Crítica

“Couture”, analisado: Angelina Jolie enfrenta o drama com elegância, mas o filme perde força no caminho

O novo melodrama “Couture”, passado no universo da alta-costura parisiense, não precisa ser brilhante para despertar a vontade de que tivesse mais tempo de duração. Em vários momentos, o filme parece fragmentado e apressado, como se várias histórias promissoras tivessem sido comprimidas num espaço de apenas uma hora e quarenta e cinco minutos.

Dirigido por Alice Winocour, que também assina o argumento com Jean-Stéphane Bron, o filme funciona como um mosaico de pequenas narrativas centradas nas mulheres envolvidas na preparação de um desfile de moda. Angelina Jolie, que também é produtora, interpreta Maxine Walker, uma realizadora americana de cinema, conhecida por filmes de terror com protagonismo feminino. Ela chega a Paris para filmar um projeto promocional para a marca e acaba envolvida na direção artística de um desfile com estética sombria e quase gótica.

Maxine é a personagem mais desenvolvida, mas mesmo a sua história surge entrecortada. Vive em Los Angeles com a filha adolescente, atravessa um divórcio e prepara um filme há muito esperado. Ao mesmo tempo, enfrenta suspeitas médicas que se confirmam em Paris: é diagnosticada com cancro da mama, sendo aconselhada a uma cirurgia imediata. Este conflito pessoal dá peso emocional ao filme, mas também evidencia o seu limite narrativo.

Paralelamente, outras mulheres orbitam o universo da moda sem que as suas histórias sejam plenamente exploradas. Ada, uma jovem modelo sul-sudanesa de 18 anos, tenta construir uma carreira enquanto envia dinheiro para a família. Angèle, maquilhadora, sonha tornar-se escritora, inspirada por ideias sobre criação literária. Christine, costureira exigente e meticulosa, vê o seu trabalho ganhar destaque na passerelle. No entanto, todas estas trajetórias surgem apenas em fragmentos, sem o desenvolvimento necessário para criar verdadeiro impacto.

A própria estrutura acelerada do filme gera momentos quase involuntariamente cómicos, como uma cena em que Christine se fere durante a costura, mas continua imediatamente a trabalhar sem qualquer consequência visível. O ritmo apressado transforma situações potencialmente dramáticas em simples esboços narrativos.

Apesar disso, alguns elementos ganham força precisamente pela falta de aprofundamento geral. O diretor criativo da casa de moda, interpretado por Grégoire Colin, impõe uma presença silenciosa e ameaçadora, representando o poder frio da indústria. Já Vincent Lindon, no papel do médico, traz uma autoridade quase inabalável, enquanto Louis Garrel acrescenta uma sensibilidade discreta como diretor de fotografia e interesse amoroso da protagonista.

O filme sugere também uma reflexão sobre a indústria da moda como sistema rígido e hierarquizado, mas raramente se aprofunda nesse potencial crítico. As personagens femininas mais jovens, apesar de interessantes, acabam por não ter espaço suficiente para se desenvolverem plenamente.

Ainda assim, há momentos em que “Couture” transcende a sua própria estrutura. Uma sequência em que um desfile é interrompido por mau tempo transforma-se numa experiência visual mais livre e expressiva, combinando imagem e narração para sugerir as emoções internas das personagens. É um instante de maior ambição estética que contrasta com o restante filme.

No fim, “Couture” deixa a sensação de um projeto com ideias ricas e temas fortes, mas que não consegue explorá-los com profundidade suficiente, resultando numa obra elegante, mas irregular.

Shares: