Cinema

“Por que The Odyssey gerou tanta controvérsia”

A nova adaptação de Christopher Nolan da epopeia grega de Homero, The Odyssey, estrelada por Matt Damon, Zendaya e um elenco de grandes nomes, já é apontada como o filme mais aguardado de 2026 — mas também um dos mais contestados.

Depois de Oppenheimer, filme centrado na criação da bomba atómica e nas suas implicações éticas, muitos imaginaram que o próximo projeto de Nolan seria menos polémico. Afinal, a história de Odisseu envolve heróis, deuses e monstros da Antiguidade. No entanto, a produção rapidamente se tornou alvo de debates culturais e políticos.

Controvérsias no elenco

Grande parte das críticas surgiu em torno das escolhas de elenco. A presença do ator transgénero Elliot Page e do rapper Travis Scott em papéis ainda não revelados gerou reações negativas em alguns setores mais conservadores.

Outra polémica envolveu a escolha da atriz Lupita Nyong’o, de origem queniana, para interpretar Helena de Troia, tradicionalmente descrita por Homero como de pele clara. Nas redes sociais, figuras como o comentador Matt Walsh acusaram a produção de “reinterpretação ideológica”, críticas que chegaram a ser apoiadas por Elon Musk.

Por outro lado, vários académicos e especialistas em literatura clássica consideraram o debate exagerado. Alguns lembram que Helena tem um papel relativamente pequeno na Odisseia, e que os mitos gregos sempre foram reinterpretados ao longo da história. Para estes estudiosos, o mais importante é o caráter simbólico da narrativa, não uma reconstrução histórica literal.

Mitologia vs. “realismo”

Outra linha de crítica surgiu da comparação com filmes anteriores, como Troy (2004), com Brad Pitt. Parte do público exigiu maior “fidelidade visual”, questionando até detalhes como armaduras ou o design dos navios, apesar de se tratar de uma obra mitológica.

Especialistas em estudos clássicos argumentam que existe hoje uma tendência de tratar mitos como se fossem documentos históricos, quando, na verdade, fazem parte de tradições narrativas abertas e reinterpretadas continuamente.

O problema dos sotaques

Outra polémica surgiu com o uso de sotaques modernos no trailer. Personagens como Telemaco, interpretado por Tom Holland, falam com um inglês americano contemporâneo, o que levou alguns espectadores a considerar o tom “fora de época”.

Críticos mais favoráveis à decisão lembram que qualquer tentativa de reproduzir a fala do mundo antigo seria inevitavelmente artificial. Além disso, a tradição do cinema épico sempre recorreu a sotaques modernos — frequentemente britânicos — como convenção estilística.

Por que o filme virou alvo

Para muitos analistas, a intensidade da controvérsia está ligada ao próprio estatuto de Nolan e à escala do projeto. Os seus filmes são eventos culturais globais, amplamente discutidos antes mesmo da estreia, o que amplifica qualquer decisão criativa.

Além disso, The Odyssey adapta uma das obras mais influentes da literatura mundial, o que faz com que qualquer alteração seja imediatamente debatida por diferentes públicos, desde fãs de cinema até estudiosos de clássicos.

Uma obra inevitavelmente polarizadora

Apesar das críticas, alguns especialistas apontam que esta controvérsia pode ser precisamente o que garante o sucesso do filme. Nolan é conhecido por obras ambiciosas e pouco convencionais, e a sua abordagem ao épico de Homero segue essa linha.

No fim, The Odyssey tornou-se polémico não apesar da sua escala e ambição, mas por causa delas — um reflexo de como mitos antigos continuam a ser campos de disputa cultural no presente.

Shares: