas. A sua antecessora, Anne Hidalgo, já tinha realizado um gesto semelhante ao mergulhar no rio Sena antes dos Jogos Olímpicos de 2024, num contexto de grandes investimentos na limpeza do rio. Mais tarde, foram criadas zonas oficiais de banho no Sena e no Canal Saint-Martin.

No entanto, a cidade enfrenta agora uma realidade mais dura. Uma nova vaga de calor atingiu França e grande parte da Europa, com temperaturas que chegaram aos 45 °C em alguns momentos. Em Paris, o impacto foi imediato: escolas encerradas, lojas cobertas com materiais refletivos para bloquear o calor, restaurantes a funcionar apenas à noite e monumentos como o Louvre e a Torre Eiffel a fechar mais cedo.

Nas ruas, a vida quotidiana tornou-se uma luta contra o calor extremo. Pessoas usam ventoinhas portáteis, borrifam água no corpo e procuram qualquer forma de alívio. A situação levou até a episódios de tensão em espaços públicos. A crise também expôs desigualdades sociais visíveis, como acampamentos improvisados em estações de metro.

As autoridades reforçaram alertas de saúde pública e medidas de emergência. Hospitais ficaram sobrecarregados e foram impostas restrições temporárias, incluindo a limitação do consumo de álcool em espaços públicos. As autoridades lembraram a população de que a situação é potencialmente mortal, evocando a onda de calor de 2003, que causou milhares de mortes em França.

No centro do debate está agora a questão da climatização. O uso de ar-condicionado divide opiniões: de um lado, é visto como uma solução necessária perante ondas de calor cada vez mais frequentes e perigosas; do outro, é criticado como uma resposta insuficiente e potencialmente prejudicial para o clima, além de incompatível com a estética urbana parisiense.

A direita política tem defendido a expansão do ar-condicionado como política pública, enquanto setores ambientalistas alertam para os seus impactos energéticos e defendem soluções estruturais mais sustentáveis, como o aumento de áreas verdes e a adaptação urbana.

Enquanto isso, Paris continua a funcionar sob pressão. Turistas e visitantes estrangeiros adaptam-se ao calor com humor e improviso, enquanto eventos de moda e cultura tentam ajustar horários e formatos para sobreviver às temperaturas extremas. Ainda assim, mesmo o luxo e a estética da cidade acabam condicionados por um elemento cada vez mais dominante: o clima.

No fim, “La Canicule” deixa de ser apenas uma expressão meteorológica para se tornar um símbolo de uma crise maior — onde o calor extremo expõe fragilidades políticas, sociais e urbanas de uma das cidades mais icónicas do mundo.

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